mar à vista da ilha
(de um poema de Mário Faustino)
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
sábado, 4 de janeiro de 2020
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
mutação cultural
Postei em uma rede social: O brasileiro sofreu uma mutação
cultural com a eleição de JB, tornando-a possível. Ele se tornou outra coisa,
quer nos atos monstruosos quer nas relações cotidianas. Acabou "Central do
Brasil" e "Homenagem ao Malandro". Acho que nem Foucault dá
conta do que está acontecendo.
sábado, 26 de outubro de 2019
wild wild life
Precisei trocar o número do telefone celular, tamanho
o assédio de empresas de variada natureza. Essa noite sonhei que uma prima
muito querida recebia ligações de meu ex-número, em outro DDD, e que na
verdade era alguém de um presídio ligando, uma situação potencialmente perigosa. Fiquei perturbada, constrangida, não
sabia o que dizer ou fazer. Mas privacidade é algo que não temos mais. Mesmo trocando de
número, um “número desconhecido” acaba de me ligar, agora, sábado, 23h, em um momento wild wild life.
Nunca atendo a essas ligações, em que aparece “número desconhecido” no visor, jamais,
nem, via de regra, ligações de números não registrados. Coloquei meu
celular no silencioso, estado
do qual ele só sai para a função despertador ou em situações muito particulares.
Segundo relatos próximos, já estamos n’O Conto de Aia. Ainda não assisti à série, nem me animei a ler o
livro. Estou me refazendo de Joker,
com a certeza de quem ri por último ri melhor.
bike 1943
Venho fazendo há um tempinho pesquisas no Google sobre
LSD, inclusive comprar online ― nunca escondi meu interesse em
experimentar. Os correios abriram uma de minhas últimas entregas, um pacote de
cuecas para meu marido. Vamos bem, obrigado. E não adianta, se não for a bike,
não me interessa.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
domingo, 13 de outubro de 2019
Poema da Inútil Busca - João Carlos Teixeira Gomes
Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?
Porque tenho que esconder-me
pondo nos cantos da boca
um tal sorriso que, ao ver-me,
deplore essa glória oca?
Eu, que me chamo João,
aonde irei, se não fui chamado,
perdendo os passos no chão
sem que chegue a qualquer lado?
Que mulher de porte egrégio
há-de servir-me de porto
jungida ao meu sortilégio
com um olho aceso e outro morto?
Onde estará meu destino
de rei sem manto ou coroa
rendido ao seu desatino
de pedir à dor que não doa?
E o cão que outrora tive
de magoado focinho
acaso é morto ou ainda vive
perdido do meu carinho?
Onde os amigos fiéis
que morreram, de tão poucos?
Ao meu olhar de revés
onde vê-los, sãos ou loucos?
Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?
BRAGA, Rubem.
A poesia é necessária. Org. André
Seffrin. São Paulo: Global, 2015, p.146-147.
Breaking Bad - “El Camino”
Ontem
assisti “El Camino”, filme sobre a trajetória de Jesse Pinkman após escapar
milagrosamente do inferno em que a parceria com Mr. White o lançou. O filme é
apenas mediano, mas imperdível para os saudosos da série. Jesse está quase
irreconhecível, e isso o ajuda em sua fuga desesperada. Mas o que me comoveu
mesmo foi o final. Também eu queria poder ter a chance de começar do zero, em
algum lugar remoto, de preferência longe da civilização. Nada mais irônico que
um Alaska para quem se desgraçou junto a um ser chamado “Mr. White”.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
não adianta
Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual
mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não
adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para
escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer
reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro
para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a
cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou,
conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade,
não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois
conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo
falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da
azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o
governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser
cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente
intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte
intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se,
sem dúvida, de um projeto de destruição.
domingo, 22 de setembro de 2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
domingo, 8 de setembro de 2019
o que fazer?
As pessoas perguntam, se perguntam, o que fazer
diante do bolsonarismo. Chamar de fascismo não adianta. Diante de suas
demonstrações mais recentes, como esta, tem-se noção do grotesco a que
chegamos. Mas a pergunta continua, incômoda. O que fazer? Interlocutores
próximos e lúcidos dizem que ainda vai piorar muito antes de melhorar. Não
adianta se descabelar diante das falas criminosas do ser que ocupa atualmente a
presidência da república. O brasileiro no fundo é assim: não tolera mulheres
feias, gosta de posturas autoritárias, odeia com todas as suas forças o PT, é
racista, deseja o extermínio dos indígenas, não suporta o beijo gay, bateu
panelas para Dilma e agora bate palmas para o capitão. Então, de novo a
pergunta: o que fazer? À sombra do bolsonarismo explodem os microfascismos. O
bolsonarismo é o precedente de que muitos precisavam para cometer seus pequenos
ou grandes crimes, abusos de poder e de autoridade. Está posto e legitimado por
uma sociedade cujas instituições se encontram em frangalhos. Esse o objetivo,
acabar com todas as possibilidades da via republicana. O que fazer? Não ser
cúmplice já é alguma coisa. No mais, jamais perdoarei os que apoiaram o
impeachment de Dilma Roussef. Foi lá que tudo começou.
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
terça-feira, 20 de agosto de 2019
distopia
A cara traz no nome uma metáfora (messias) e uma metonímia
(bolso). Geral foi de metáfora. Sinto uma espécie de horror cotidiano, cujo
sintoma mais imediato é o álcool e a depressão. O Brasil acabou. Depois dessa distopia virá outra e outra e outra...
terça-feira, 13 de agosto de 2019
quarta-feira, 24 de julho de 2019
hacker?
O Brasil
entrou de vez no circuito mundial da realidade paralela. Com o Supremo, com tudo.
Terra arrasada é o que viramos. O nível de ficção é tal que faz do jornalismo
brasileiro hegemônico uma espécie de bolha. Zero credibilidade. Impossível qualquer prognóstico, a não ser a continuação da histeria coletiva, que nos levará só Deus sabe onde.
domingo, 7 de julho de 2019
Herberto Helder: a paixão grega
Li algures que os gregos antigos não escreviam
necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, Lisboa: 2008. (daqui)
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