Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 4 de junho de 2011

tolerância zero

Sergio Cabral (PMDB) qualificou os bombeiros que invadiram o quartel de "vândalos irresponsáveis" e a invasão de ação "inaceitável do ponto de vista do Estado de Direito democrático e do respeito à instituição centenária, admirada pelo povo do Rio de Janeiro". Cabral refutou a alegação dos manifestantes de que recebiam o pior salário do país, dizendo que, em seu governo, a corporação está tendo pela primeira vez um plano de recuperação salarial. "Não é verdade [que é o pior salário do Brasil]. E mesmo que fosse, não se justificaria a entrada no quartel, agindo contra a instituição. É intolerável". Atenção ao "mesmo que fosse".

descoberta feita numa sexta à noite

Eu descobri que posso. Posso o quê? Não sei. Apenas sei que posso. Um relance que me veio assim, aparentemente do nada, depois da missão cumprida da semana de trabalho. Eu posso. Posso ser o que a virtualidade do meu ser consentir, e assim me reinventar. Agora sei que posso.

procurar (Cortázar)

“Nesse tempo, já me dera conta de que procurar era a minha sina, emblema de todos aqueles que saem à noite sem qualquer finalidade exata, razão de todos os destruidores de bússolas.

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.16. 

gororoba

"Você come gororoba?" Foi na casa de um professor, no Espírito Santo, ele estava me convidando para almoçar com ele, havia um mexido, uma abóbora, arroz, feijão. Então comentei que não tinha costume de cozinhar, não gostava de ir para a cozinha. Ele se espantou: "Um ser humano que não cozinha!..." Estou revendo algumas coisas, inclusive a possibilidade de começar a improvisar gororobas. Uma vantagem é poder dosar o sal, escolher o óleo, o tempero... Outra é o controle de qualidade. E certa economia, é certo.

relendo grande sertão: veredas (XIII)

“Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai adiante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para as más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 116.

Manuel António Pina

Vencedor do Prêmio Camões 2011 (blog raposas a sul, do qual transcrevo o poema que segue):

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta. 

balanço

Entre quando comecei na blogosfera e hoje, aproximadamente um ano e meio, muita coisa mudou, inclusive o nome do blog. Mas mais ainda mudei eu, ou o que em mim atende por eu.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Emily Dickinson

Como se o Mar rompesse
Mostrando um outro Mar ―
E fosse ― um outro ― nesse
Mar ainda pré-formar ―

Mares do Mar ― que invade
As Praias singulares
De outros futuros Mares ―
Nestes ― a Eternidade ―


As if the Sea should part
And show a further Sea ―
And that ― a further ― and  the There  
But a presumption be

Of Periods of Seas ―
Unvisited of Shores ―
Themselves the Verge of Seas to be ―
Eternity is Those

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p. 62-63.

um poema por dia

Há aproximadamente um ano venho postando, quase diariamente, um poema. Necessidade estranha, haja vista que posso ler quantos poemas quiser, enfeixados nos livros que possuo. No entanto, o poema cotidiano, do autor que estiver mais à mão, é uma lembrança repentina que me vem. Então alguma coisa se agita em mim, e não há outra forma de contemplar o que pede contorno senão postando um poema que, de algum modo, tangencia sensações fugidias, que de outra forma ficariam relegadas ao ostracismo dos belos instantes perdidos. Mas há poemas bastante difíceis, que talvez nunca chegue a postar. Sou covarde, admito.

Fernando Pessoa e Nietzsche

"Fernando Pessoa e Nietzsche: o pensamento da pluralidade"
[uma apreciação crítica pelo blog um fernando pessoa]

Iberê Camargo, sem título, 1943 (série "Paisagens")

digerindo a noite

Os sonhos desta noite e desses dias. Uma senha: no sonho, digo a alguém que tudo não passa de um sonho, e que felizmente vou acordar. A matéria do sonho: o dia. O pior pode ser entender um sonho. Na noite sonho que quero acordar do dia. Do caos das imagens dos meus sonhos vou emergindo como quem recobra aos poucos a consciência depois da anestesia, mas, ao contrário da cirurgia, quer saber o que se passou enquanto dormia. Tenho me recordado intensamente das imagens desconexas dos sonhos recentes: elas me chegam já embrulhadas pela tentativa de decifrar própria da hermenêutica do dia. Então a noite, para se defender, vinga-se dizendo-me ser impossível acordar do dia, que o dia é outra matéria, que ele penetra o sonho mas quer linguagem própria, não tolera a hermenêutica do dia.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

entradas

"antonio quadra" poesie
"summer of hesperides"
conhecimento para o perspectvismo
i'm not there
metonímia do mito de sísifo
nina heitor dhalia
o sentido da vida no mar
jorge luis borges sentido da vida

Alexei Bueno

ISOLAMENTO

Todo o ruído passa. O ruído é muitos.
Uno é o silêncio, e eterno.
Assim a noite, entre os dias fortuitos,
Ergue um só rosto interno.

E entre uma e os outros nós andamos, juntos
No único tempo, o agora.
Mas nem aqui, nem nos dias defuntos,
Seremos na mesma hora.

Pois esta que é e as que não são, unidas,
Separarão sem pena
As nossas almas, nossas mãos perdidas
Da mão que nos acena.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.249.

02 de Junho: Dia Internacional da Prostituta

Também AQUI
"Un día me vendrá a buscar, a la salida un hombre bueno / 
Pa toa la vida y sin pagar, mi corazón no es de alquilar"

Emily Dickinson: "A Word is dead..." na tradução de Augusto de Campos

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

A Word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p.92-93.

Emily Dickinson: a dicção da linguagem

Emily Dickinson propõe:

A Word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

Fazendo um trocadilho com Dickinson, é a própria dicção da linguagem que está posta em cena. A linguagem cria: dizer algo é fazer viver o que está sendo dito, é instaurar mundos. Qualquer inocência em relação à gratuidade das palavras vai-se nesta perspectiva. Aqui uma tradução de José Lira para o poema de Emily Dickinson.

Modest Mouse: Sleepwalking (cover)

Espinosa

quarta-feira, 1 de junho de 2011

João Cabral de Melo Neto

ANTI-CHAR

Poesia intransitiva,
sem mira e pontaria:
sua luta com a língua acaba
dizendo que a língua diz nada.

É uma luta fantasma,
vazia, contra nada;
não diz a coisa, diz vazio:
nem diz coisas, é balbucio.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.72. 

fortaleza

Tenho andado reclusa, economizando energias, com preguiça de quase tudo o que costuma empolgar as pessoas. É como se um ano sabático tivesse se me mostrado inevitável. Então parei, coloquei algumas coisas em stand by, outras na sombra, o que se traduziu, por exemplo, na dificuldade atual de estar presente na vida dos amigos. É que precisei estar presente antes de tudo para mim mesma, algo que, nas idas e vindas dos estudos e entre as cidades por que fui passando, nunca foi muito fácil. Quando me dou conta do que ergui com a minha própria força, meu nome me parece uma forma de suavizar uma trajetória que me exigiu tanto, e continua a exigir.

uma sensação única

Li certa feita Raduan Nassar dizendo que um dos seus nirvanas era o momento de dormir, ir escorregando devargazinho para o sono. Pois eu, por mais louco ou atrapalhado ou cansativo ou medonho que tenha sido o dia, quando me deito para dormir, sinto-me pacificada com a minha existência. Isso só acontece no momento de dormir, e se já não tivesse se tornado clichê falar no sagrado sono dos justos, eu diria que é algo dessa natureza. Que seja então o momento sagrado em que algum anjo se aproxima de mim.

terça-feira, 31 de maio de 2011

caixa preta

A palavra abortada, que trairia um desejo, uma confissão. O poema revelador que não será postado. O fragmento de sonho deixado à sombra. A impossibilidade de revelar-se na fala dirigida ao analista. As palavras interditas. Os silêncios que acusam impossibilidades. Os mistérios de uma vida.

Walter Hasenclever

Quando a morte
Engole a música:
Nos reconheceremos?
Vives
No quarto onde há homens?
Do mar desponta a ilha,
Uma vida que nos valeu.
Pássaros alçam voo.
Não chores!

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.96-97. Edição bilingue ilustrada. 

Edu Lobo: a melhor interpretação de "Carcará"

escrita

Se eu não escrever, sufoco. Isto, dito assim, num blog bem comportado, pode soar temerário. No entanto, o fato de ser lida não pode significar uma censura ao que me impulsiona para a escrita. Tento atar extremos, volto à infância, procuro respostas para o presente. O presente são dois anos de Rio de Janeiro, e não é a mesma coisa que ter nascido aqui. Nas ruas do Centro reconheço a cidade como minha, que esta agora é minha cidade, que Minas e o Espírito Santo ficaram para trás. Mas é um reconhecer de quem toma posse pelo olhar: de quem se dá conta, entre uma rua e outra. Toda semana, quando vou à zona sul para a sessão de análise, nas proximidades do Jardim Botânico, me lembro da Clarice Lispector: para mim o Jardim Botânico é inseparável do que dele disseram Tom Jobim e a Clarice. Mas ambos já morreram, o trânsito por lá via de regra encontra-se engarrafado, as pessoas têm pressa, e na pressa lotam os ônibus e o metrô. Da rua Jardim Botânico entrevejo a Lagoa, e só: nenhum desejo de caminhar em sua orla. Ao alto, um Cristo sossegado me ignora. Então dou meia volta e me dirijo para a sessão. Depois, vou almoçar, tomo novamente o metrô e volto para casa, não sem antes passar pelo Centro e me deixar ir por aquelas ruas estreitas, antigas e movimentadas. Sem dúvida a arquitetura mais bela da cidade. P.S. Hoje ainda é terça, mas acordei certa de que já era sábado. Sem dúvida sintoma de uma enorme vontade de ficar em casa, lendo, escrevendo, fazendo o que me agrada.

vento de maio

Hoje é o último dia do mês, 
E o frio está cortante. 
Sopra um vento de maio,
Faz um belo sol lá fora.

Alexei Bueno

TRANSCENDÊNCIA

Os pássaros que morrem,
As flores que fenecem,
Os córregos que correm
Ao mar onde adormecem,

Que calma de crepúsculo
À quieta noite os leva,
Sem que um soluço, um músculo
Se exalte contra a treva!...

Como as folhas que aragem,
Como um trapo, retira
De ombros onde a folhagem
Nascente já se estira,

Tudo se vai ritmado
Num mesmo canto antigo,
Enquanto em nós, torvado
De um íntimo perigo,

O olhar se atira além,
Sem tal terrena calma
Que o corpo nos contém
Mas nunca a nossa alma.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.281.

uma amiga me diz...

Que pretensão querer escolher o que meus olhos vão chamar de belo... De outro modo: querer dizer o que o meu olhar vai eleger como bonito. Sempre esta amiga a surpreender com seu olhar. Há interlocuções que descortinam. Enquanto escrevo isso, vislumbro, em rápido relance, uma imagem do que sonhei esta noite, mas a imagem foge tão rápida quanto veio, chamada pelo verbo descortinar. Quero ver o que não vejo, e às vezes não ver o que deveras vejo, minha luta é com meu olhar. Talvez a de todos seja, mas travestida com outros nomes. Meu olhar me trouxe até aqui, até este lugar, o lugar físico lato sensu, e o blog, lugar de enunciação, em tese virtual. Meu olhar teve professores de todo tipo, e a luta diária é erigir um olhar que seja uma escolha, não uma doutrinação.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mário Faustino: verbo em êxtase

Três artesãs me olharam
Dizendo-me seus olhos
Do fim que paira mais que nunca próximo
E mudas descobrindo
Apenas com seus olhos
A boca deste túnel onde vou
Tateando a frieza
Das fragas e das sombras de que é feito.
Mostraram-me seus olhos
A única saída
A construção de um deus
Menos cruel, mais claro
Feito só de matéria cognoscível
Com algo de animal
No corpo feito de êxtase
E lavores humanos
E humanas liberdades
Na cabeça de graça e força feita.
Mandaram-me seus olhos
Reconstruísse o homem
Dos restos em que o homem se dispôs
A si mesmo destruindo
Em louvor de seus deuses mais obscuros.
Tomasse eu, por exemplo,
Contemplações eternas
E eternas rebeldias
E um passo iconoclasta
E um gesto suicida
E o fogo do que cria
E o pranto do que não.
E tudo recompondo à chama desse
Então deus já criado
Saudasse o novo súdito
Com verbos sem sentido.
E deram-me seus olhos
As puras diretrizes
Do mundo que mister será criar
Como trono do deus,
Como carga do homem.
Um mundo onde o mover-se
Seja um ato gratuito
Um mundo onde a palavra
Seja ornamento inútil mas sem preço
E exato, inofensivo.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.168-169.

vida toda linguagem

Palavras. Ponto. Diante de mim o livro de Mário Faustino, o poema "Vida toda linguagem": "Vida toda linguagem / frase perfeita sempre, talvez verso, / geralmente sem qualquer adjetivo, / coluna sem ornamento, geralmente partida." Coluna sem ornamento, partida, mas perfeita a frase, o verso, que a diz. Não, não pode ser perfeita a linguagem da imperfeição: "Sinto que o mês presente me assassina, / As aves atuais nasceram mudas / E o tempo na verdade tem domínio / Sobre homens nus ao sul de luas curvas." Homens nus, não obstante a linguagem com que o dia nos veste e que o sonho despe, para revelar abismos informes onde eventuais lampejos acendem desejos. O tempo do dia, do relógio. O tempo da noite, ida e volta ao inonimado do existir: quem garantirá que, a cada ida, a volta é certa? Dormir é ceder a outra temporalidade, outra duração. Quem não sonha pode dizer que dormiu efetivamente? Que palavras vão traduzir os abismos da noite, do sonho? Impossível, a linguagem do dia não entende o linguajar da noite, e não sei se conseguirei (ou mesmo tentarei) ler a última obra do Joyce. Ao amanhecer, procuro em vão organizar em palavras pensamentos que tentam organizar essa outra vida que se vive-dorme todo dia, e quase sempre me escapa. As minhas palavras tentam se afastar de mim, para alcançar esse outro modo de ser, que a poesia por vezes condensa, verbo caro às tentativas de penetrar o universo do sonho.

domingo, 29 de maio de 2011

uma cigarra para o domingo à noite

Via de regra, quando comento sobre a fábula "A cigarra e a formiga", os alunos se apressam em condenar a cigarra. Então pergunto se eles abririam mão da trilha sonora que lhes embala a vida, qualquer que seja, e eles sempre dizem que não. Conversando com algumas pessoas próximas sobre a questão do cansaço, tem havido feedback. Excesso de pensar, sobretudo excesso de ocupar a cabeça com muitas questões ao mesmo tempo. Então, por exemplo, eu queria agora algo que me soasse como uma cigarra, no melhor sentido que essa fábula pode comportar (não obstante as fábulas serem uma estranha forma de regressão do homem à condição animal, em vez do contrário). 

Emily Dickinson / José Lira

A Word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.


Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz

(flor que se cumpre
sem pergunta)

Digo que é nesse
exato dia
que ela começa
a viver

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 302-303. 

"I ain't looking for nothing in anyone's eyes"

Esta música combina bem com o frio que está fazendo neste fim de tarde de domingo: final do domingo, fim do breve intervalo entre a sexta e a segunda, já a certeza da segunda-feira e da vida que se repetirá na rotina do trabalho, até a próxima sexta à noite, quando os objetos de trabalho serão deixados no primeiro canto da casa. É melancólica a canção, a melodia sobretudo, e há este verso: "I ain't looking for nothing in anyone's eyes". 


P.S. Incorporação permitida. Vamos ver por quanto tempo.

Birds on the Wires (Jarbas Agnelli): a música dos pássaros


trecho de conversa: "fragilidade"

“O que é ser resistente (o oposto de frágil?)? Não seria o poder de fazer a mente sempre ganhar depois de uma luta insana? E ela ganha o que, com isso? Sua fragilidade pode ser a característica de uma flor, que nem por isso deixa de ser mais importante que uma barra de aço. Sua missão pode não estar na utilidade, mas na beleza, exatamente na fragilidade!

Alexei Bueno

Cacos

Fragmentos, sim, fragmentos, mas de quê?
Que formaremos juntos, nós, pedaços?
Que imagem, qual visão que não se vê
Nascerá da união de nossos traços?
Nós, cacos, nós, partidos, nós, a falta
Do resto, da espantosa explicação,
No que daremos, fim que aos olhos salta,
E quem nos juntará? Qual ser? Qual mão?

BUENO, Alexei. Em sonho. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.390.