Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de janeiro de 2011

Paisagem da Janela (por Beto Guedes)

[música de Lô Borges e Fernando Brant / versão de Lô Borges aqui]

Meu Caro Amigo - Chico Buarque / Francis Hime

Shifting (VFS)


As fábulas, salvo engano, com suas duras e inflexíveis lições de moral, não humanizaram o animal ao emprestar-lhe elementos humanos; ao contrário, elas brutalizaram/animalizaram o homem. Aqui, nesta curiosa inversão homem-natureza, que guarda parentesco com as fábulas, no animal encontra-se o pior do homem. P.S. Ou será ainda a projeção do pior do homem no animal?

ilha

Uma das combinações de palavras jogadas no google ou congêneres que conduziu a este blog, essa semana, foi "ilha do naufrágio". Da minha infância trago a memória de A ilha perdida, que todo mundo leu e eu só ouvia falar que era incrível (acho que só li bem depois, quando não tinha mais como achar incrível), de uma coleção de histórias infanto-juvenis da Ática que foi a leitura escolar da minha geração. Há também a narrativa famosa da história de Robinson Crusoe, o habitante solitário de uma ilha. Mas aqui não é a ilha perdida ou do naufrágio, nem eu sou o personagem de Daniel Defoe. Sabe-se lá o que busca alguém numa ilha do naufrágio. Sei que, na minha infância, havia um programa de televisão semanal muito cotado, "A Ilha da Fantasia", em que as pessoas chegavam em busca das coisas mais bizarras possíveis. A única lembrança que ficou, daquele mundo imaginário e fantasioso, foi de um visitante que queria viver qualquer coisa relativa ao romance O morro dos ventos uivantes, e foi conduzido para uma espécie de castelo isolado e sombrio para viver sua fantasia. Ilha da fantasia + morro dos ventos uivantes é uma combinação curiosa de esquisitice para um imaginário infantil, mas certamente foi mais estimulante que as coisas que as crianças estão assistindo e lendo hoje, salvo engano. 

Histórias Mínimas (Argentina, Carlos Sorin, 2002)

[imagem obtida aqui]

Se um filme é também o que dele nos atravessa, então pouco me importa o que terá dito a crítica de bom ou ruim acerca de Histórias Mínimas, uma co-produção argentina e espanhola. Depois fiquei sabendo que o diretor já era famoso e premiado, que tem outro ótimo filme, talvez até melhor que este, etc. e tal. Assisti ao filme desarmada desse arsenal crítico. Para mim, Histórias Mínimas é a história de um sábado à tarde em que entrei no cinema para assistir a mais um filme. Uma hora se descobre que histórias mínimas é o que se tem para viver, quando não se nasceu Riobaldo, Diadorim ou Zé Bebelo

Bob Dylan: Just Like a Woman (cover)

Murilo Mendes

Solicitude

É preciso orientar as notas musicais
E cuidar do asilo das flores.
A criatura menos órfã do universo é a estrela
E a mais indiscreta, o homem.

O poeta guia a música.
A morte atrai o tempo,
O demônio atrai a guerra.

Tenho pena dos que vão nascer.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.272.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Concertos para a Juventude

O programa dominical Concertos para a Juventude foi, creio, minha iniciação ao que eu hoje chamaria o sentido do estético, ou o sentido estético da vida. Não havia nada no interior onde eu morava (esta é uma crônica complicada, difícil), mas um belo dia eis que se comprou uma televisão, para o bem e para o mal. Então me dou conta de que a arte foi o meu investimento, e agora um reduto. Não ouvia aqueles concertos em vão. Tento reatar o fio de hoje com o daquele tempo, os todos sacrifícios, e o único que faz algum sentido é a arte, mesmo em sua quase sempre ausência de sentido, mesmo na dificuldade de reatar o fio. Segue uma pequena apresentação do formato do programa fornecida pela emissora (aqui). 

Mozart - Sinfonia nº 40 (versão clássica)

Mozart - Sinfonia nº 40

Genesis - Watcher of the Skies


Indicação do Zé Alberto. "Watcher of the skies watcher of all / His is a world alone no world is his own, / He whom life can no longer surprise." Isso merece um trecho da Clarice Lispector: "O mais difícil é não fazer nada: ficar só diante do cosmos. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem vontade fazer nada é a nudez final. Há uns que não aguentam. Então vão se divertir. Estou escrevendo de madrugada. Talvez porque não queira ficar só diante do mundo. Mas de algum modo estou acompanhada. Não sei explicar. É bom." (A descoberta do mundo, p.375)

The Cathedral (2002)

Também no openfilm e no vimeo. Informações aqui. E uma curiosa paródia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Cildo Meireles: Babel e Marulho


Foi no mestrado que ouvi falar de Cildo Meireles pela primeira vez. Havia lido um texto que fazia alusão ao um trabalho dele, e comentei algo assim com meu orientador: o texto fala de um tal de Cildo Meireles. Meu orientador, gatilho rápido, me puxou as orelhas, num jeito muito dele e ágil de falar e pensar: Deus do céu, não sabe quem é Cildo Meireles, um dos maiores artistas plásticos deste país! Pois era este o depoimento que eu dava com a expressão um tal de. Ah, como é doce a ignorância! Até hoje não consigo deixar de rir com a lembrança dessa cena, o cômico de tudo, como a linguagem trai. Mas tomei tento, nem foi essa a primeira vez que me surpreendi (ou fui surpreendida) na minha ignorância. A fala dele era clara, nunca me esqueci. De fato, do pouco que entendo de arte, o trabalho de Cildo Meireles é impactante, e quando fui ao Museu de Arte Contemporânea de Inhotim-MG, tive oportunidade de conferir uma galeria com três instalações dele, algo que rendeu dois posts (Desvio para o vermelho e Através). E aí justifico o vídeo acima, cheio de ruídos. O mundo está repleto deles, e já não me lembro quem me falou uma coisa assim: que é bom ter um rádio em casa, pois à noite, entre as estações, é possível captar os ruídos, os sons do universo...

então certo dia eu quase morri...

Há intervalos em que a vida abre uma brecha. Num deles eu me vi morrendo, ou quase. Faz já bastante tempo, mas a memória de tudo é vivíssima. Abriu-se uma brecha, um intervalo, entre uma cidade e outra, uma vida e outra, era uma passagem, como quando o relógio bate meia-noite e não se sabe se é 24h ou zero hora. Aquele intervalo que não já não mas ainda não é. Um momento zero, nada, nulo, vazio, amplo como o horizonte que se descortinava à minha frente. Abriu-se uma brecha, e então aconteceu. Era tudo muito estranho, mas eu sabia bem o que era. Era abismar-se em alguma coisa jamais experimentada ou sentida. Mais do que isso, jamais suposta ou imaginada. Quem poderá entrever o imprevisível? Medo, muito, daquela súbita vertigem ou desordem. E, na desordem, na vertigem (perceber-me abismando não sei bem em quê), a ordem rápida, imperiosa, para voltar, para a vida evidentemente. Sentir-se morrendo em vida, sentir a vida, não a física, mas a outra, imponderável, escapando. À ordem de voltar, vinda dos confins de mim, daquilo que em mim supostamente sabe onde está a bússola, eu fui voltando. Pois se morrer é inevitável, sentir-se morrendo em vida é alguma coisa que vai acontecer com algumas pessoas, e só com elas, e que pode ser percebida ou não. Por acaso eu percebi, e toda vez que a coisa vai ficando esquisita, eu me lembro daquele dia, da luta travada, em pé num ônibus, olhando o nada, a paisagem, abismando-me em mim mesma. Eu estive lá, não sei bem onde, e voltei. 

ESO premia imagens de amadores (2010)

A imagem vencedora mostra o complexo nebuloso M78 em Orion
Foto: Igor Chekalin/ESO/Divulgação[conferir as imagens premiadas aqui, aqui ou aqui]

Intacto (Espanha, Juan Carlos Fresnadillo, 2002)

"Intacto (Espanha, 2003) é o tipo de filme que o espectador deveria ver sem ter ouvido falar." Assim começa o comentário do Cine Repórter (aqui). E foi justo assim que se passou comigo, uma mostra de cinema espanhol contemporâneo assistida, já se sabe, em BH. Então abandono o comentário, pois assim ele o pede, para dizer apenas que me lembrei deste filme bastante forte hoje, talvez não por acaso, e como havia esquecido quase tudo, exceto o filme e sua estranha matéria, joguei (e esta é uma palavra importante no filme), joguei umas palavras-chave no google, como "filme espanhol", "único sobrevivente de acidente aéreo", "acaso". Consegui chegar à minha pérola. E é só o que vou dizer, pois concordo inteiramente com o que diz o crítico na abertura do texto aludido. Já falei muito até.

delicadeza

Creio que raramente eu consegui que minha delicadeza fosse percebida ― ou ela está bem escondida, ou foi brutalizada (e quem sabe mesmo se perdeu). Como sei dela então? Reminiscências da infância me dão notícia de um tempo em que eu existia, apenas, e o mundo parecia uma promessa feliz. Mas quando digo de um desejo de que ela seja percebida, então é como se ela continuasse aqui, em algum recesso ou canto obscuro de difícil acesso.

Oscar e afins

De um colunista de O Globo, edição de hoje, abordando, com humor, a mercantlização crescente do Oscar e os mecanismos de produção dos vencedores: "Se você me disser mil vezes que 'A rede social' é o melhor filme do ano, talvez até me (con)vença pelo cansaço."

Paulo Mendes Campos: frases

“Devo aos poetas de todos os tempos a sobrevivência de minha alma.”

“Nunca tive cachorro nem gato; só tive árvore.”

“Nunca poderei ser mais do que sou  nem desejarei!”

“A constrição constante da morte me ajudou a ganhar a vida.”

“Abaixo da minha gana graciosa pela justiça, minha desesperançada e doce indiferença.”

“A aspiração precoce a uma velhice respeitável foi uma constante de todos os muros honrados que vi nascer e viver.”

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 18; 139-140.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Manuel Bandeira


TRUCIDARAM O RIO

Prendei o rio
Maltratai o rio
Trucidai o rio
A água não morre
A água que é feita
De gotas inermes
Que um dia serão
Maiores que o rio
Grandes como o oceano
Fortes como os gelos
Os gelos polares
Que tudo arrebentam.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.158. 

Paulo Mendes Campos: infância

A história do LSD me levou à busca do relato de Paulo Mendes Campos. Comprei o livro (Cisne de feltro) e foi a primeira coisa que li, assombrada com tanta revelação, que ainda não assimilei. O relato é longo, riquíssimo, diria mesmo imperdível, e a tentação de postá-lo aqui é grande. Mas o meu momento é de muito trabalho, não posso me dar esse luxo. De forma que, naquele meu ritmo meio dispersivo de leitura, vou lendo as outras crônicas do livro, às vezes no ônibus, e me reencontrei com esse autor ímpar de nossa literatura, que me causou tanto assombro com a crônica O cego de Ipanema. Paulo Mendes Campos é mineiro, e fez parte dos desatinos da rapaziada, mas não é Fernando Sabino, Carlos Drummond Andrade ou Otto Lara Rezende. Paulo Mendes Campos é uma flor melancólica e cheia de humor que brota do tédio do asfalto

"Ruim na infância é a incompreensão dos mais velhos. Estes são mais infelizes ainda e sofrem de tédio ao medo, à perplexidade, à agressividade da criança. Decidem do destino infantil com palavras lacônicas, nessa mesma reserva cruel que Deus mantém para com os homens. Há uma razão para tudo: o horror é não sabermos distingui-la, e só encontrarmos alívio na resignação ou no desespero. Assim respondíamos com ressentimento à naturalidade egoísta com que os mais velhos nos viam seguir para o purgatório, onde íamos expiar lentamente um crime que ainda não tínhamos cometido."

CAMPOS, Paulo Mendes. O colégio na montanha. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 57.  

Caetano Veloso - "O Leãozinho" (1977)

citação

"Arre, estou farto de semideus! / Onde é que há gente no mundo?"

(Álvaro de Campos, Poema em linha reta)

Borges e a maravilha apócrifa do caos (da linguagem)

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o dr. Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos g) cachorros soltos, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam feito loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar o jarrão, n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também pratica o caos. 
[...]
Registrei as arbitrariedades de Wilkins, do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas; sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. 'O mundo', escreve David Hume, 'talvez seja o esboço rudimentar de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de seu trabalho deficiente; é obra de um deus subalterno, de quem os deuses superiores zombam; é a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada, que já morreu' [...]. É possível ir mais longe; é possível suspeitar que não haja universo no sentido orgânico, unificador, que tem essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjecturar sobre seu propósito; falta conjecturar sobre as palavras, as definições, as etimologias, as sinonímias do secreto dicionário de Deus. 
[...]
Esperanças e utopias à parte, talvez o que de mais lúcido se tenha escrito sobre a linguagem são essas palavras de Chesterton: 'O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de uma floresta outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que de dentro de um corretor da bolsa possam sair ruídos capazes de significar todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo'.

BORGES, Jorge Luis. O idioma analítico de John Wilkins. Trad. Davi Arrigucci Jr. ___. Outras inquisições (1952). São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p.121-126. 

Oceanos (Jacques Perrin, 2009)

[Oceanos: "ópera selvagem do fundo do mar" (aqui) / vou conferir]

encontrado numa enciclopédia chinesa

Na classificação insólita dos animais que Borges encontra na bizarra enciclopédia chinesa, fico entre as sereias e os fabulosos (O Idioma Analítico de John Wilkins).

"macumba pra turista" (Oswald de Andrade)


[... em fevereiro tem Carnaval, 2014 Mundial, 2016 espetáculo tropical]

sessão nostalgia - brothers in arms (dire straits)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

paixão, acasos, literatura e Sérgio Buarque de Holanda

Sou absolutamente apaixonada pelo que estudo, pelos livros que estou lendo, pelas músicas que ouço, pelos filmes que elegi. No caso do doutorado, eu me vi tomada pelo tema, por Sérgio Buarque de Holanda, pela possibilidade de conhecer um pouco da crítica literária brasileira, e um pouco de crítica literária também. Pensei então, na confusão das intuições, titubeios e incertezas, que uma boa forma de doutorar-me em letras seria instrumentalizando-me para a profissão futura, e um bom caminho seria estudar crítica literária. Isso era uma intuição já no mestrado. Mas não a segui, continuei na trilha aberta pela dissertação, e iria estudar Sagarana pelo viés do cômico, fazendo-a dialogar com Raízes do Brasil e a noção de cordialidade, pelo que ela comporta de negação do trágico (é conhecido de todos que leram Raízes do Brasil a moldura com que Sérgio Buarque abre o capítulo "O homem cordial", o conflito entre Antígona e Creonte). Descobri, no percurso bastante confuso, mas feliz, do primeiro ano de doutorado, que a empreitada era mais difícil do que eu supunha (sem contar que eu estava bem desassistida no quesito "orientação"). Fui descobrindo, misturado a isso, Sérgio Buarque de Holanda e seus escritos de crítica literária, e fiz uma constatação curiosa: Sérgio Buarque não tinha escrito uma linha sequer sobre Guimarães Rosa, até onde pude averiguar (só recentemente, numa entrevista, descobri uma menção rápida, a Grande sertão: veredas). Meu projeto, já difícil, se tornou de repente inviável. Então, após uma palestra na UFMG, com um professor da USP que tinha sido meu quase-orientador no mestrado da UFES (e por pouco eu não fui parar na USP, atrás dele, pois esse professor tinha sido também uma paixão intelectual), numa conversa na mesa de bar num café da Travessa (situada na chique Savassi que eu pouco frequentava), caindo uma chuva torrencial, meu doutorado se decidiu. Eu tencionava falar do projeto, mas falava com tal entusiasmo de Sérgio Buarque, que esse professor virou para mim e disse: Mariana, esse é o seu projeto de doutorado, estudar o Sérgio Buarque de Holanda como "homem de letras". Atarantada com a revelação vindo assim tão inesperada, era como se já soubesse aquilo. Isso se deu em outubro de 2006. Fiquei mais um pouco no bar, falando bobagens e vendo se a chuva passava. Não passava. Despedi-me e, debaixo da mesma chuva torrencial, no primeiro telefone público que encontrei, liguei para um amigo (num tempo em que fazia isso mais amiúde), dizendo que meu projeto havia acabado de mudar. Daí, eu só tinha um problema: orientação, em sentido amplo. Orientação que aliás nunca me faltou, apesar das aparentes e conspícuas confusões de superfície. Perder o rumo é uma forma de encontrá-lo. Já que ia mudar, que a mudança fosse para valer. Já tinha experiência em vários tipos de mudança ― de estado (ES, MG), de cidade, de profissão, de emprego, de ares, de casa, de bairro, de orientador (na própria UFES circunstâncias um pouco alheias a mim impuseram isso), da cor do cabelo, afora outras mais profundas e definitivas ― que encarei aquilo como mais uma mudança, e para melhor. As coisas foram andando, no seu ritmo. No dia 04 de janeiro de 2007, já de volta ao campus da UFMG para participar da banca de correção do vestibular, a convite do meu atual orientador (com quem tinha feito uma disciplina no segundo semestre de 2006), encontrei-me casualmente com ele na cantina, e externei-lhe o problema, perguntando se ele não poderia me indicar alguém. De repente, me veio a intuição, rápida e certeira: Você não quer pegar o projeto?  E "estamos aí", depois de muitos atropelos, de defesa marcada. A tese é que teima em não terminar. E o Sérgio, para minha alegria ficar mais completa, é o pai do Chico.

João e Maria - Chico Buarque


[animação com a versão em estúdio, com Nara Leão, aqui]

The Danish Poet (2006)

[Oscar 2007 curta-metragem de animação / legendado em português]

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

The Last King of Scotland (2006)


O último rei da Escócia é um filme sobre muitas coisas. A principal delas, a meu ver, é o modo como a questão da ingenuidade é tratada, melhor dizendo, é um filme sobre a perda da ingenuidade e dos bons sentimentos, aqueles que, na juventude, costumam levar a escolhas cheias de boas intenções e que, conforme o provérbio, não excluem o caminho do inferno. Na pele do ditador da Uganda, Forest Whitaker ganhou o Oscar de melhor ator, e talvez tenha mesmo roubado a cena, mas é no jovem médico escocês que se larga numa aventura totalmente às cegas em direção à África, Nicholas, que se concentra, por assim dizer, a parte dramática da história, no sentido dos conflitos que vão se desenhando na medida em que as evidências começam a falar por si. Nicholas não é só ingênuo: ele acredita na bondade humana. Melhor dizendo: ele vai à África imbuído da melhor tradição humanista, e o que experimenta, por seu humanismo, é o inferno. Rimbaud às avessas, quase não consegue escapar do inferno em que se apanha, condenado a uma morte lenta, torturante e com requintes de crueldade. O ator James McAvoy tem atuação notável como o médico recém-formado que tenta trilhar caminhos próprios. Forest Whitaker desenha com maestria um ditador feroz e sedutor a um só tempo. Imperdível. Seguem os comentários do CinePlayers (aqui) e do Omelete (aqui).

Emily Dickinson

Olha atrás para o Tempo com bons olhos
Ele fez o possível ― com certeza ―
Como é suave o sol que cai no Oeste
Da Humana Natureza ―


Look back on Time, with kindly eyes ―
He doubtless did his best ―
How softly sinks that trembling sun
In Human Nature’s West ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.292-293.

Tom Verlaine - Spiritual

sem fins lucrativos

por sorte esta não é a ilha de caras

Marinha com Rochas

Jean-Baptiste-Joseph Olive, Marinha com Rochas, 1920-1930
[acervo do MASP]

do blog um fernando pessoa - "Fernando Pessoa na Ilha de Caras"

Fernando Pessoa "caiu" num exame no Brasil para acesso à Universidade (segunda fase da FUVEST). Esta foi a pergunta:

Questão 6
Leia o seguinte texto.

Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só. 

LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding* Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mário Sá Carneiro. Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”: “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center** em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
http://www.revistapiaui.com.br. Adaptado.

*Holding [holding company]: empresa criada para controlar outras empresas.
**Call-center: central de atendimento telefônico.

a) Esse texto tem apenas finalidade humorística ou comporta também finalidade crítica? Justifique sua resposta.
b) Por que o “call-center” mencionado no texto seria localizado especificamente em Goa?

Tem razão o blog um fernando pessoa: a resolução proposta ficou aquém das possibilidades da questão, já por si sinuosa.

arte naïf

Navegando no Portal Artes, deparo-me com isso, e revejo alguns preconceitos:


a dança das letras: "music is my language"

frugal

O calor do Rio de Janeiro, neste janeiro que promete bastante calor, associado ao excesso de preocupações, me fez visitar o adjetivo frugal: adj.2g. 1 concernente a fruto(s) 2 que se alimenta de fruto(s) 2.1 de fácil digestão; leve, ligeiro 3 que se alimenta com moderação 4 p.ext. fig. que se contenta com pouco, que é moderado; sóbrio, simples 5 p.ext. fig. que se apresenta com moderação, com sobriedade, com simplicidade. Etimologia: lat. frugális,e 'moderado'; Antônimo: intemperante. Descobri-me frugal, principalmente depois de consultar o curioso antônimo da palavra, cujos sentidos abstenho-me de esmiuçar. De mais a mais, o calor tira mesmo o apetite, e frutos são uma boa alternativa. 

citação

De um ensaio de Antonio Candido: "... as águas ondulantes da literatura revelam muitos dos seus arcanos aos barcos ligeiros, mais do que à perspectiva solene dos couraçados."

Clarice Lispector: aprendendo a viver (dois verbos fundamentais)

Aprendendo a viver

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Throreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas "melhore o momento presente", exclamava. E acrescentava: "Estamos vivos agora." E comentava com desgosto: "Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar."
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam ― ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos ― ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. "É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber."
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: "Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?" Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: "A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos." É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois "o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino".
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. "Creio", escreveu, "que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força". E repetia mil vez aos que complicavam inutilmente as coisas ― e quem de nós não faz isso? ―, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!
E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de um nome de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
Em determinado ponto do artigo (só recortei esse trecho) o autor fala que a marca de Bernanos estava na veemência com que nunca cessou de denunciar a impostura do "mundo livre". Além disso, procurava a salvação pelo risco ― sem o qual a vida para ele não valia a pena ― "e não pelo encolhimento senil, que não é só dos velhos, é de todos os que defendem as suas posições, inclusive ideológicas, inclusive religiosas" (o grifo é meu).
Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. "A avareza e o tédio danam o mundo." "Dois ramos, enfim, do egoísmo", acrescenta o autor do artigo.
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
Feliz Ano Novo.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.160-161.

Crônica publicada no Jornal do Brasil em 28 de dezembro de 1968 (ano em que nasci, coincidindo também que, 24 anos antes, no mesmo dia e mês de meu nascimento, nascia Caetano Veloso: só podia dar nisso: insubordinação). 

agulha, linha e alfinete

[...]
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
― Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
― Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

ASSIS, Machado de. Um apólogo. __. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.367.

Cold Irons Bound (Tom Verlaine recria Bob Dylan)


Integra a trilha sonora de I'm Not There. Versão de Bob bylan aqui, do CD Time Out of Mind. "I'm all used up and the fields have turned brown / It's such a sad thing to see beauty decay" (aqui).

domingo, 9 de janeiro de 2011

pequenos milagres


Abro um livro de Machado de Assis, pois que estou com saudade do autor, e me deparo com este insólito marcador de página, do tempo em que morava em BH e ia com mais frequência ao cinema, colecionando postais publicitários (pop cards) que os espaços de cinema, entre outros, passaram a disponibilizar. Deve haver algum engano. Milagres não combinam com Machado de Assis, e eu, entre o ceticismo deste e a magia daqueles, estou pendendo mais a acreditar que a descrer. Colecionar postais, abstraindo seus fins publicitários, é uma forma de contentar-se com pouco. Pouco que neste caso é muito, pois deseja a beleza, tão-somente. E por falar em Machado, o marcador cousas díspares não vai colar: tem qualquer coisa de sarcástico nele, de auto-deboche, que não estava pressuposto na intenção original. Talvez a solução esteja em procurar outro substantivo: posts díspares, mas no singular. É isso. Resolvido. Sonhos são janelas por onde a alma escapa enquanto o corpo tenta descansar.

Feria de Ceniza

[também no openfilm - um comentário aqui]

mãos solteiras

Na festinha de aniversário uma tia olhou-me as mãos e cobrou a aliança. Aludia ao papel que, simbolicamente, tal adereço joga em determinados círculos sociais, conspícuos onde me encontrava. Um pouco antes uma outra pessoa perguntou-me por que eu não usava anéis, já que tenho, segundo seu depoimento, mãos delicadas. Uma coisa responde a outra. 

E por estar em campo semântico afim, sobre coisas que não estão necessariamente no universo dos afins, aproveito para desinflacionar meu marcador dileto, coisas díspares, que atende a tudo que me é muito próprio. Entra em seu lugar cousas díspares, a pretexto de trazer à boca de cena uma variante em desuso do português e lembrar Guimarães Rosa: "Tem coisa e cousa, e o ó da raposa." É de fato uma cousa díspar reparar na ausência de anéis ou afins nas mãos de uma pessoa, remontando ao tempo de Machado de Assis, que aliás reescreveu o provérbio célebre, vão-se os anéis, ficam os dedos, em fórmula engenhosa. 

Gottfried Benn: "As palavras marcam mais profundamente que seu próprio conteúdo"

"A palavra é o centro criador do espírito, centro no qual enterra suas raízes e, direi ainda mais, as enterra no espírito da própria nação: quadros, estátuas, sonatas, sinfonias são internacionais: a poesia, nunca. Podemos definir a poesia como o intraduzível. A consciência prolifera nas palavras; a consciência transcende as palavras. 'Esquecer': que significam essas letras? Nada, nada que se possa compreender. Mas a consciência ressoa nessas letras, através delas se dirige a um determinado destino: e essas letras, colocadas uma ao lado da outra, ressoam acústica e emotivamente dentro de nós. É por isto que oublier não é jamais esquecer. Nem never more com suas duas sílabas iniciais graves e fechadas seguidas do taciturno e fluente more (no qual ressoa para nós 'das Moor' e para os franceses 'la Mort') é nimmermehr (jamais), 'never more' é mais belo. As palavras marcam mais profundamente que seu próprio conteúdo. Por um lado são espírito, por outro possuem a essencialidade das coisas da natureza."

BENN, Gottfried. Problemas da lírica. Trad. Fábio Weitraub. Rio de Janeiro, Cadernos Rioarte, Ano I, n.3, 1985, p.8. 

Folia de Reis

Está na época. Mas não passarão por aqui, pois se trata de uma metrópole. Hoje é domingo, e a circunstância de um aniversário (não meu) trouxe parte de minha família ao Rio de Janeiro. Então acordei com uma coisa bem interiorana: viemos tomar café na sua casa. Rapidamente se pôs uma mesa, enquanto as pessoas iam falando, sentando, comendo. Casa silenciada novamente, de vozes familiares e afetuosas que remontam a um outro tempo, lembrei-me então de outras vozes, da Folia de Reis, nos idos da infância, de forte tradição no interior do meu estado, Espírito Santo, quando, à noite, passava um grupo de cantadores pela minha casa, fantasiados às vezes, que eu espreitava entre a curiosidade e o medo. Parte da família acaba de retornar para o ES, e eu descubro uma coisa: me relaciono melhor com tudo isso estando na minha casa. O amor não é um sentimento fácil.