Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 22 de dezembro de 2013

sobre "Barton Fink" (delírios de hollywood)

AQUI.

trecho de conversa: o pulsar da vida

“Sinto que tem coisas para as quais a gente tem de dar um bom desconto, pois somos muito rigorosas, não é? Eu sou...  Quero sempre eu mesma estar melhor, falar coisas melhores, observar mais, contribuir mais para o bem estar dos outros, mas o tempo corre, os segundos pulsam junto com as palavras que brotam segundo uma lógica que não controlamos e os acontecimentos são da conta de...  diria Deus, mas tenho escrúpulos... 

shine on you crazy diamond

sábado, 21 de dezembro de 2013

narrativas

“[...] as histórias são sempre maiores que nós, aconteceram conosco e sem ter delas consciência fomos seus protagonistas, mas o verdadeiro protagonista da história que vivemos não somos nós, é a história que vivemos.” (Antonio Tabucchi, O tempo envelhece depressa. Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 95.)

"Já é Natal na Leader"

Come January

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

não conforme

L E G-I (N)T I M I D A D E
                                D E   U M A  V O Z

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Walt Whitman — "but offer the value itself"

Não trago grana ou amores ou roupa ou comida .... mas é bom também ;
Não envio nenhum agente ou médium .... não ofereço nenhum representante  de valor — mas ofereço o valor em si.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 137. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Paulo Henriques Britto

BIODIVERSIDADE

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, 
que não requerem prática, oficina, suor. 
Maneiras mais simpáticas de pagar mico 
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. 

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, 
como há quem não se vexe de ler e decifrar 
essas palavras bestas estrebuchando inúteis, 
cágados com as quatro patas viradas pro ar. 

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica, 
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez, 
do outro lado da linha formigando de estática, 
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três, 

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos, 
incapazes de reassumir a posição natural, 
não são na verdade uma outra forma de vida, 
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Paulo Henriques Britto. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 9.

um rabisco no papel

Bem disse quem disse que são as palavras que suportam o mundo, não os ombros. Mesmo os ombros mais fortes recorreram à poesia.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

o tecido delicado da vida

É tudo muito delicado, tão delicado que eu sinto, às vezes, uma imensa responsabilidade em viver, falar, estar em relação com o outro. Digo “eu” sabendo dos limites necessários do “eu”, limites que preservariam o que é delicado.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Edifício Master (2002) - Eduardo Coutinho

futebol brasileiro

Ia falar da última rodada do campeonato brasileiro, a propósito de uma cena vista ontem no documentário “Edifício Master”, quando a internet traz a notícia – e as imagens – de uma briga tribal entre torcedores de dois dos times que estão duelando, conforme linguagem empregada pela própria mídia para caracterizar os embates da última rodada. Tratava-se, inicialmente, voltando ao documentário de Eduardo Coutinho, da fala do ex-jogador e ex-treinador Paulo Mata, que quando técnico do Itaperuna entrou nu em campo em protesto contra o resultado na partida contra o Vasco. Paulo Mata, perguntado sobre o motivo de seu protesto, disse ao diretor-entrevistador: “o futebol brasileiro...

walt whitman: a saudável anarquia da poesia

.... Um grito no meio da multidão,
Minha própria voz, redonda e arrebatadora e definitiva.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 111. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

palavra peregrina

Enfim eu voltei para a análise, depois de praticamente desacreditar do método e sofrer os reveses do discurso pouco hábil de uma analista pouco profissional. Mas isso, a mistura entre o profissional e o pessoal, eu só vi depois, e nem adianta pensar que a fluidez desses limites é prerrogativa da psicanálise, ou sua vantagem. Eu estava sufocando nos limites estreitos daquele “consultório”... Agora voltei, depois da re-volta. Voltei mas para outro lugar, o que significa uma fronteira que se alcança. Voltei para a busca de uma escuta, uma escuta que ouça a palavra peregrina que levo e não se apresse a encaixotá-la num texto que não me pertence nem me diz respeito. Às vezes é preciso ficar com os fragmentos, os cacos do texto, porque foi isso que se conseguiu produzir como imagem — representação — de um turbilhão, de um excesso. Vamos ver o que vai, ou não, acontecer.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

três letras

Lar é uma palavra que agasalha a alma — não: agasalha o corpo, que sente essa bem-aventurança como se fosse uma oferta para a alma. E quando, à noite, o último momento da consciência do dia começa a ceder ao universo do sono e da noite e o corpo já se encontra agasalhado na cama, então a palavra lar ganha toda espessura e conforto que suas três letras mal adivinham comportar.

domingo, 24 de novembro de 2013

I'm Not There: uma canção enigmática

"O homem atropela o que é mais frágil que ele"

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.”

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453-454.

sábado, 23 de novembro de 2013

Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Betrand Brasil, 2010, p.156.

aos espertos

O mundo é dos espertos. Deve ser por isso que está essa droga.

baby blue

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

voz e vez

Cheguei em casa quase sem voz, e as vicissitudes do dia de hoje — que talvez tenham contribuído para comprometê-la — fizeram-me pensar, de modo um tanto gratuito, se de fato minha voz me pertence, se eu tenho efetivamente voz. A resposta é não, parece-me. Mas isso não é definitivo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

necessidade

Provavelmente está fazendo um calor de rachar lá fora. O sol imperioso e implacável faz concordar com Aluísio Azevedo. É feriado, e alguns poucos transeuntes se arriscam pela avenida, movidos por necessidades que o receio do calor e do sol não venceu — e afinal nem todos se importam com isso. Há obviamente os carros, incessantes, e as praias cariocas devem estar cheias. Felizmente não preciso sair de casa hoje, e mesmo a feira pode esperar. Nenhuma necessidade me assalta, a ponto de eu ter de sair sob esse sol tirânico. E em casa consigo me proteger do calor ligando o ar condicionado. Uma amiga ilustre concorda: “no Brasil ar-refrigerado não é um luxo, é uma necessidade.”

The Lonesome Death of Hattie Carroll

uma música antiga (de ivan lins e victor martins)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

clarice lispector, trecho do conto "por enquanto"

“Nesse intervalo dei um telefonema e, para o meu gáudio, já são dez para as sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de ‘para o meu gáudio’. É muito esquisito. De vez em quando eu fico meio machadiana. Por falar em Machado de Assis, estou com saudade dele. Parece mentira mas não tenho nenhum livro dele em minha estante. José de Alencar, eu nem me lembro se li alguma vez.

Clarice Lispector. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.47.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

esquecendo os sonhos

Tudo por nada, ou quase nada, aquele nada que sobrenada na matéria amorfa dos sonhos. Talvez os sonhos sejam a desintegração dos nadas... em matéria que vai desintoxicando a alma.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

o escorpião e o sapo

Penso sempre naquela fábula, em que o escorpião diz ao sapo que não pode mudar sua natureza. Essa fábula coloca um limite, talvez pouco confortável e evidente, entre o animal e o homem. Mas qualquer que seja a vocação humana, seu desafio é contrariar sua natureza.

domingo, 10 de novembro de 2013

Ricardo Reis

Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins dadas aos outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
       Meu desejo de tê-las?

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.66.

ouvindo grateful dead

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

uma boa notícia

Não estamos (muito) sós no Universo. E o ser humano talvez não seja a última bolacha do pacote, algo de que sua arrogância tem dado mostras. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Álvaro de Campos

[...]
Ah, quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.

Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.219.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

sentimentos mínimos

A diferença entre saber-se e sentir-se insignificante é dada pela angústia que se sente diante do sentimento da insignificância, uma percepção que empurra para a escrita.

Paulo Henriques Britto

Viver momento a momento
com a insensatez dos insetos
que arremetem impávidos
contra o real da vidraça
obedecendo sem trégua
à lógica imperturbável
que trazem em suas entranhas.

Paulo Henriques Britto. Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 62. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Herberto helder

POEMACTO
(III)

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor pôe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus
.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas —
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.112-115.

vinto tinto seco

Driblando essa e aquela recomendação médica — aliás, as especialidades sabem bem sê-lo quando o assunto é divergir nas restrições alimentares —, retornei ao vinho (quase) cotidiano e ao café (quase) diário, mas não ordinário. Também o cacau em pó foi reabilitado, em porções parcimoniosas. E dizer “parcimônia” é menos vulgar que “beba com moderação”. Pelo menos até a próxima crise de labirintite. 

grande canção de chico buarque

terça-feira, 29 de outubro de 2013

restos da noite

Sonhos... o que fazer deles? Não os sonhos de outrora, metamorfoseados em “hoje”, mas os originais, que comparecem noite após noite trazendo ecos de um mundo pouco habitável. A sustentabilidade dos sonhos — quase um clichê —, fantasmas noturnos dos quais restam borboletas, não por comportarem beleza, mas pelo efeito da imagem saltitante e fugidia no terreno da memória. De intrincados enredos emergem lepidópteros fugidios, que aos poucos se dispersam com as primeiras luzes do dia. Camadas e camadas de inconsciente removidas enquanto se dorme. Por que sonhamos? Uma explicação biológica dirá que são um traço evolutivo, uma espécie de compensação noturna para as tensões diurnas, uma forma do organismo colocar-se em equilíbrio. Mas se permanecem com o dia, estão pedindo algo do corpo que lhes serviu de palco, ainda que seja essa parca escrita, circular e evasiva, forma de continuarem batendo asas para além do efêmero do imago. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Rio pós-moderno

O trânsito dessa cidade está muito ruim — péssimo é o termo adequado. E sua propalada beleza, fonte de divisas na exploração do turista, anda sofrendo reveses. Há seis anos, quando vinha fazer pesquisas para a tese na Biblioteca Nacional, sem imaginar que em breve iria transferir minha vida para cá, apaixonei-me pelo centro da cidade, a arquitetura preservada do tempo do Império, a elegância da Rio Branco. Mas a geografia do centro do Rio mudou bastante após o fenômeno das manifestações. Agora os tapumes dominam a fachada das agências bancárias, bem como de alguns órgãos públicos, e não há redenção para tamanho mau gosto. Quem te viu, quem te vê, diria talvez Chico Buarque, se estivesse pontificando na cena política. O centro do Rio está feioso, perdeu o charme, a elegância da arquitetura combinada ao traço moderno. No Rio pós-moderno a política tem deixado dois rastros de destruição: um oficial, configurado no bota-abaixo do furor obreiro da prefeitura, em conluio com as esferas estadual e federal; um não oficial, fruto da violência das manifestações, inclusive contra os mandatários das obras.

suíte do pescador

Paulo Henriques Brito

DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída — falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.

Paulo Henriques Brito. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.18.

Enem propõe tema chapa-branca para redação

No ano em que protestos e manifestações — deflagrados por reivindicações por melhorias nos transportes públicos — sacudiram o país, mudando a imagem que o poder tinha dos brasileiros, o governo propõe como tema supostamente relevante para discussão entre jovens que estão terminando o ensino médio a chamada lei seca. Nas ruas, nas manifestações, os jovens propuseram várias pautas de discussão e negociação, levantaram debates até então engavetados e considerados pouco importantes pelo poder. Debates que ninguém imaginaria viessem à tona. Na redação do Enem, todavia, os jovens, os mesmos das manifestações, foram convidados a falar de um tema fora de foco, digamos assim. Não é que a lei seca não seja importante. Como outras leis, merece toda a atenção da sociedade. Mas ela já foi debatida e implementada, não é mais a bola da vez. Sabe-se, ademais, que as redes sociais são usadas para evitar flagrantes do bafômetro. Em adição, está pressuposto no tema, ao contrário das reivindicações por melhorias nos transportes públicos, que esses jovens serão futuros proprietários de automóveis, e que deverão beber com moderação, evitando fazê-lo quando forem dirigir seus carros. Perfeito. Mas trata-se de um horizonte burguês, portanto prevendo um jovem enquadrado em um lugar social e profissional, dobrado às imposições (ou necessidade, talvez) de ter um automóvel e usá-lo de forma responsável. Mais um pouco e o Enem se transforma em um manual de instruções para a vida adulta regrada. Por esse prisma, não é de espantar que, no exame de 2012, um candidato tenha inserido uma receita de macarrão instantâneo no texto. E o protagonismo juvenil? E a luta por educação, saúde e serviços públicos de qualidade? E as tantas outras leis importantes, que vêm passando ao largo do debate social?

tudo em casa

terça-feira, 22 de outubro de 2013

acordar

O ruído do ar condicionado
Avisa que amanheceu.
Há um microclima no quarto
Traduzível como o prazer de estar vivo,
Enquanto o mundo soa-me
Um espaço contíguo
Onde outros vivos se movem.

domingo, 20 de outubro de 2013

Paulo Henriques Britto

POÉTICA PRÁTICA

A realidade é um calhamaço insuportável? 
Tragam-me então resumos.
 
A vida que se leva é um filme inassistível?
 
Vejamos só os anúncios.

São os limites do corpo intrusões malignas 
de um demiurgo escroto?
 
O corpo não é preciso, e o espírito é
 impreciso: 
eu não é um nem outro.

Anda inconveniente a tal da poesia, 
a significar?
 
Nada como um bom significante vazio
 
para abolir o azar.

Paulo Henriques Britto. Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 18.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Paulo Henriques Brito

III (De Três Epifanias Triviais)

O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.

Um belo dia — por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos —
você abre a janela, ou abre um pote

de pêssegos em calda, ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a ideia irrompe, clara e nítida:

É necessário? Não. Será possível?
De modo algum. Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega

a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
                            E neste exato instante
você por fim entende, e refestela-se
a valer nessa poltrona, a mais cômoda
da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.

(Mesmo que seja por trinta segundos.)

Paulo Henriques Brito. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 72-73.

sábado, 12 de outubro de 2013

em comum com Clarice Lispector

Sábado é meu dia — diz Clarice em uma de suas crônicas. E hoje em particular é meu dia também pela criança que continua a viver em mim.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

I N C A P A E S (pichação de rua)

Fernando Pessoa

Sim, por fim uma certa calma...
Certa ciência antiga, sentida
Na substância da vida,
De que não há acabar da alma,
Qualquer que seja a estrada que é seguida...

Fácil visão?
Crença de muitos? Não.
Que o que sinto tem diferença.
É uma vida, não uma crença...
Não é meu: é do coração.

Sol que atingiste o ocidente,
Sei que outro te tornarei a ver —
Um outro e o mesmo no oriente:
Tudo é ilusão, mas nada mente,
O Nada que é Tudo é o Ser.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.256.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

trilha sonora do filme "dead man", por neil young

eu, eu, eu...

Talvez, no enunciado “estou sofrendo...”, a questão não seja alterar o verbo, mas a pessoa do discurso, pois o “eu” parece imperar absoluto no reino do sofrimento. Não se trata de mudar de domínio: enquanto houver “eu” haverá sofrimento. “O eu faz parte das coisas que é preciso dissolver”. (Deleuze, A ilha deserta, p.249).

Kafka

De todo modo, as baratas estão debaixo da cama — lentas, semiocultas, empoeiradas, com patas mais espessas e movimentos mínimos. Parecem não querer serem incomodadas pelas inquietações humanas, que no entanto lá chegam, em seu nicho empoeirado. Debaixo da cama é, também, um lugar em que certas camadas dos sonhos são permitidas. 

domingo, 6 de outubro de 2013

sonho-enigma

Da sequência de imagens que consegui organizar e recordar ao acordar — naquele momento em que se tem ciência de que se trata de um sonho —, aconteceu-me estar sentada num metrô, ou coisa equivalente, acompanhada de alguém que não consigo identificar, mas que teria que ceder seu lugar quando uma outra pessoa chegasse, uma espécie de cavaleiro distinto que tinha aquele lugar destinado para si. Já não era mais metrô então, mas um evento social. O cavaleiro chega, o lugar é cedido, e outro personagem sai. Movida quem sabe pela culpa, quem sabe pelo desejo de entender o porquê do que se passava, encaminhei-me ao quarto onde o outro personagem, que cedeu o lugar, se encontrava, e era uma criança, um menino, que sentia frio, mas que parecia disposto a suportar isso, resignado. Aqui seria preciso dizer que o menino era negro. Mas por que dizê-lo? Por que isso faria algum tipo de diferença? Já então a cena é outra, e recorro à minha mãe, que está passando roupa, para conseguir uma forma de agasalhá-lo, protegê-lo, para que ele não sentisse frio. Minha mãe a princípio nega, então insisto e consigo. O sonho termina aí. Não sei mais se ainda dormindo ou já acordada, me dei conta de que aquela criança eu havia expulsado de mim, em troca do mundo adulto e civilizado das convenções. Pode ser que tenha concorrido no sonho a própria forma com que os negros eram tratados nos EUA, cedendo seu lugar no ônibus para os brancos. Não precisaria ir tão longe, pois no Brasil os lugares também são bem marcados, o que remete ao cavalheiro distinto que se sentaria ao meu lado. Seria bem mais fácil para mim, talvez, entender o sonho se o menino não fosse negro. Mas ele não tem só essa diferença em relação a mim: há também a questão do gênero e o fato de ser uma criança. Ele, efetivamente, é a representação do outro, da alteridade, da diferença, que por vezes expulso de mim para sobreviver. Ele é uma diferença que de repente gritou dentro de mim, ou melhor, no seu silêncio resignado, fez-se ouvir, porque eu tentei escutar. Ter sonhado com isso, ter, no sonho, ido atrás, reconhecido, procurado proteger, conseguido discernir e escutar essa diferença frágil e silenciosa é mais do que um consolo: é a indicação de que um percurso está se fazendo.

acordar com clarice lispector

"O anonimato é suave como um sonho." (de A descoberta do mundo, 1999, p.75)

sábado, 5 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Depois de mais cem anos
Ninguém sabe o Lugar
É Paz que não se move
A Dor que ali doeu

Cresceu altiva a grama
O Estranho que foi lá
Só viu a Ortografia
De quem já faleceu

No ar do Verão o Vento
Da trilha há de lembrar
O Instinto guarda a Chave
Que a memória perdeu


After a hundred years
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace

Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead

Winds of Summer Fields
Recollect the way
Instinct picking up the Key
Dropped by memory

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.74-75.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

sonhos

O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade, vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo, uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu posso, ainda que me censure.

respeitar os professores está na moda

terça-feira, 1 de outubro de 2013

poesia

Porque
    O som
E o
    Silêncio
Irmanam-se
    À vida — que sabe quando o som deixa de ser silêncio.

Emily Dickinson

O Espírito não mostra
A mais íntima Hora
Que Horror subjugaria as Ruas
Se lhe viesse à Cara

O Porão dentro da Alma
O Subterrâneo Peso –
Só Deus faz um Lugar tão cheio
Ficar silencioso.


Its Hour with itself
The Spirit never shows
What Terror would enthrall the Street
Could Countenance disclose

The Subterranean Freight
The Cellars of the Soul
Thank God the loudest Place he made
Is license to be still.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.172-173.

sábado, 28 de setembro de 2013

Ricardo Reis

Pobres de nós que perdemos quanto
Sereno e forte nos dava a vida
        O único modo
O único humano de a ter...
        Pobres de nós
Crianças tristes que mal se lembram
De pai e mãe
E andam sozinhas na vida cega
        Sem ter carinhos
        Nem saber nada
De aonde vamos pela floresta,
Nem donde viemos pela estrada fora…
E somos tristes, e somos velhos,
        E fracos sempre…
        Sem que nos sirva.

Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.33.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

aflição moderna

Você está numa fila qualquer, via de regra de supermercado. A pessoa que está atrás de você dá, de repente, o ar de sua presença, através de um leve e inconveniente esbarrão, ou empurrão, suficiente para você sentir a presença física da pessoa e traduzi-la como pressão para andar mais depressa. Mas se você, incomodado com aquele contato súbito e indesejado, cede à pressão, arrisca-se a repetir o mesmo gesto com quem está na frente. Você então move-se um pouco, o suficiente para se proteger da pressão exercida por quem está atrás, mas a pessoa entende então que a fila andou, e anda também, mantendo a pressão para que você continue a andar, a avançar, para que chegue logo ao caixa, passe logo os produtos que veio comprar, pague rápido, porque você mal termina de fazer cada uma dessas etapas e quem está atrás já está ocupando o lugar que você achou que era seu na fila do supermercado. Então é desconfortável saber, sentir, que o lugar ilusório que se ocupa no mundo não é necessariamente a possibilidade de estar em paz, porque parece que ninguém está em paz.

domingo, 22 de setembro de 2013

O que é a vida espiritual de alguém?

Seria aquilo que, tradicionalmente, se opõe à matéria? Então seria mais por tradição linguística — ou conceitual — que se continua a falar em vida espiritual. Mas deixando essa oposição de lado, é difícil não admitir que há uma dimensão espiritual da existência, com necessidades próprias e pouco conhecidas, talvez porque sejam menos intercambiáveis que as demais, mais visíveis e evidentes por si. Reconhecer em si demandas espirituais é, de alguma forma, perceber-se à parte, ainda que se saiba pertencendo a uma maioria. Há as que são canalizadas e satisfeitas nas religiões. E há aquelas que não encontram refúgio ou sentido na religião. Mas continuam sendo espiritualidade.

o silêncio, esse ancestral do homem

Tantos nomes que não há para dizer o silêncio —

a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.

Evapora-se a roupa, mas não sinto.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.247.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

no limite da tensão do dizer

Por baixo das palavras, as linhas e os silêncios de uma vida. Na impossibilidade de ser invisível, o visível das palavras, palavras que querem proteger.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ludwig Uhland

A COROA SUBMERSA

No alto daquele monte
Há uma casa pequenina,
Panorama deslumbrante
Da porta se descortina;
Livre e justo lavrador
Lá mora, que ao fim do dia
Cânticos ergue ao Senhor
E o gume da foice afia.

Embaixo um pântano existe
Sombrio, onde jaz no fundo
Coroa, em que já se viram
A glória e o poder do mundo;
Carbúnculos e safiras
Lá estão à noite a brilhar;
Ali ela vive há séculos,
Ninguém ainda foi a buscar.

Cinco séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.35.

sábado, 14 de setembro de 2013

Fernando Pessoa: "Ah, sempre no curso leve do tempo pesado / A mesma forma de viver!"

Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de ser enganado
Por crer ou por descrer!

Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!

Saudade, ‘sperança — muda o nome, fica
Só à alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.

Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!

Sempre, ou no dia ou na noite, sempre — seja
Diverso — o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão! 

Fernando Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia das Letras, 2007, p.161.

o que detesto quando digo “eu detesto a Rita Lee”

Naturalmente o que a Rita Lee representa (para mim): uma musiquinha fácil, de supermercado, grudenta; a postura pseudorrebelde; a voz chata dela; o adocicado viscoso de letra e melodia; a autocomplacência burguesa de um gosto musical duvidoso; os sorrisos de comercial de margarina... É preciso, acima de tudo, poder detestar, ter o direito de detestar — algo, alguém, alguma coisa —, porque não há como ficar indiferente às coisas detestáveis.

neil young (onde corre a veia do rock)

embrace (curta)

Costuma acontecer de manhã, quando já estou no ônibus indo para o trabalho. Surpreendo-me rezando o pai-nosso, que às vezes se prolonga numa ave-maria. É então que acontece a quebra. Não sendo mais um gesto rotineiro, quando começo a rezar suspendo o movimento, às vezes junto com a oração, e surpreendo em mim, diferentemente da fé, uma espécie de atavismo, memória do tempo em que rezar era inseparável da vida — e com isso se diz tudo. Que esse tempo era bom não há a menor dúvida. É sempre melhor ter fé do que não tê-la. Então agora tratar-se-ia de uma necessidade da fé? Quase um paradoxo isso, necessidade da fé, já que a fé não admite questão, e quem questiona não consegue simplesmente manter a fé, aquela que nos mantém unidos a uma crença ou religião. Mas não quero aqui começar a raciocinar por hipóteses, nem mesmo tentar racionalizar o meu gesto rotineiro. Ele tem força e dinâmica próprias, impõe-se sobre mim, memória de um tempo em que rezar era tão inquestionável quanto Deus.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

felizmente o rock não tem contraindicações... pelo menos para quem está na outra ponta

dave matthews band - show completo (hartford, maio de 2012)

vício

Os médicos, ao longo dos anos, foram me cortando vários pequenos prazeres do paladar, quando não fui eu mesma que me adiantei. Cada um tinha sua explicação — a ATM (disfunção da articulação temporomandibular), o fígado, o colesterol, por fim o labirinto. Saíram da mesa, mais ou menos nessa ordem, o café, a cerveja, o vinho, o chocolate, o capuccino, o licor... Substituí o chocolate pela canela, no leite, e ficou saboroso. Mas é pouco para tantos sabores que foram subtraídos. Então eu reabilitei o café, expulso há pelo menos vinte anos, porque se trata de poder ter algum vício, e o fiz em grande estilo, porque, já que é um vício, que seja um vício decente.

escravo da alegria

domingo, 8 de setembro de 2013

filosofia - noel rosa (belíssima performance)

noel rosa (curta)

protestos

noite

“Como a noite pode se fazer presente. Feita só de si mesma, é absoluta, cada espaço é seu, impõe-se com sua mera presença, com a mesma presença do fantasma que você sabe estar bem na sua frente, mas está por todo lado, inclusive às suas costas, e caso se refugie num pequeno foco de luz ficará prisioneiro, porque ao redor, como num mar que circunda seu pequeno farol, está a insuperável presença da noite.” (Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa.Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.38-39).

sábado, 7 de setembro de 2013

deserção suave

Generalizar sobre o ser humano, elaborando abstrações, não me interessa ou diz respeito. Precisei de uma semana para apreender a inversão dos parâmetros contemporâneos que se opera em “A Pele que Habito”, um Almodóvar trágico. De mim sei o que posso saber hoje, e o que posso saber a cada instância da linha descontínua da existência parece sofrer das irregularidades do terreno. O que posso saber de mim hoje mostra (a mim) alguém diferente de quem já me supus ou acreditei em outras paragens, ainda que aparentemente sob a mesma pele. O que mais me espanta é como algumas pessoas — e aqui traio a intenção de não generalização — conseguem estar sempre iguais, operação que parece demandar um esforço admirável de acomodação. Vejo a pele que habito envelhecendo aos poucos, enquanto o ser que espreita sob ela... é... é o que o cotidiano permite, o que as energias de hoje permitem. Eu preciso agradecer aos amigos, os poucos que o abraço de hoje consegue abrigar, por não desistirem de mim, apesar do (tão) pouco que tenho conseguido fazer ou oferecer. E preciso também reconhecer que tenho me obrigado a estar mais presente. Nenhum clichê de amizade, apenas uma deserção suave dos lugares comuns.