Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 1 de setembro de 2012

trecho de conversa: busca

“Acho que temos que cultivar o respeito por essa busca, o respeito também pela angústia que ela nos oferece à convivência, nesse diário não saber o que queremos, o que precisamos, o que nos dá identidade... Travessias, como diria...” 

v o z

Minha voz é modesta e quase silente. O que quero mesmo é a possibilidade do diálogo.

acordar com música: oceans - pearl jam

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

oneironaut (animação)

pelo meu reencontro com a natação

Herberto Helder: "então é preciso outra maneira de poema"

Esta ciência selvagem de investigar a força
por dentro dos olhos:
a treva parada numa parte: do outro faiscando
todos os astros:
as obturações as
aberturas na carne: não sei ver nos livros a aparição do rosto
todo cercado por uma casa:
não conheço quando nasce a ribeira no meio:
quando nasce quando
a ribeira de uma montanha
no meio brilhante:
a maldade da linguagem se o cinema mostra
as janelas das paisagens:
e essa forma repleta de passos para indagar:
e então é preciso outra maneira de poema: uma
espécie furiosa de pessoa comentando
com muito pormenor:
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:
a intensidade dos cabelos em volta dos cornos: e logo o poema
traz as coisas para o quarto: coloca
tudo mais perto do centro:
vê-se a teia que vai da fronte às coxas com os braços reluzentes
por cima
e no meio um remoinho cego:
o sexo: a estrela
tumefacta:
esta ciência é um movimento das mãos contra o espelho:
a parte de trás da cabeça onde vibra o meteoro: é
a onda aproximada: uma porta na sala
que fecha de estrela a estrela:
apenas o sangue e a testa um pouco louca entre os dedos:
copo de mármore:
planeta de aço:
uma flor rija ascencional com os pulmões chamejando
na terra:
essa velocidade que há na noite de lado a lado:
e a testa fervente abismada no mundo: e os polos
do corpo:
clareira
cerrada à volta: esse modo secreto de tudo mexer
com uma finura viva:
não sei que dedos no estilo para queimar a cara forte
paralisada: a combustão
dentro da fotografia: a sibilante cara:
a cara:
e a maneira sagaz de trazer cada coisa até à própria labareda:
as mãos enxutas muito abertas: o
medo sem um só grito
em frente da noite cosida: camisa
redonda: e este saber
que vê passar os animais fundos e claros e tem
a sua loucura para alimento:
e a casa
para morrer e falar durante o sono e andar
de um canto para outro
com os dedos aluminando limpamente: o circuito magnético entre as têmporas:
a raiz da ciência desde os pés até os olhos

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.307-309.

cruzada (renato braz e boca livre)

Ontem tive o prazer de reencontrar esta canção, de memória antiga e adormecida. Conhecia-a na voz de Beto Guedes. Com Renato Braz e Boca Livre ficou divina. E quem inspiração foi essa, dos compositores (Tavinho Moura e Márcio Borges)? "Você parece comigo, nenhum senhor te acompanha. Você também se dá um beijo dá abrigo". Belíssimo cruzamento de referências histórico-políticas e pessoais-subjetivas. No limite, afetivas: "Não quero ter mais sangue morto nas veias".

terça-feira, 28 de agosto de 2012

luta

Lutar é, antes de tudo, lutar por falar. Não é só lutar com as palavras. É lutar para chegar, pela palavra em curso, a si mesmo. 

arte

Entre a falta e o horizonte, a possibilidade do atrito.

encontro das águas: tavinho moura e almir sater

peixinhos do mar (por violeiros do brasil): lindíssimo

Fernando Pessoa

SONO

Tenho tal sono que pensar é um mal. 
Tenho sono. Dormir é ser igual,
 
No homem, ao despertar do animal.

É viver fundo nesse inconsciente 
Com que à tona da vida o animal sente.
 
É ser meu ser profundo alheiamente.

Tenho sono talvez porque toquei 
Onde sinto o animal que abandonei,
 

E o sono é uma lembrança que encontrei.

Fernando Pessoa. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.213.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

fire angel

Orides Fontela

CARTILHA

Foi de poesia
lição
primeira:

“a arara morreu
na
aroeira”.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.279.

factory and fantasy

being there - arredores da fotografia... e o barulho do mar

transformação (mas não a de kafka)

Sonhar com fogo é sonhar com transformação? Esta foi a via que me dei para as imagens desta noite. Além do fogo, havia uma gravidez, minha; pessoas conhecidas, em parte atualmente distantes, compareciam e interagiam, prontificando-se a ajudar a resolver os conflitos que iam surgindo; e creio que havia um antes, que me veio num flash de segundo, um pequeno relâmpago que desapareceu tão rápido quanto surgiu, do qual apenas consegui saber isso: era um antes.