Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fernando Pessoa & Cia em São Paulo: Carlos Felipe Moisés

“Antes de partir para o Brasil, Fernando Pessoa insistiu com seu amigo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa, para que o acompanhasse. Este refugou: ‘São Paulo? A cidade que não pode parar? Melhor não. Desassossego por desassossego, prefiro o de cá’.” AQUI.

domingo, 31 de julho de 2011

as portas da ficção

No ensaio “Ficções do sujeito moderno”, Julio Ramos abre muitas portas, especialmente aquela a partir da qual a literatura latino-americana pode se enxergar. Se na modernidade tardia a própria realidade se converteu em um narcótico, na síntese que faz sobre o impacto da eterna novidade da mercadoria sobre o consumidor dependente e dela intoxicado, Julio Ramos abre, por assim dizer, as portas da ficção. Pergunta-se ele, sem qualquer pretensão de encontrar uma resposta imediata: “como se dá a passagem da escrita teórica para a ficcional? ‘Fumando haxixe’, me responderá alguém. Não necessariamente ― prossegue Ramos ―, porque é mais do que sabido que quem fuma haxixe raramente escreve, ou escreve pouco e dorme. O haxixe retira de circulação o sujeito; a escrita, por outro lado, o insere numa economia de dívidas e intercâmbios, uma economia simbólica, que ― mais que a ‘morte’ sob o peso da lei ― pode muito bem implicar uma ética do desejo.”

Julio Ramos alude à morte de Walter Benjamin após ter ingerido uma dose elevada de morfina, para não cair nas mãos do nazismo. Mas sua análise é bem mais ampla e sutil, focalizando, nos muitos labirintos trilhados pelas hipóteses que descortina, intoxicações que produziram o mito moderno do criador que se autodestrói para poder criar: “A arqueologia do mito do artista autodestrutivo nos leva para uma referência mais próxima da literatura latino-americana, ao clássico relato de Julio Cortázar sobre Charlie Parker, El perseguidor, em que o pudor de Cortázar o leva a substituir a heroína de Charlie pela marijuana de Johnny Carter. O anverso do mito aparece também em outros campos da literatura latino-americana.”

De Benjamin a Pessoa, do haxixe ao ópio, dos interditos às ficções pessoanas, Julio Ramos vai conduzindo o leitor a uma nova visida do projeto estético da modernidade: “Se para Benjamin o fármaco operava como o parapeito de uma (hiper) sensibilidade exacerbada e excessivamente exposta ao shock do estímulo moderno, e ― se como assinalava Adorno em sua sutil despedida do amigo morto ― o próprio parapeito estético apenas imitava a lei do fetichismo das mercadorias e sua máquina compulsiva de produção e consumo de novas sensações, em Pessoa encontramos uma opção mais criativa: a ficcionalização literária. A literatura desvencilha o eu da sobrecarga e do trauma hipersensorial, produzindo, mediante a novidade da ficção, um laboratório de mundos e sensações possíveis, sem o engate ― o hook ― do ego submetido à compulsão regressiva e narcisista do uso e consumo de drogas ou objetos.”

Que se escreva, pois. E se leia, engendrando laboratórios de possibilidades de fuga ao curto-circuito-cicuta do capitalismo.

RAMOS, Júlio. Ficções do sujeito moderno: um diálogo improvável entre Walter Benjamin e Fernando Pessoa. Trad. Rômulo Monte Alto. ___. SOUZA, Eneida Maria; MARQUES, Reinaldo (Orgs.). Modernidades alternativas na América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p.32-55.

domingo, 26 de junho de 2011

entre terça e sexta-feira: moedas perdidas de Borges (ou o princípio da realidade)

Entre as doutrinas de Tlön, nenhuma mereceu tanto escândalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam, com menos clareza que fervor, como quem antecipa um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebível, um heresiarca do primeiro século ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome escandaloso equivale em Tlön ao das aporias eleáticas. Deste “raciocínio especioso” há muitas versões, variam o número de moedas e o número de achados; eis aqui a mais comum:
“Na terça feira, X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta feira, Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira. Sexta-feira, Z descobre três moedas no caminho. Sexta-feira de manhã, X encontra duas moedas no corredor da sua casa.” O heresiarca queria deduzir desta história a realidade ― id est, a continuidade ― das nove moedas recuperadas. “É absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas não existiram entre terça e quinta-feira, três entre terça-feira e a tarde de sexta-feira, e duas entre terça-feira e a madrugada de sexta-feira. É lógico pensar que existiram ― ainda que de algum modo secreto, de compreensão vedada aos homens ― em todos os momentos destes três prazos.”
A linguagem de Tlön se opunha a formular esse paradoxo; os demais não entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se, no início, a negar a veracidade do episódio. Repetiram que era uma falácia verbal, baseada no emprego temerário de duas palavras neológicas, não autorizadas pelo uso e alheias a todo pensamento severo: os verbos encontrar e perder, que implicam uma petição de princípio, porque pressupõem a identidade das nove primeiras moedas e das últimas. Recordaram que todo substantivo (homem, moeda, quinta-feira, sexta-feira, chuva) somente tem valor metafórico.

BORGES, Jorge Luis. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Ficções. Trad. Carlos Nejar. São Paulo: Globo, 1998, Obras Completas I, p.482-483.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

literatura e ficção

“A literatura desvencilha o eu da sobrecarga e do trauma hiperssensorial, produzindo, mediante a novidade da ficção, um laboratório de mundos de sensações possíveis, sem o engate ―o hook  do ego submetido à compulsão regressiva e narcisista do uso ou consumo de drogas ou objetos.”

RAMOS, Júlio. Ficções do sujeito moderno: um diálogo improvável entre Walter Benjamin e Fernando Pessoa. Trad. Rômulo Monte Alto. In: SOUZA, Eneida Maria; MARQUES, Reinaldo (Orgs.). Modernidades alternativas na América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p.32-55. [Agradeço ao Luiz o envio desse texto tão instigante, de que só guardava a pálida lembrança da brilhante exposição de Julio Ramos]. 



“Alterando um conceito de Otto Ranke sobre o mito, podemos dizer que a literatura é o sonho acordado das civilizações.”

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. __. Vários escritos. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p.175.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Jorge Luis Borges: trecho final do conto "Os teólogos"

O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão na mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas I. São Paulo: Globo, 1998, p. 619. Tradução de O aleph: Flávio José Cardozo.