Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 17 de dezembro de 2011

brisa

Depois de um dia de calor intenso e abafado, a madrugada permite o frescor de uma leve brisa. Não há mais qualquer dúvida de que é verão no Rio de Janeiro ― sei que é verão quando começo a sentir saudade das estações mais amenas. A culpa é toda de Hades, que raptou Perséfone. 

autumn breeze por Renae Schoeffel

"vida íntima"

Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa. [LISPECTOR, Clarice. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.7.]

I Shall Be Released: Marc Herremans

passando pelo dylanesco, deparei-me com esta bela peça publicitária, muito embora eu não tenha nada a ver com uísques e afins... aqui a versão original do comercial.

contas

O que se consegue saber de um sonho? Aquilo que consegue encontrar uma narrativa. Por isso escrevo sobre meus sonhos aqui, porque desejo entendê-los. Sei que sonhei muita coisa desconexa esta noite, envolvendo pessoas conhecidas ou não. Digamos que as situações, mais do que as pessoas, mereceriam o estatuto de familiares ou não. E do intrincado de situações uma se fixou mais concretamente na memória: eu delegava a alguém o poder de pagar minhas contas, repassando-lhe o dinheiro e os dados bancários. No entanto a operação não dava certo, e o atraso acabava multiplicando o valor da conta a ser paga. O que pensei depois foi qual seria a simbologia disso, por que eu estaria terceirizando a simples (ou não tão simples assim) ação de pagar as contas. Sou uma pessoa que mantém relações complicadas com essa coisa chamada dinheiro, embora paradoxalmente generosa. Digamos que há certos gastos que me incomodam. Mas não creio ter sonhado literalmente com dinheiro. Sonhei com a responsabilidade de assumir o ato de arcar com as minhas contas, aquelas que preciso pagar. Substituindo contas por escolhas (e pensando em ação e consequência), então eu estaria titubeando diante de escolhas que preciso fazer. Mais do que isso: fechar os olhos para contas que são minhas é uma forma de me esquivar delas, ainda que o custo material redobre. No entanto, enquanto meus olhos estão fechados dormindo, abrem-se para essa realidade desconfortável que é o dinheiro passando pelas mãos, por mais asséptica que tenha se tornado a movimentação do dinheiro na atualidade. O que acho estranho em tudo continua sendo delegar o ato de pagar uma conta a um terceiro num terminal de auto-atendimento. Uma coisa que posso fazer perfeitamente bem e sozinha. 

um adendo sobre o sábado

Enquanto pensava em nada, sem buscar dar rumo aos pensamentos, lembrei-me de como a rotina de supermercados, shoppings e lojas de eletrodomésticos, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, está transformada ― o sábado já não existia, e agora nem domingos ou feriados existem mais para quem trabalha nestes estabelecimentos ― existe apenas o dia de folga, um dia de folga. Com muito esforço, certas datas, como o Natal e o Ano Novo, são respeitas. Então meu post, de todo inocente, refletindo um bem-estar de poder estar em casa no sábado, acabou negligenciando muitos trabalhadores.

Emily Dickinson

A Voz que para mim é um Mar
É para outros chã ―
A Face que nasce a Manhã
Fana sob outro Olhar ―

Que diferença há em Substância
Se o que me é Soma
A outras Finanças só alcance a
Pobreza Extrema!


The Voice that stands for Floods to me
Is sterile borne to some ―
The Face that makes the Morning mean
Glows impotent on them ―

What difference in Substance lies
That what is Sum to me
By other Financiers be deemed
Exclusive Poverty!

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p. 86-87.

sábado

Finalmente hoje é sábado, e não uma esperança tênue em forma de ilusão rapidamente desfeita pela memória responsável e sempre ativa. Finalmente hoje é sábado, e isso não precisa ser um poema de Vinicius de Moraes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

AS FORMAS PRISIONEIRAS...

As formas prisioneiras por belas e dementes
esperam seu resgate. Nem veriam
a eclosão
essas duas crisálidas do sono
ocultas em pedras, telas, tramas,
insensíveis ao sol, à chuva fria,
nem júbilo
nem melancolia
sem que as desates.
Medram a medo
na ante-manhã, carentes de teu sonho,
princesas embalsamadas em sucessão estranha,
à espera.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.61.

não faz sentido

Sonhos às vezes podem ser dementes, a tal ponto que, pela manhã, concedem apenas um lampejo para recolherem-se às pressas naquela obscura região impenetrável ao dia. Mas o estranho é identificar, mesmo nas imagens mais incompreensíveis, pontos de intersecção incógnitos com o dia. Sonhar a violência, ao modo de uma tela dilacerada de Picasso, é uma forma de dar expressão ao grande mural da violência sobre o qual vão se projetando as sombras angustiadas da vida. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

mar

Imaginei o movimento do mar que abre este blog, ou antes entrevi na imagem o movimento do mar. Uma ilha é parada só por acidente: tudo em torno dela se move, de forma que ela assimila o oposto de si mesma.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

broken wave (animação)

broken wave from chris allen on vimeovale a pena conferir a descrição do vídeo.

o homem sem qualidades


O calhamaço chegou. Agora é arregaçar as mangas e encarar. Quando dei por mim, este livro constava como não disponível nas livrarias confiáveis que frequento, e na estante virtual os livreiros exorbitaram. Resolvi checar na Galileu, e não só encontrei o livro como o preço estava bem mais em conta. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

conselho

Os que dão conselhos uma hora terminam por precisar deles, pois tendem a enxergar o mundo pelo prisma dos passos guiados. 

sueno de ave

um olhar

 voo de um bufo-real, maior espécie de coruja do planeta

frisson

Um amigo uma vez definiu o significado de frisson ― é aquele som que o vizinho escolhe livremente para você ouvir. Pois hoje meu vizinho de frente foi tomado pela vibração musical: durante toda a tarde reverberou em seus domínios um som que invadiu os domínios que só por acidente posso chamar de meus, e não tanto pela ausência de uma proteção acústica, um imperceptível manto que mantivesse constante a atmosfera de silêncio e de ruídos. Junto com a música alta outra coisa entrou em minha casa, e a tornou menos minha: a liberdade dele de ouvir música no volume que bem entende fere diretamente a minha liberdade, num sentido bem pouco discernível a esta civilização tão acostumada a hábitos, costumes e modos invasivos. Para ele ouvir livremente sua música eu preciso escutar a música dele. 

Roberto Carlos e Caetano Veloso: uma amizade contada pela música

coração das trevas

Mergulhei no Congo junto com Marlow, mas o efeito do filme Apocalypse Now fez-se notar: acabei percebendo umas pequenas tintas de romantismo na trama. Ontem, ao comentar por alto a obra numa das turmas, um aluno disse, sem nunca ter ouvido falar do livro ou da sua adaptação cinematográfica: “É o apocalipse”. Reproduzo um trecho digno de nota, na narração de Marlow, que nunca conseguiu esquecer as últimas palavras de Kurtz, seu por assim dizer epitáfio, súmula de sua passagem pela Terra e dum imponderável qualquer que mira o extremo a que pode chegar a dominação do homem pelo homem, se é que entendi o que li: “O horror! O horror!”.

“O destino. O meu destino! Que coisa engraçada é a vida ― esse arranjo misterioso de lógica impiedosa visando algum desígnio fútil. O máximo que dela se pode esperar é um certo conhecimento de si mesmo ― que chega tarde demais ― uma safra de remorsos inextinguíveis. Já lutei contra a morte. É a luta mais desinteressante que vocês podem imaginar. Ocorre numa insubstancial área cinzenta em que não há nada sob os pés, nada à nossa volta, sem testemunhas, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera malsã de morno ceticismo, sem muita confiança no seu próprio direito e menos ainda no da adversária. Se é essa a forma da sabedoria suprema, a vida é um enigma ainda maior do que pensam alguns de nós. Estive a um fio de cabelo da última oportunidade de me pronunciar, e descobri humilhado que provavelmente não teria nada a dizer. E é por isso que afirmo que Kurtz foi um homem notável. Ele tinha alguma coisa a dizer. E disse. Depois que eu próprio tive um vislumbre desse limite extremo, entendo melhor o significado do seu olhar fixo que não conseguia ver a chama da vela mas abarcava todo o universo, capaz de penetrar nos corações que pulsam nas trevas. Ele resumiu ― ele julgou. ‘O horror!’ Foi um homem notável. Afinal, aquela foi a expressão de algum tipo de crença; havia franqueza, havia convicção, havia uma nota vibrante de revolta no seu sussurro, aquela face apavorante revelava uma verdade vislumbrada ― a estranha mescla de desejo e ódio. E não é dos meus próprios momentos extremos que me lembro melhor ― a visão de uma amorfa extensão acinzentada repleta de dor física e de um desdém indiferente pela evanescência de todas as coisas ― e nem mesmo dessa própria dor. Não. São os momentos extremos dele que tenho a impressão de ter vivido. É verdade que ele deu aquele passo derradeiro, foi além da borda, enquanto a mim foi permitido recuar com meus pés hesitantes. E talvez esteja nisso toda a diferença; talvez a sabedoria, e toda a verdade, e toda a sinceridade, só se apresentem comprimidos naquele instante inapreciável de tempo em que ultrapassamos o limiar do invisível. Talvez. Prefiro pensar que o meu resumo não teria sido uma palavra de desdém indiferente. Melhor foi o grito dele ― muito melhor. Foi uma afirmação, uma vitória moral conquistada ao preço de inúmeras derrotas, de terrores abomináveis, de abomináveis satisfações. Mas foi uma vitória. Eis por que permaneci leal a Kurtz até o fim, e mesmo além, quando muito depois tornei a ouvir, não a sua voz, mas o eco de sua magnífica eloqüência que me chegava emitido por uma alma dotada da pureza translúcida de um penhasco de cristal.

CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Trad. Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p.110-111. Em tempo: não conheci outras traduções, mas esta de Sérgio Flaksman está muito boa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

amar as palavras

Repousar o ser no sofá do esquecimento ― não pensar. Que seria de mim sem a escrita, sem a poesia de Álvaro de Campos?

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e refluxo da vida...

Escrever é ver as palavras alinhadas umas após outras, é perceber as letras nas palavras, é descobrir uma sintaxe própria. Saber que outra palavra, a palavra seguinte, pode ser também outra, outra porta, fechada ou aberta, não se sabe. Se fechada, há que se pensar nas palavras que vão desenhar a chave para abri-la. Enquanto isso, o mundo corre, com pressa, afoito, corre, para, corre mais, e as palavras, quando desejadas intensamente, escorrem dos dedos para o branco virtual do papel. Amar as palavras sobre todas as coisas, eis um mandamento. Amar as palavras é uma forma de amar o outro sem precisar se esconder. 

Fernando Pessoa: portal

MULTIPESSOA: LABIRINTO

Álvaro de Campos (na fronteira com Pessoa)

Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagons do meu destino ocioso.


PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.519.

can't stand the rain - the rescues

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