Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 18 de março de 2011

The Story Tree (VFS)

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - V

CONCEITOS

Os conceitos aqui formulados constituem uma tentativa de síntese: a tese é o mundo normal, o mundo da ansiedade, ainda não penetrado por uma percepção incomum; a antítese é o misterioso estado perceptivo da situação lisérgica. As implicações dessa duplicidade são duas: fora da situação lisérgica, eu não penso do modo que relatarei; no entanto, mesmo fora da situação lisérgica, a realidade para mim não é a de antes, pois um dado novo introduziu possibilidades inumeráveis no meu comportamento diante da existência. Um azar imprevisível passou a correr no páreo. Muitas percepções que, antes da experiência, permaneciam no limbo intuitivo, incertas ou confusas, tornaram-se concretas ou pelo menos concretizáveis. Antes de mais nada, a porta lisérgica aclarou-me o espaço que há algum tempo já se estendia diante de mim: a disponibilidade perceptiva, a certeza de que posso ampliar o campo da minha percepção do universo.
Sou hoje (semanas depois da primeira experiência) um homem mais desamarrado, sobretudo bem mais livre de mim mesmo. A experiência me ajudou antes de tudo a não comer gato por lebre, isto é, hoje, dentro e fora de mim, posso apreender melhor o que é duvidoso ou falso, o que passava por certo e era mediocremente veraz. Livrei-me de algumas túnicas da minha fantasia, quase todas depressivas. Despertei certa manhã de domingo, logo depois da primeira experiência, muito mais curioso do universo e muito menos angustiado pela catástrofe humana. Existir ficou um pouco menos difícil. Aos 40 anos de idade, eu imaginava várias vezes a luz e a escuridão, mas não vira nem uma nem outra.
Desconhecia-me; em contrapartida, os outros não tomavam real conhecimento de mim; a reação química homem mais universo não se processava; registrava-se apenas o fenômeno físico, a luta corporal, o triângulo amor-ódio-indiferença; e nenhuma intimidade molecular. É claro que isso pode se ruma nova malícia de minha inquietude, uma fantasia diferente. Pouco me importa: atinjo na madureza plena a plena possibilidade. Não sei nada. O alívio decorrente dessa conclusão de aparência negativa paga a pena: é uma regressão à inocência animal. Negando em mim a sabedoria, talvez tenha feito pela primeira vez com meu ser integral um gesto sábio.
E vamos aos conceitos anunciados: o mundo não é alegre, nem triste, nem neutro. Estas palavras não significam. O mundo possui uma força; esta força é inominável. O homem não é bom, nem mau, nem pobre-diabo; o homem possui (ou é) a mesma força inominável. Se fizermos justiça às coisas, seremos justificados (ou justiçados); se as reconhecermos, seremos reconhecidos; se passarmos as ser as próprias coisas, elas passarão a ser nós mesmos.
Mas que são as coisas? As coisas não são as palavras. As coisas não são os símbolos. Nosso caminho mais fácil é o símbolo, instrumento por demais complicado para nós, os homens cotidianos. A rosa não é a nossa esperança, nem o nosso desespero; não é nem um símbolo nosso, nem é mais importante do que a folha, a haste, a raiz. A rosa é a rosa, e sem deixar de ser integralmente a rosa, é também Gertrude Stein, você e eu. Uma rosa é uma rosa é uma rosa ― está certo. Mas uma rosa não é uma rosa não é uma rosa ― também está certo.  
Nosso erro principal é nos contrastarmos com as coisas, simbolizá-las ou defini-las sem possibilidade de retorno. A dor não é o contraste do prazer, nem o bem é o contraste do mal. Uma pomba e um bode não são contrastes, mas formas diferentes da mesma força. As coisas não são descritíveis ― e para isso existem as palavras. Para a inteligência, a ciência é a ordem suprema; para o coração, entretanto, para a vida não convencional, a ciência é um dado um pouco excessivo do problema. Coração é uma entidade a ser reexaminada.

(continua...)

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.126-128. 

The Band: The Weight

"I just need some place where I can lay my head"

o teatro das convenções

Ninguém sabe muita coisa do outro que está fora de si, mas interpretar é praxe corrente. Todos nós somos outros, no sentido de abrigarmos outros que tentamos enfeixar na palavra eu, para maior praticidade e adequação social. A outridade. Não é possível viver em sociedade se o eu está sempre prestes a desintegrar. Pois é isso que acontece quando se tem muita ciência de ser outro. A pele negra que nunca tive uma dia falará em mim? Isso tudo é muito complexo, como se fosse uma equação matemática cujas variáveis fossem dançantes, e sofressem desproporção conforme a equação avança. Não quero falar a palavra poesia. Pois senão enveredarei para a crítica, e não é este o propósito agora. Sei que na poesia moderna essas questões estão mais do que colocadas: elas são a própria poesia. Fim do parêntese. Sentir esses outros palpitando em si, sentir-se às vezes como uma geleia, e ao mesmo tempo precisar de um eu a postos para os imperativos da sobrevivência, talvez seja o dilema da liberdade. Até onde vão os imperativos da vida, do eu, e o que sobra para essas outras forças, tão vitais quanto o alimento que se come, comprado com o suor do eu que se dispõe, manso, a trabalhar? Não há outro jeito. Quão amplos são esses ditames? Quanto de espaço sobra para o amorfo, para mirar-se no espelho cego da outridade? 

quinta-feira, 17 de março de 2011

criaturas da noite

Flávio Venturini & O Terço

pessoas

Há pessoas que nos alargam, e outras que nos fazem sentir mais sós que a solidão. 

Torquato Neto: fragmentos de um discurso vertiginoso

"Será? Será verdade? Será verdade que só, só não domina a linguagem o indivíduo que enlouquece e, fica, louco? E Artaud? Quem descobre os pecados da linguagem, Gil? Talvez. Ou talvez, Mr. Tambourine Man não seja mais do que um acidente da linguagem, um malentendido, uma ligeira confusão no final do primeiro, ou terceiro, capítulo de uma novela barra-pesada que a censura (a censura, bicho) interditou, tarde demais? A censura? Será verdade que só, só agora em frente à companhia de seguros, aos vinte e cinco anos? Se a mulher chora o corpo do marido o seguro, o pecúlio trarão a certeza do dever cumprido!!!!!!!!! Certo?"

NETO, Torquato. Torquatália {do lado de dentro}. Org. Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p.300. 


GENIAL: Quem descobre os pecados da linguagem?

não sei viver sem música: The Times They Are A-Changin'

Your old road is rapidly agin’ / For the times they are a-changin’

periferia do capitalismo

Logo que os acontecimentos no Japão começaram a tomar uma proporção maior que a esperada para um tsunami, ou um desastre natural, um articulista do Uol comparou-os à situação das chuvas no Rio de Janeiro, elogiando a eficiência com que as autoridades japonesas agiram, socorrendo e evacuando rapidamente áreas de risco, ao contrário da morosidade das autoridades brasileiras, que imputaram à natureza (ao excesso de chuvas) a responsabilidade pelas mortes. A comparação é falaciosa. A diferença, no caso, é que o Brasil é periferia do capitalismo, então quase tudo acaba ganhando o carimbo da incompetência: somos incompetentes, figuramos mal nos rankings internacionais de avaliação do desempenho de estudantes, nosso coeficiente Gini é dos mais elevados, acusando alta concentração de renda, os índices de violência e desrespeito aos Direitos Humanos também são alarmantes e, não se pode deixar de mencionar, nossos políticos afrontam cotidianamente a inteligência das pessoas. De forma que a imagem que o Brasil passa deve ser uma espécie de mosaico bizarro onde figuram praias, Rio de Janeiro, carnaval, mulheres bonitas e sensuais (turismo sexual à vista), favelas, floresta amazônica e pobreza, muita pobreza. Um cartão postal para uma visita rápida. Mas aí que, retomando o mote das chuvas de janeiro, proporcionalmente o que está acontecendo no Japão é mais grave, tem consequências de âmbito maior. O Japão é um dos centros do capitalismo mundial, e justamente por isso lá o desastre natural adquiriu um caráter mais alarmante. O fato é que, na periferia ou no centro do capitalismo, a natureza continua sendo acintosamente ignorada. Mas ela está tão viva quanto nós, e as consequências costumam, tal como o abalo sísmico que desencadeou a tragédia no Japão, se fazer ouvir com estrondo e estardalhaço. E então morre-se muita gente, outros tantos entram na conta dos desaparecidos. Passado o estrago, o capitalismo reconstrói-se como eficiência do lucro, e a imprensa passa a cuidar de outro assunto, virando o acontecido coisa do passado. Até que nova tragédia aconteça. O que está escamoteado nisso tudo é que a morte em grande escala está inscrita no capitalismo da mesma forma que a morte miúda, de todo dia, que de tão de todo dia já não causa mais espanto. 

Em tempo: alguém que se disponha a fazer piada com os acontecimentos no Japão precisa procurar um médico, urgentemente. 

quarta-feira, 16 de março de 2011

a fulana entregue

A amiga que está gentilmente, junto à ufmg, cuidando da entrega dos exemplares da tese para mim, mais a papelada toda, e informações e detalhes que no momento são um pouco como a gota d'água, manda-me, para satisfazer uma curiosidade minha e me dar um parâmetro para os exemplares que farei aqui no Rio, manda-me fotos da minha tese. Fico emocionada. Na troca de e-mails, acabamos referindo a tese como a fulana. Pois então a fulana parece que ficou bem na foto.

terça-feira, 15 de março de 2011

pérola do dia (sessão nostalgia)

Entro no ônibus, metade dos passageiros, como sempre, com os fones de ouvido devidamente conectados a algum mecanismo de reprodução de música. Havia lugares para sentar mais atrás, onde uma figura seu tanto bizarra, ao contrário dos sisudos passageiros, compartilhava a música que ouvia, logicamente com aqueles que não estavam conectados a fones de ouvidos. Cantava junto, acompanhando, e não pude deixar de reconhecer a voz da canção que ele cantarolava, ninguém menos que Cat Stevens, tocando na rádio. Nunca soube muita coisa dele, apenas ouvi algumas canções na época da universidade. Mas agora, ao escrever o post, descubro sua polêmica conversão ao islamismo (aqui). Mundo selvagem, difícil de ser atravessado com um sorriso.

JAPÃO

noite, silêncio e vastidão

Na noite que passou dormi meu sono mais profundo, longo e intenso dos últimos meses, um sono que efetivamente foi um descanso. Apaguei a casa mais cedo, silenciei ao máximo tudo que estava ao meu alcance e, por volta da oito da noite, talvez antes, ouvindo uma música bem baixinho e pretendendo apenas descansar um pouco, cai num sono pesado. Havia trabalhado o dia inteiro, haviam acontecido coisas importantes, a marcha da vida se fazendo, eu me refazendo dos excessos recentes. Parecia-me, em alguns momentos, estar fazendo uma viagem, e sonhei coisas com uma nitidez de cinema. Ouvi o telefone tocar duas vezes: impossível atender. De quando em quando algo em mim se lembrava (lembrando-me) de que eu não havia escovado os dentes (afinal a intenção era apenas um descanso rápido), mas não havia força que me trouxesse de volta para o imperativo todo-dia-devo-escovar-os-dentes-antes-de-dormir. Voltei desse sono com a sensação de que meus dias estão se renovando. E aqui entra o motivo do post: nos últimos dias, distanciei-me deste espaço: sentia o silêncio me envolvendo. Esse silêncio também fala, a contrapelo, sem deixar de ser silêncio, e isso é quase impossível de traduzir sem trair as melhores coisas que se viveu: o labirinto da linguagem é sinuoso, e quero finalizar isso sem  trair o benefício, a dádiva do sono que recebi. 

o que o silêncio não diz à palavra

O grito, Munch, 1893
[imagem obtida aqui]

domingo, 13 de março de 2011

The Byrds: You Ain't Goin' Nowhere (Bob Dylan)

tradução: o trabalho de Denise Bottmann

Ontem, ao comprar pela internet um livro há muito acalentado, deparei-me com um nome conhecido na tradução: Denise Bottmann. Sempre sondo, antes de adquirir uma obra em língua estrangeira, o nome do tradutor. O livro é este:


Acompanho, como posso, o trabalho que Denise Bottmann desenvolve em seu blog não gosto de plágio, trabalho que vem lhe acarretando inclusive processos judiciais, movidos por editoras que se sentem lesadas pelas colocações de Denise. No entanto, a outra face da moeda é o apoio que ela vem recebendo de outros tradutores e de setores ligados à universidade, compilados no blog apoiodenise. Sobretudo, vale destacar que a discussão sobre a qualidade das traduções foi corajosamente levantada, fora dos circuitos acadêmicos, e isso é um dado importante, ao propiciar um contato mais direto com o leitor, levando-o a questionar a qualidade das traduções que lê. No campo teórico, os estudos sobre tradução no Brasil envolvem discussões avançadas, e contamos com excelentes tradutores. Na prática, editoras muito focadas no mercado acabam comprometendo esse trabalho. Esse post visa tão somente situar uma questão que acompanho tangencialmente, mas que me diz respeito na hora de escolher uma boa tradução de obra em língua estrangeira que desejo ler. 

Clarice Lispector

O erudito

Ele é agora gerente de uma loja de sapatos. Não porque escolheu, mas foi o que lhe restou. Perguntava-se sempre: onde está o meu erro? O erro em relação a seu destino, queria ele dizer. Não há grandes motivos a procurar no fato de alguém ser gerente numa loja de sapatos. Mas uma vez que ele mesmo se pergunta e estende sapatos como se não pertencesse a esse mundo ― o motivo da indagação aparece. Por que realmente? Fora, por exemplo, o melhor aluno de História e até por Arqueologia se interessava. Mas o que parecia lhe faltar era cultura histórica ou arqueológica, ele tinha apenas a erudição, faltava-lhe a compreensão íntima de que fora neste mundo e com esses mesmos homens que haviam sucedido os fatos, que fora na terra em que ele pisava que houvera um dia habitantes e que os peixes que se haviam transformado em anfíbios eram aqueles mesmos que ele comia. E até hoje é como um erudito que ele estende sapatos ― como se não fosse em contato com esta áspera terra que as solas se gastam.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.233.