Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Maiakóvski

A poesia
             — toda —
                            é uma viagem ao desconhecido.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Vladimir Maiakóvski: sei o pulso das palavras

Sei o pulso das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça

Maiakóvski: poemas. Trad. Boris Shnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2011, p.140. Tradução deste poema: Augusto de Campos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Vladimir Maiakóvski

ALGUM DIA VOCÊ PODERIA? 

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco 
e mostrei oblíquas num prato 
as maçãs do rosto do oceano. 

Nas escamas de um peixe de estanho 
li lábios novos chamando. 

E você? Poderia 
algum dia 
por seu turno tocar um noturno 
louco na flauta dos esgotos? 

1913

Maiakóvski: poemas. Trad. Boris Shnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2011, p.66. Tradução deste poema: Haroldo de Campos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Eduardo Alves da Costa

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
Extraído daqui.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Vladimir Maiakóvski

EU

Nas calçadas pisadas
                  de minha alma
       passadas de loucos estalam
calcâneos de frases ásperas
              Onde
                      forcas
                esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
           pescoços de torres
      oblíquas
   soluçando eu avanço por vias que se encruz-
                                                             ilham
à vista
de cruci-
fixos

       polícias

Poesia russa moderna. Trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.235.