Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de junho de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil


"Como pesquisa o estudante sem bolsa? Como ensina o professor sem condições de trabalho? Como se mantém a universidade sem recursos?" (Eliane Brum, aqui).

domingo, 21 de abril de 2019

exílio às avessas


Já faz um tempo que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado. Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições para tal, fiquem mandando selfies de sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não ser continuar.

domingo, 30 de dezembro de 2018

O que é um FDP?

Ainda vou escrever um artigo sobre o real significado do xingamento “filho da puta”. Não é a mãe que está sendo xingada, mas a própria pessoa. Prostitutas fazem sexo em troca de dinheiro: a função da procriação, prevista na Bíblia para a atividade sexual desde Adão e Eva, não está contemplada. Se prostitutas engravidam, trata-se de um acidente, de um desvio de função. Logo, se alguém é filho da puta, esse alguém é um equívoco, porque em princípio não era para ter sido concebido. É alguém que não deveria existir, considerando, como se colocou acima, a prostituição como uma atividade comercial. O fdp é um equívoco. É disso que se trata o xingamento.

possessão


O PT e o PSOL não vão na cerimônia de posse, ou na possessão, como tem sido chamada no twitter? Não, não vão. Não vão bater palma para maluco fascista dançar.

daqui a dois dias um fdp toma posse como presidente da república

Aguardando os memes: já é Bolsonaro na Austrália. E inferno no Brasil. Nos vemos em 64, ou talvez mais pra trás ainda, na República Velha.

fuck you


Que a nova direita fascista se esbalde na cerimônia de posse, dê vazão às suas taras, sua gula e luxúria. Depois vomite tudo e morra de overdose de poder. Mais aqui.

sábado, 27 de outubro de 2018

a candidatura que sequestrou o debate político

O momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável, uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos, muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca imaginei viver isso.

domingo, 23 de setembro de 2018

vocação para o passado

Invariavelmente a banda que anima o barzinho da esquina toca legião urbana e capital inicial. O país não sai dos anos 80, e tudo indica que quer retroceder mais. “Nas favelas, no senado / sujeira pra todo lado.” Como assim, nivelar as favelas ao senado? O país não sai desse ponto, de Jânio Quadros e sua vassourinha pra varrer a corrupção. O problema não é a corrupção (ninguém parece ter ouvido falar em transparência internacional), mas a distribuição de renda.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Museu Nacional

O incêndio do Museu Nacional é da ordem do inominável. Quem viu de longe enxergou um país em guerra consigo mesmo:

“acordo com a insuportável notícia da destruíção do magnífico museu nacional do brasil, que é da ordem do absurdo.
como pode ser descurada uma casa daquelas? uma casa que definia o brasil, defenia a história do brasil.
o museu nacional do brasil não pode arder. só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem. fico com a impressão de que o brasil está em guerra consigo mesmo.
meu abraço solidário a todos os que prestigiam o brasil e a sua cultura, e a todas as gerações futuras que se vêem impedidas de aceder ao melhor do seu próprio património e tanta da sua memória.
estou horrorizado.

Valter Hugo Mãe, escritor português, no facebook.

sábado, 1 de setembro de 2018

fim

2018 foi o ano em que perdi o que ainda havia de inocência em mim. Acabou. Grata a tod@s @s envolvid@s. Foi também o ano em que completei meio século de vida. Talvez sejam mesmo coisas excludentes.