Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sábado, 10 de outubro de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
domingo, 17 de julho de 2011
delicada esta versão, uma das canções mais bonitas do Dylan
[aqui a bela versão do Dylan, num vídeo inspirado, e no vinil, arranhado]
quinta-feira, 7 de julho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
Tom Jobim: Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque)
[o motivo do exílio na poesia brasileira encontrou aqui uma expressão sublime]
quinta-feira, 23 de junho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
não estou aqui, não estou lá: estou de passagem
Esta música...
inexplicável o fascínio que ela exerce sobre mim. Em parte pela sua raridade: a
gravação original, de 1967, na parceria de Bob Dylan com The Band, é quase impossível de ser encontrada: precisa ser
comprada. I don't belong to anybody. No cinema, assisti a "I'm Not There" duas
vezes. Foi em BH e minha vida pessoal
passava por turbulências. Eu mal acreditava naquela multiplicidade, aquele
ser tão inquieto, tão corajoso, tão forte. Menos ainda acreditava que a
cinebiografia dirigida por Todd Haynes pudesse não agradar aos fãs. Na minha
inquietação, me vi uma tarde diante do cinema, e não tive dúvida de entrar e
assistir pela segunda vez. Foi quando prestei atenção a uma música que tocava
nos créditos finais, antes da antológica "Like a Rolling Stone" (ou
depois?). Nunca a ouvira até então, mas bastou aquele contato mínimo, rápido,
para que a canção me atravessasse. Depois comprei o DVD do filme, por fim
adquiri o CD com a trilha sonora. É assim: a versão do Dylan para "I'm Not
There" é uma raridade que se encontra apenas nos créditos finais do DVD ou
no CD (a
última faixa do lado 2). Sequer se encontra registro da letra no site
oficial do cantor. Por que especificamente esta música? Tudo. Tanto que Todd
Haynes percebe sua singularidade e a toma como título do filme-homenagem. A
melodia, o modo arrastado com que Bob Dylan a interpreta, expressando mesmo o
cansaço dos que não suportam se sentirem aprisionados em qualquer rótulo, imagem,
estereótipo, caixote: seja lá o que ou onde for, I'm not there, não
estou lá. Definitivamente não. Sei que já estou falando do meu cansaço, e
afinal a música é de uma tristeza difícil de adjetivar. Mas também sei que é
meu modo de expressar minha inadequação em relação a este mundo tão vulgar,
óbvio, careta e cheio de heróis exemplares e operários padrão. Pois dizer
"não estou lá" é recusar-se a funcionar, é dizer "não"...
Sei que as pessoas mais próximas saberão que é apenas um modo de dizer sim, pois
há a vida para viver, mas às vezes cansa e cansa e cansa... e eu tenho apenas
vontade de dizer como aquele narrador de Guimarães Rosa, no final do conto
"Lá, nas campinas":
"Tudo era esquecimento, menos o coração. — 'Lá,
nas campinas!...' — um morro de todo limite. O sol da manhã sendo o
mesmo da tarde. / Então, ao narrador foge o fio. Toda estória pode
resumir-se nisto: — Era uma vez uma vez, e nessa vez um homem. Súbito,
sem sofrer, diz, afirma: — 'Lá...' Mas não acho as
palavras." (ROSA, João Guimarães. Tutaméia: terceiras
estórias. Ficção completa, v. II. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995, p.
607).
Não tenho achado as palavras, só isso, e tentar achá-las é o
mesmo que tentar me colocar em um lugar em que não consigo estar. Uma hora vou
encontrá-las, encontrando também um lugar, ou lugares. Bem, pelo menos o lugar
físico-geográfico já foi encontrado, isso já foi resolvido, mas é de outra
instabilidade que se trata. E em alguns lugares eu nunca vou querer
estar.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim
Ano passado tive um encontro mágico com Caetano Veloso, totalmente por acaso, num sábado à noite no CCBB enquanto aguardava com uma amiga o teatro. Foi um encontro lindo, para falar como ele. Na hora, só conseguir dizer-lhe que fazíamos aniversário juntos, no mesmo dia e mês. Foi um dos meus começos no Rio de Janeiro, um bom começo. Hoje, se o encontrasse de novo e tivesse o mesmo desprendimento de então, diria-lhe que ele compôs "Coração Vagabundo" para mim, tal a perfeição com que essa singela música traduz o que em mim se expressa com tanta hesitação e reticência.
domingo, 12 de junho de 2011
a libertação pelo sonho (escrito ao som de "Criaturas da Noite")
Sonhei esta tarde, ao tirar um cochilo, algo que beira o inenarrável. Minha família compareceu em peso, os fantasmas, os monstros, os ódios e sentimentos recalcados. Mas talvez também algum amor. Se tivesse que escolher um cerne para este sonho, diria que é a questão da luz e da escuridão. Acabo de me mudar para uma casa cuja sala tem uma iluminação muito bonita, mas que me preocupa um pouco quanto à fatura da Light. Preocupação fútil, provavelmente, mas estou mantendo, na maior parte do tempo, a sala numa semi-penumbra, até porque frequento-a pouco, trabalhando num quarto transformado em escritório, e durante o dia o sol dá conta do recado. Eu sei bem o que está acontecendo: é o fantasma da pobreza rondando, assumindo a cada vez uma face. Por que o fantasma da pobreza? À luz do dia, rondam-me as contas, compatíveis com o salário. Na escuridão da noite improvisada durante o dia explodem imagens de sombra invadindo a luz, tomando seu espaço, mas que lançam luz sobre as luzes da minha nova casa, uma casa que não é minha, mas da qual me sinto dona, pelo modo como tudo se deu, principalmente por saber que a mereço.
No sonho, estou numa casa em que as luminárias se multiplicam, de maneira caótica, e as luzes começam a queimar, a se apagar, e a casa vai sendo tomada pela escuridão. A casa parece ser feita de vários estratos, há pedaços de pano pendurados, é possível distinguir o telhado, e então já sei (agora sei) onde estou: estou na casa da minha infância (e na infância da minha casa), aquela em que nasci (literalmente), no interior do ES, cujo telhado era sem forro, então era possível ver por dentro as telhas francesas. Minha mãe aparece no sonho mudando a iluminação da casa, trocando as lâmpadas de lugar, e então não é mais a minha casa, e sinto ódio dela por isso: porque a casa vai ficando feia, estranha, escura, e tem algo estranho também acontecendo: alguém, cujo destino é ininteligível, vai morrer ou ser condenado a algo muito ruim. Este alguém aparece com a face do Mel Gibson (provavelmente porque eu não gosto dele, ou porque ele protagonizou/dirigiu filmes muito violentos, aliás um ator de qualidade bastante duvidosa, sem contar as notícias de violência contra mulheres). Fechado o parêntese "Mel Gibson": no final do sonho ele está indo em direção a um destino ingrato, impossível de ser relatado exceto no modo como as coisas se passaram no sonho. Não sei o que ele é, o que faz/representa ali, mas meu pai aparece-me de repente dizendo qualquer coisa sobre, e é um consolo o que ele diz. O meu Hermógenes também aparece, mas não está ameaçador nem perigoso.
Enquanto isso, vou tentando salvar as luzes (a iluminação) da casa, que vai ficando progressivamente escura, feia, com aspecto de pobre, não parecendo mais a casa de antes (qual casa?), e o contraponto é a casa dos meus tios na Barra da Tijuca, confundida com a sala da minha atual casa: há uma decadência qualquer em curso, não é mais o mesmo ambiente elegante de antes. Vejo que minha mãe fez uma gambiarra qualquer para iluminar (mal) um dos cômodos, que é seu quarto de costura (tão diferente de falar em quarto transformado em escritório...), há muitos panos pendurados, e o caos é tal que tenho certeza de estar diante de uma tela de Picasso. Sinto piedade pela minha mãe, ela está apenas tentando trabalhar. Eu continuo, no sonho, tentando conter o avanço da escuridão (cuja face é progressivamente a da pobreza), preciso comprar novas lâmpadas, mas há uma infinidade de luminárias suspensas, e um de meus irmãos aparece de relance dormindo, enquanto a criatura estranha vivida pelo Mel Gibson segue seu destino indescritível, e que parece ser muito ruim. Alguma coisa me sufoca, percebo que estou engasgando, com dificuldade de respirar, e desse embate acordo já no início da noite. Ao contrário do que eu esperava, a visita da minha mãe, ontem, foi rápida, as circunstâncias não permitiram que ela ficasse, e algo em mim desandou. No entanto, desse desarranjo veio um sonho libertador, com criaturas conhecidas e irreconhecíveis, e eu jamais poderei esquecer que vi no quarto de costura da minha mãe uma tela de Picasso. Continuo apreciando as criaturas da noite.
não há dia em que esta gaitinha não possa me alegrar (um curta)
Parodiando alguns escritores modernos, para quem não aguenta mais me ouvir falar em Bob Dylan, gentileza desconsiderar o post, ou voltar para o anterior enquanto o próximo não aparece, ou mesmo fechar a página (mas não deixar o blog...). É que eu amo de paixão esta gaitinha. E esta canção. E muitas outras dele. E é inevitável sentir-me subitamente alegre ao ouvir seus acordes.
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