Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 11 de junho de 2011

Murilo Mendes

TEMAS ETERNOS

Há sempre um amor procurando seu nome
Na solidão do livro dos tempos.

Há sempre uma veste nupcial
Pendendo da guilhotina da noite.

Há sempre restos de Minotauro
A escurecer os campos tranquilos.

Há sempre um olhar espiando o horizonte,
Um olhar que não foi visto.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994, p.345.

Emerson, Lake and Palmer: Fanfare For The Common Man

paisagem da varanda

 






hermógenes

Cedo ou tarde, a pessoa comum cidadã acaba se deparando com seu Hermógenes, ou os seus Hermógenes ― podem vir em bando, assustando mais. Então é escolher com que armas lutar. Não é fácil: em Hermógenes está Hermes, fazendo suspeitar que a luta é pelos / contra os sentidos. Defrontar-se com algum Hermógenes é ter ido mais fundo em si mesmo.

a extrema beleza do Universo

Aglomerado globular Omega Centauri. Fonte: ESO

proteção

Quase acordando, o último lampejo da noite vem-me na figura de minha mãe. Estou sonhando coisas traiçoeiras, imagens da novela das oito a que não assisto, exceto pelas chamadas das revistas das bancas de jornal, todos traindo todos. Minha mãe entra no quarto do meu sonho e diz que vai fechar a janela, porque está chovendo. Minha mãe estava no quarto momentos antes de eu acordar, na verdade ela veio me acordar. Olho o relógio e são dez horas da manhã. Mas também pode ser assim: numa noite intensa de sonhos que me escaparam quase complemente, estou sonhando com imagens da novela das oito, Marina (Mariana?), Pedro, Léo, ninguém é de ninguém, todos se enganam. Percebo que minha mãe entra no quarto e diz que vai fechar a janela, porque está chovendo. Então acordo, ainda dentro do sonho. Efetivamente acordo e percebo que a janela está fechada e sequer está chovendo, mas minha mãe não está ali. Olho no relógio e já são dez horas da manhã. Finalmente: estou sonhando com personagens da novela das oito, a pior que pode existir, tal seu grau de vilania. As personagens me despertam repúdio, aversão. Então vou aos poucos despertando do sonho com minha mãe entrando no quarto e falando que vai fechar a janela, porque está chovendo. Então acordo, mas ainda estou no sonho e quero continuar dormindo. Mas a entrada da minha mãe no quarto foi ruidosa o suficiente para me acordar de vez. Olho no relógio e me dou conta de muitas coisas. Em tempo: minha mãe não mora comigo, mas se encontra no Rio de Janeiro tratando da saúde, na casa de minha irmã. Hoje à noite virá aqui. Ou voltará.

a fúria do Universo


Impressão artística retrata a nova visão da heliosfera. A borda do Sistema Solar não é suave, mas cheia de um mar turbulento de bolhas magnéticas (aqui). Imagem obtida aqui. Clique na imagem para ampliar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

escrever

Escrever, escrever, escrever... porque é preciso, porque preciso, na imprecisão com que a memória se move, com que tudo se move, exceto os ponteiros do relógio. Talvez. "Na própria precisão com que outras passagens lembradas se oferecem, de entre impressões confusas, talvez se agite a maligna astúcia da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmente enganar-nos, ou, pelo menos, retardar que perscrutemos qualquer verdade"  afirma um dos narradores de Guimarães Rosa. Escrever é minha liberdade, posso ir e vir com as palavras: ir até onde elas me levam, voltar até onde elas permitem. Sinto-me quase feliz ao descobrir que posso criar por meio da linguagem. Pois sei que consigo pouco. Não creio que haja qualquer verdade encoberta pela maligna astúcia da porção escura de nós mesmos. Simplesmente porque o acesso possível a esses recessos se faz por meio da arte, do sonho, da música, da criação, do amor. E sai-se sempre com farrapos de verdade, como se a verdade fosse uma mendiga a que devemos socorrer e alimentar, em troca do pouco que ela tem a nos oferecer. No entanto ela não vai embora, fica ali, num canto escuro sombrio, a incomodar, pedindo atenção. Sei que isto está pela metade, mas vai ficar assim. Está tarde, preciso dormir, dar ensejo para a verdade.

faltou esta!!!

declaração de amor... all along the watchtower








All Along The Watchtower na Wikipedia
"A wildcat did growl  and the wind began to howl..."

Dante Milano

O CENTRO DA NOITE

Noite disforme.
Se olhares o céu, o que não vale a pena,
Verás que o brilho das estrelas é uma coisa inútil
E sentirás o frio da vida.

MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p. 88.

Anselm Kiefer, Falling Stars, 1995

[imagem obtida aqui]

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II,1

Respirar, invisível dom ― poesia!
Permutação entre o espaço infinito
e o ser. Pura harmonia
onde em ritmos me habito.

Única onda, onde me assumo
mar, sucessivamente transformado.
De todos os possíveis mares ― sumo.
Espaço conquistado.

Quantas dessas estâncias dos espaços
estavam já em mim. E quanta brisa
como um filho em meus braços.

Me reconheces, ar, nas tuas velhas lavras?
Outrora casca lisa,
céu e folhagem das minhas palavras.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.157.

um verbo e seus silêncios

De um poema de Cecília Meireles, a manhã fria e alguns acontecimentos trouxeram-me à memória um verbo pouco comun. No poema, de que não me recordo, é assim: algo que se esboroa. Imagino o verbo à semelhança da forma da água num chafariz, mas em vez do aspecto líquido desta imagem, uma concretude qualquer, que, qual uma torre, ao atingir certo ponto começa a desmanchar-se para os lados, abrindo-se como uma flor matinal. Vou ao dicionário e verifico que a imaginação não me traiu. Um dos sentidos do verbo é desmoronar: “reduzir(-se) a pequenos fragmentos, a pó; desfazer(-se), desmoronar(-se), pulverizar(-se) ― o tornado esboroou a torre; os ramos esboroavam ao menor contato; a construção esboroou-se em segundos.” Não é o vento que esboroa a torre: ela não se sustenta mais, sua base se fragilizou, e não há palavras que impeçam o desmoronamento, o esboroo. Quando começo a assisti-lo, sinto um misto de espanto e incredulidade. Demoro a acreditar que estou vendo o que estou vendo. Mas as evidências acabam por confirmar a queda da torre. Então o silêncio torna-se a forma mais majestosa de contemplar o que não tem volta.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

um verso de Rilke

“Respirar, invisível dom ― poesia!”

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.157.

Dreamcatcher (VFS)

tempestade

Um vento fortíssimo sopra lá fora, querendo levar tudo. Mas o dia foi tão bom, tão bom, que o vento parece antes estar trazendo ar novo, renovando o ar parado dos últimos tempos. Os telefonemas de hoje, as decisões, o almoço com o amigo que há tempos não via, seu presente de aniversário, o presente para a sobrinha, outro para mim, a coragem de chamar as coisas, certas coisas, pelo devido nome, a discussão ao telefone com a atendente de telemarketing de uma imprestável prestadora de serviços, a ameaça de levar ao Procon que não vai se concretizar, porque no Rio de Janeiro é muito enrolado, mais ainda assim um bate-boca ao telefone com uma desconhecida que finge não entender as reclamações (no plural) do cliente, e fica repetindo a mesma coisa (qual boneca programada): no fim das contas (as pagas e aquelas a pagar), uma boa forma de colocar alguns demônios para fora. E então o bem-estar do vento forte. A vida em movimento, com lobos calados de repente postos a uivar. 

amanhecer com música: Les Paul google doodle

Days of Love: cortina de fumaça em close


namorados presentes

namorados futuros

o presente dos namorados

namorados sem futuro

um dia eles trocaram mais do que fotografias

as trocas de cada dia

fotografia original, sem cortes

reticências

etc.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Bob Dylan & The Byrds: Mr. Tambourine Man


Ao modo de Torquato, que o moço toque uma canção para mim, uma canção que varra o pó dos meus titubeios para um canto qualquer da alma, enquanto o som da canção penetra-me os ouvidos. Na aguda noite desafinada eu o ouvirei, e descansarei dos meus tormentos, enquanto the ancient empty street’s too dead for dreaming. "Mr. Tambourine Man".

Murilo Mendes

A CORDA

O navio amarrado. O pássaro amarrado.
A pedra amarrada.
O homem.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994, p.707.

dificionário

A bondade é uma coisa que foi aparecendo bem aos poucos em mim. Assisto em mim a uma espécie de generosidade entranhada, mas ao mesmo tempo com um tom de impessoalidade. Pois continuo perfeitamente capaz de sentir ódio, se for o caso. Ódio, desprezo, desdém e indiferença são sentimentos que aparecem quando me deparo com uma cegueira maior que a minha, e que de alguma forma me afeta negativamente. Não há nada de cristão em minha bondade. É assim: não quero poluir o meio ambiente, então procuro um posto de coleta seletiva de pilhas e baterias, embora eles estejam mais e mais escassos. Não quero fazer o mal, muito menos o mal absoluto, tomo muito cuidado, mas não aceito que me façam mal. Não permito. Pois é simples: o primeiro beneficiário de qualquer bondade que possa haver em mim deve ser eu mesma. Preciso ser generosa comigo, preciso escrever quando sinto necessidade, trabalhar corretamente, (me-)afastar (d)os envenenadores e produtores da má consciência. Essa operação é complexa, pede filtros sutis e preciosos, mas sem ela o melhor de mim vai ficar condenado às sombras. Porque sei o quanto há de bondade em mim, mas ela só aparece com os canais desobstruídos. Caso contrário, ela perece. 

Dia Mundial dos Oceanos: Fernando Pessoa

Mar Portugués, Juan Soler

terça-feira, 7 de junho de 2011

paz

sopra um vento forte lá fora.
ao longe troveja.
cá dentro meu
ser lampeja.
uma chuva
mansa cai,
promessa
de paz.

Mário Faustino

2º MOTIVO DA ROSA

A rosa adormecida sonha sonha e sonha
por que surgiu a rósea rosa sonhando sonhando?

Veio para que o poema nascesse com suas pétalas sensíveis:
intocável e úmido de orvalho

Veio para que ficasse a sonolenta imagem
de qualquer coisa livre livre livre
voluntariamente presa a um caule
apenas para uma noite de sono.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.207. Aqui o poema 1º MOTIVO DA ROSA.

suave é a infância...

trecho de conversa: diálogo entre duas irmãs

"Por aqui, altos e baixos, às vezes um pique de angústia, mas depois dele geralmente alguma coisa limpa na retina. Parece que o sofrimento intenso também cura, se isso faz algum sentido..." Alguma coisa limpa na retina, após os piques de angústia: é assim mesmo, o percurso do sofrimento, como se ele fosse o percurso necessário a uma retina que pode ver, os tateios e titubeios até encontrar uma porta que se abre, mesmo que seja na noite, no turbilhão dos sonhos, sonhos que podem ser maravilhosos quando permitem justo esses clarões da retina, e aqueles monstros todos, sufocados, domesticados pela vontade (ou pelo medo...) de repente saltam na sua frente, aparecem no sonho com a face desnudada: não são necessariamente monstros, são apenas os seus monstros, os sonhos mais libertadores que se pode ter.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

uma pérola para os fãs... Bob Dylan: Newport Folk Festival, 1965

Bob Dylan - Newport Folk Festival 1965

the times they are a-changin... (Eddie Vedder)

Bob Dylan: Experimental Biography (curta)

Knockin' On Heaven's Door: Bob Dylan

uma música...

Uma música... apenas isso... mas hoje estou precisando... o dia foi difícil, decisões com jeito de indecisão. Então, entre as pessoas que têm a gentileza de seguir este espaço, deparei-me, no perfil de uma delas, com uma música que certamente não ouvia há bastante tempo, mas que a memória reconheceu de bate-pronto, como algo que era bom de escutar... apenas isso... uma canção. O blog é da Izabel Lisboa.

o jogo da amarelinha: um trecho primoroso

Contudo, por trás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significava sair de para chegar a, ou mover algo para que ficasse aqui e não ali, ou entrar numa determinada casa em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, o que significava que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente. Acreditar que a ação podia culminar ou que a soma das ações pode realmente equivaler a uma vida digna desse nome era uma ilusão de moralista. Era melhor renunciar, pois a renúncia à ação era o próprio protesto e não a sua máscara. Oliveira acendeu outro cigarro e esse mínimo gesto o obrigou a sorrir ironicamente e a zombar de si mesmo no próprio ato. As análises superficiais, quase sempre viciadas pela distração e pelas armadilhas filológicas, pouco o preocupavam. A única coisa certa era o peso na boca do estômago, a suspeita de que algo não ia bem. Não se tratava sequer de um problema, mas sim de ter-se negado sempre, desde cedo, às mentiras coletivas ou à solidão rancorosa daqueles que começam a estudar os isótopos radioativos ou a presidência de Bartolomeu Miltre. Se escolhera algo desde jovem, esse algo fora não se defender por meio da rápida e ansiosa acumulação de ‘cultura’, truque muito característico da classe média argentina para tirar o corpo da realidade nacional e de qualquer outra para julgar-se a salvo do vazio que a rodeava. Talvez, graças a essa espécie de fuga sistemática, como a definia seu camarada Traveler, Horacio Oliveira conseguisse evitar o ingresso nessa ordem farisaica (em que militavam muitos amigos seus, em geral de boa-fé, já que a coisa era possível, havendo mesmo exemplos), a qual acabava sempre por evitar o fundo dos problemas mediante uma especialização de qualquer ordem, cujo exercício conferia ironicamente os mais altos títulos de argentinidade.  Além do mais, Oliveira considerava muito fútil e fácil misturar problemas históricos, como ser argentino ou esquimó, com problemas como o da ação ou o da renúncia. Já vivera o suficiente para suspeitar daquilo que, embora esteja debaixo do nariz de todos, poucas vezes se percebe: o peso do sujeito na noção do objeto. A Maga era das poucas pessoas que jamais esqueciam que o rosto de um sujeito qualquer influía sempre na ideia que esse sujeito pudesse ter do comunismo ou da civilização creto-micênica e que a forma de suas mãos estava presente naquilo que o dono pudesse sentir diante de um Ghirlandaio ou de um Dostoievski. Era por isso que Oliveira tendia a reconhecer que seu grupo sanguíneo, o fato de ter passado a infância rodeado de tios majestosos, alguns amores contrariados na adolescência e uma facilidade para a astenia poderiam ser fatores de primeira ordem na sua cosmovisão. Era classe-média, era portenho, era colégio-nacional, e essas coisas não têm cura. O mal estava em que, à força de recear a excessiva localização dos pontos de vista, Oliveira acabara por pesar e até aceitar demasiadamente o sim e o não de tudo, por olhar, do ângulo do fiel, os pratos da balança. Em Paris, tudo era Buenos Aires e vice-versa; no mais profundo amor, ele sofria e aceitava a perda e o esquecimento. Essa atitude era perniciosamente cômoda e até fácil, pouco faltando para se tornar um reflexo e uma técnica: a terrível lucidez do paralítico, a cegueira do atleta perfeitamente estúpido. Começa-se a caminhar pela vida com o passo pachorrento do filósofo e do clochard, reduzindo cada vez mais os gestos vitais ao mero instinto de conservação, ao exercício de uma consciência mais atenta a não se deixar enganar do que a apreender a verdade: quietismo laico, apatia moderada, desatenção atenta. O importante, para Oliveira, era assistir sem desânimo ao espetáculo dessa divisão Tupac-Amarú, não incorrer no pobre egocentrismo (criolicentrismo, suburcentrismo, cultucentrismo, folclocentrismo) que, cotidianamente, era proclamado em volta dele, sob todas as formas possíveis. Aos dez anos, numa tarde de tios e pontificantes homilias histórico-políticas, à sombra de trepadeiras, manifestara timidamente a sua primeira reação contra o tão hispano-ítalo-argentino ¡Se lo digo yo!”, acompanhado por um potente soco na mesa, que devia servir como ratificação irada. Glielo dico io! ¡Se lo digo yo, carajo! Que valor ratificador, havia perguntado Oliveira a si mesmo, tinha aquele yo? Que onisciência conjugava aquele yo dos grandes? Aos quinze anos, travara conhecimento com ‘só sei que nada sei’; a cicuta concomitante lhe parecera inevitável: não se desafia quem quer que seja dessa forma, se lo digo yo. Mais tarde, teve o prazer de comprovar como, nas formas superiores de cultura, o peso das autoridades e das influências, a confiança que dão as boas leituras e a inteligência, também produziam seu “se lo digo yo”, requintadamente dissimulado, inclusive para aquele que o proferia; depois, sucediam-se os “siempre he creído”, “si de algo estoy seguro”, “es evidente que”, expressões quase nunca compensadas por uma apreciação desapaixonada do ponto de vista oposto. Era como se a espécie protegesse o indivíduo para não o deixar avançar demais pelo caminho da tolerância, pela dúvida inteligente, pelo vaivém sentimental. Em dado momento, surge sempre o endurecimento, a esclerose, a definição: negro ou branco, radical ou conservador, homossexual ou heterossexual, figurativo ou abstrato, San Lorenzo ou Boca Juniors, carne ou legumes, os negócios ou a poesia. E isso, afinal, estava certo, pois a espécie humana não podia acreditar em tipos como Oliveira; a carta de seu irmão era exatamente a expressão dessa repulsa.

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.27-29.  

A hora do cansaço (um dos títulos possíveis para "A hora da estrela")

Chega uma hora que bate o cansaço. Começa então uma fase de paciente mas definitiva depuração, de recusa aos pequenos e gratuitos mise-en-scènes que ainda parecem divertir os mais jovens; aos gestos que mal escondem sua teatralidade, inútil de todo modo, pois a fase performer, a sua, já passou; aos gestos que, sugerindo seu contrário, mal escondem o vazio que se encontra em sua origem; aos que ainda se agitam no vazio. Já basta o alto custo de viver, como disse a Clarice Lispector na crônica "Um ato gratuito". A hora do cansaço chega exatamente quando se tem a noção desse custo, quando uma intuição funda e certeira mostra tudo que foi percorrido para se estar sentado, numa segunda-feira à noite, diante de uma tela fria escrevendo, depois de um dia exaustivo de trabalho. Tudo: quatro décadas de existência, sem qualquer promessa de que haverá outras quatro. Quatro décadas de esforço, luta, obstinação, entrega aos estudos, entrega a uma promessa, a muitas esperanças, a um sonho de futuro, à busca de um lugar no futuro. Soaria irônico se eu fosse pensar em garantir um bom lugar para o meu futuro, daqui a quatro décadas, pois só há um lugar, um ponto de chegada, um fim, que iguala a todos.

trecho de conversa: marés

"É bom visitar os outros barquinhos durante as marés..."

aquila non captat muscas


Antigos provérbios, a lembrar que pelo menos na intenção é possível alçar voos, voos que podem ser altos, e quando tais permitem distanciar-se de tal modo das miudezas do cotidiano a ponto de não mais enxergá-las, pois elas são menos que ninharias... são NADA. Imagem obtida aqui.