Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 13 de agosto de 2011

sentimento e expressão

“Sentimento é aquilo que só nós sentimos; mas quando o exprimimos, é o mesmo que todos sentem.”

MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p.268.

William Carlos Williams e Juan Gris

Flowers, 1914. Fonte: Juan Gris The Complete Works
Outros detalhes AQUI.


A ROSA

A rosa é obsoleta
mas cada pétala sua finda em
gume, a dúplice face
cimentando as estriadas
colunas de ar ― o gume
corta sem cortar
encontra ― nada ― se renova
a si mesmo em metal ou porcelana ―

aonde? Finda ―

Mas se finda
o início começa
de modo que avir-se com rosas
torna-se uma geometria ―

Mas afiada, nítida, cortante
pintada na faiança ―
o prato quebrado
como uma rosa vítrea

Algures o bom senso
faz rosas de cobre
rosas de aço ―

A rosa tinha peso de amor
mas o amor está no fim ― das rosas
Está no gume da
pétala que amor aguarda

Crespa, cinzelada até frustrar
o desvalor ― frágil
úmida, arrancada, soerguida
fria, precisa, comovente

O que

O lugar entre o gume das
pétalas e o

Do gume das pétalas sai uma linha
que por ser de aço
infinitamente fino, infinitamente
rijo penetra
a Via Láctea
sem contacto ― alçando-se além
dela  ― sem pender
nem impelir ―

A fragilidade da flor
ilesa
penetra o espaço.


THE ROSE

The rose is obsolete 
but each petal ends in 
an edge, the double facet 
cementing the grooved 
columns of air ― The edge 
cuts without cutting 
meets ― nothing― renews 
itself in metal or porcelain ―

whither? It ends ―

But if it ends 
the start is begun 
so that to engage roses 
becomes a geometry ―

Sharper, neater, more cutting 
figured in majolica ― 
the broken plate 
glazed with a rose

Somewhere the sense 
makes copper roses 
steel roses ―

The rose carried weight of love 
but love is at an end ― of roses
It is at the edge of the 
petal that love waits

Crisp, worked to defeat 
laboredness ― fragile 
plucked, moist, half-raised 
cold, precise, touching

What

The place between the petal's 
edge and the

From the petal's edge a line starts 
that being of steel 
infinitely fine, infinitely 
rigid penetrates 
the Milky Way 
without contact ― lifting 
from it ― neither hanging 
nor pushing ―

The fragility of the flower 
unbruised 
penetrates space.

WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.62-65.

cosmologia: uma paixão

“A cosmologia moderna nos tornou humildes. Somos feitos de prótons, nêutrons e elétrons, que juntos perfazem apenas 4,5% do Universo, e existimos apenas por causa da sutil conexão entre o muito pequeno e o muito grande. Eventos conduzidos por leis microscópicas da física permitiram que a matéria dominasse a antimatéria, geraram a granulosidade que se tornou a semente das galáxias, preencheram o espaço com as partículas da matéria escura que possibilitaram a infraestrutura gravitacional e garantiram que a matéria escura pudesse construir as galáxias antes que a energia escura se tornasse importante e a expansão começasse a acelerar. Ao mesmo tempo, a cosmologia, por sua natureza, é arrogante. A ideia de que podemos entender algo tão vasto em tempo e espaço como é o nosso universo, por melhor que possa parecer, é absurda. Essa estranha mistura de arrogância e humildade nos levou, no século passado, a avançar nosso entendimento do Universo presente e sua origem.”

Michel Turner, A origem do Universo, SCIAM, edição especial nº 41, p.13. 

mito

Um vento soprando da região do mito
balançou meu corpo.
Conheço-lhe o teor, o terror
que me inspira, e fui às lágrimas.
Um vento cuja travessia faz um
qualquer humano dizer:
― Conheço minha tragédia.

Soprou por dois dias ―
suficientes para silenciar
esperanças íntimas,
dispersão das palavras
nos arredores da vida.
Trouxe-me náusea.

Foi-se, posto vento,
mas o adjetivo é
mais que acessório ―
os fundamentos do edifício
não ficam incólumes à força do vento,
ao que ele leva ou deixa.
Levou palavras.
Deixou folhas secas
que estalam ao toque
e pedem cautela,
memória possível
do abalo da construção.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Shelter From The Storm

Herberto Helder

Ríspido, zoológico,
olho de constelação vendo o quê na rapina celeste?
― mas o cego buraco negro
é que devora constelações inteiras.

Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.500.

Herberto Helder: a paixão grega



Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, Lisboa: 2008. AQUI.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Solstício de Inverno


[a música... os ritmos da vida, do tempo]

W. H. Auden

UM LUGAR SADIO

São gente boa ― ninguém de nós sonharia jamais
Em examinar com lente um contrato deles, ou tampouco
Esconder-lhes, sob chave, nossas cartas ― são
Gentis e eficientes, outrossim ― tem-se o que se pede.
Mas o que está errado então de, vivendo no meio deles,
Surpreender-nos constantemente o número avultado
De casamentos felizes e pessoas infelizes?
Comparecem às palestras sobre Problemas de Pós-Guerra,
Pois importam-se, querem de fato ajudar; no entanto,
Quando atentam para a terra, nos seus matutinos,
Que haverá de entender-lhe, das loucuras, dos horrores,
Quem nunca sentiu, disso estamos convictos, repentino
Desejo de torturar um gato ou tirar a roupa
Em local público? Terão eles jamais, é de pensar-se,
Querido de verdade ver um unicórnio, mesmo que
Já estivesse morto? Provavelmente. Mas não o dirão,
Ignorando, por tácita anuência, a sede nossa
De vida eterna, essa enjaulada questão sob censura
Que ocasionalmente nos escapa em piqueniques ou
Reuniões estudantis, e que as histórias de sala de fumantes,
De modo assaz irônico, são as únicas ainda a veicular.

A HEALTHY SPOT

They're nice ― one would never dream of going over
Any contract of theirs with a magnifying
Glass, or of locking up one's letters ― also
Kind and efficient ― one gets what one asks for.
Just what is wrong, then, that, living among them,
One is constantly struck by the number of
Happy marriages and unhappy people?
They attend all the lectures on Post-War Problems,
For they do mind, they honestly want to help; yet,
As they notice the earth in their morning papers,
What sense do they make of its folly and horror
Who have never, one is convinced, felt a sudden
Desire to torture the cat or do a strip-tease
In a public place? Have they ever, one wonders,
Wanted so much to see a unicorn, even
A dead one? Probably. But they won't say so,
Ignoring by tacit consent our hunger
For eternal life, that caged rebuked question
Occasionally let out at clambakes or
College reunions, and which the smoking-room story
Alone, ironically enough, stands up for.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.104-105. 

W. H. Auden: poemas breves

Private faces in public places
Are wiser and nicer
Than public faces in private places

Rostos particulares em lugares públicos
É coisa mais gentil e mais sensata
Do que, em lugares particulares, rostos públicos.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

tudo o que o dia me dá é uma árvore magrela de final de inverno

 
 
  
 

 
 

A Hard Rain's A-Gonna Fall (Concert for Bangladesh)

desencontros

Sonhei com os labirintos da cidade, num caminhar confuso  cheio de passagens e conexões pouco familiares  que fazia da cidade trama do labirinto dos afetos e desencontros. Seria isso, se com palavras tão chãs, tão manhã de quinta-feira, fosse possível traduzir os labirintos desta noite. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

p a l a v r a s

Tem vez que dá vontade... de encontrar uma palavra que redima da complexidade da vida. Eu quero mais é aquele canto torto clarice lispector hora da estrela: “Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo.” ― Aliás, é com ele que se costuma viver ― “E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é silêncio. Este livro é uma pergunta.” [A hora da estrela, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p.16-17.]

W. H. Auden: Words

PALAVRAS

Nasce um mundo da frase pronunciada
Onde tudo acontece tal e qual;
Na palavra a palavra está empenhada:
À fala, não ao falante, dá-se o aval.

Clara seja a sintaxe, e mais: que nada
Mude ao tema seu fluxo natural
Nem troque os tempos por amor à toada
Pois há tristes versões de pastoral.

Para que um blábláblá interminável
Se os fatos são nossa melhor ficção?
Antes o verbo facilmente achável

Do que da rima a falsa encantação,
Qual dança de zagais mima o insondável
Cavaleiro a vagar na solidão.

WORDS

A sentence uttered makes a world appear
Where all things happen as it says they do;
We doubt the speaker, not the tongue we hear:
Words have no word for words that are not true.

Syntactically, though, it must be clear;
One cannot change the subject half-way through,
Nor alter tenses to appease the ear:
Arcadian tales are hard-luck stories too.

But should we want to gossip all the time,
Were fact not fiction for us at its best,
Or find a charm in syllables that rhyme,

Were not our fate by verbal chance expressed,
As rustics in a ring-dance pantomime
The Knight at some lone cross-roads of his quest?

W. H. Auden. Poemas. Trad. João Mourão Jr. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.164-165. 

Morton Feldman: Rothko Chapel

Mark Rothko, Hierarchical Birds1944

William Carlos Williams: Paterson, Livro I, fragmento

For the beginning is assuredly
the end ― since we know nothing, pure
and simples, beyond
our own complexities.

Pois o princípio indubitavelmente é
o fim ― já que de nada sabemos, puro e
simples, para além
de nossas próprias complexidades.

WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 262-263. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

por trás da poeira da via láctea

Fonte: ESO. Clique na imagem para ampliar.

Desolation Row: Grateful Dead

ímpar

rima
irmã
ímã
tudo
andando
de par
falsa paz
da lida.
eu, díspar?
aquém ―
não sei
se ando
ou parei.
o tempo
é
ímpar
e sonda
misterioso
o fundo
da vida.

W. H. Auden: poemas breves

Deprived of a mother to love him
Descartes divorced
Mind from Matter.

Sem mãe capaz de amá-lo
Descartes divorciou
A Mente da Matéria.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mário Faustino


POEMAS DO ANJO

I
Em rosa pura e lírio
o anjo está presente
quisera em rosa pura
ou lírio transformar-me

Por mais que sempre o cante
o anjo não me atende
ouve talvez porém
a voz do anjo é silêncio

Por que sempre buscá-lo
se o anjo tocado
perde as asas e chora?

O anjo não tem sombra
o anjo nunca é visto
apenas pressentido.

II
Suave rumor de passos em viagem
Vens como o vento acalentando as folhas
Adormecendo a rosa à tua passagem

Donde esta paz o sono o sonho a sombra?
Apenas leves dedos sobre os olhos
Somente a mão do anjo sobre o ombro.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.212.