Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 4 de março de 2012

Mário Faustino

...
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.

Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade ― que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —

(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
...

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.110-111.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Mário Faustino (o sol ardente do rio de janeiro fevereiro a pedir as águas de março)

AGONISTES

Dormia um redentor no sol que ardia
O louro e a cera, dons hipotecados
Da carne postulada pelo dia;
Dormia um redentor nos incensados
Lençóis que a lua póstuma cobria
De mirra e açafrões embalsamados;
Dormia um redentor no navegante
Das mortalhas de escuma que roia
O verme de seus sonhos abafados;
E até no atol do sexo triunfante
Do mar e da salsugem da agonia
Dormia um redentor: e era bastante
Para acordá-lo o verso que bramia
No cérebro do atleta e lá morria.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.87.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

e. e. cummings em tradução de mário faustino

― Piedade para esse monstro atarefado, inumanidade

― não. O Progresso é doença confortável:
a vítima (morte e vida mantidas a uma distância conveniente)

brinca com a grandeza de sua pequeneza
― elétrons deificam uma lâmina de barbear
transformando-a em cadeiademontanha; lentes estendem
nãodesejo através de coleante ondequando
até que nãodesejo
se volta sobre si nãomesmo.
                                      Mundo de feito
não é mundo de nascido ― piedade para a pobre carne

e para as árvores, pobres estrelas e pedras, nunca para este
ótimo espécime de hipermágica

ultraonipotência. Nós médicos sabemos

que um doente está desenganado quando... escuta aqui:
tem um universo bom como o diabo aí do lado; vambora

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.289. Poema original e versão de Augusto de Campos AQUI.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Wallace Stevens

Os pensativos... Esses podem ver a águia pairando, a águia
Para quem os Alpes complicados não passam de um só ninho.

The pensive man... He sees that eagle float
For which the intricate Alps are a single nest.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.266-267.

Mário Faustino: o reverso do nada

...
Neste momento as sombras
fervilhando no bosque
procuram-se no bosque
como cobras, no bosque,
iguais a morcegos, sugam-se
penetram-se ― no bosque ―
como vermes.
Umas as outras acham-se
como quem acha o vácuo,
no bosque
o reverso do nada
deparam
para logo no bosque
perder: bosque e vazio.
Neste momento, os carros
ressoam sobre o concreto
por entre bosque e rio ―
neste momento o mar
trepida sobre o leito
por entre a praia, e praia ―
Neste momento a sombra
cobre mundo e vazio
neste momento o tempo
suga o vazio, o tempo
procura o tempo, encontra
o tempo, penetra o tempo e perde-se
sombra enrolada a sombra,
nó de víboras, sombra,
um só caos, busca e encontro
e perda e tudo: sombras.
...

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.118-119.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Marianne Moore: poesia: a place for the genuine

POESIA

Eu também não gosto lá muito dela: há coisas mais importantes
                         que toda essa charanga.
Lendo-a, todavia, com o mais perfeito desdém, a gente acaba
                         descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
     Mãos que podem apertar, olhos
     que se podem dilatar, cabelo capaz de eriçar-se
           se for preciso, tais coisas são importantes não porque uma


grandiloquente interpretação lhes possa ser aposta mas
                          porque são
        úteis. E se ficam tão derivativas que chegam a ser
                          ininteligíveis,
        o mesmo se poderá dizer de qualquer um de nós, que não
              admiramos aquilo que
              não podemos compreender: o morcego
                    pendurado de cabeça para baixo ou em busca de algo
                           que


comer, os elefantes empurrando, um cavalo selvagem se espojando,
                         incansável lobo debaixo de
      uma árvore, o crítico estacionário encolhendo a pele como um
                         cavalo picado por um mosquito, o fan de base-
      ball, o estatístico ―
             e nem está direito
                   discriminar contra “documentos comerciais e


livros escolares”; todos esses fenômenos são importantes. A gente
                          deve fazer uma distinção
        contudo: quando eles são arrastados à preeminência por semipoetas,
                          o resultado não é poesia,
        e nem ― até que os poetas dentre nós possam ser
              “literalistas da
              imaginação”, acima
                     do insolente e do trivial e possam apresentar a quem


 quiser inspecionar, jardins imaginários contendo sapos de verdade ―
                         é que ela será
       nossa. Enquanto isso, se você exigir por um lado
       a matéria-prima da poesia
             todo o seu primarismo e
             aquilo que é por outro lado
                    genuíno, então você se interessa por poesia.


POETRY

I, too, dislike it: there are things that ar important
                    beyond all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
                    discovers in
it after all, a place for the genuine.
      Hands that can grasp, eyes
      that can dilate, hair that can rise
             if it must, these things are important not because a


high-sounding interpretation can be put upon them but
                   because they are
     useful. When they become so derivative as to become
                   unintelligible,
     the same thing may be said for all of us, that we
            do not admire what
            we cannot understand: the bat
                  holding on upside down or in quest of something to


Eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tire
                   less wolf under
       a tree, the immovable critic twitching his skin like a
                   horse that fells a flea, the base ―
       ball fan, the statistician ―
             nor is it valid
                   to discriminate against “business documents and


“school-books”; all these phenomena are important. One
                     must make a distinction
        however: when dragged into prominence by half-poets,
                      the result is not poetry,
        nor till the poets among us can be
              “literalists of
              the imagination” ― above
                     insolence and triviality and can be present


for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
                   shall we have
      it. In the meantime, if you demand on the hand,
      the raw material of poetry in
             all its rawness and
             that which is on the other hand
                    genuine, then you are interested in poetry.


FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.284-287.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rainer Maria Rilke, Mário Faustino, Manuel Bandeira, a poesia

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não conhecemos a sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo ergue-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.


FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.262-263. O mesmo poema, na tradução de Manuel Bandeira:

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não sabemos como era a cabaça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandeceria mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.


BANDEIRA, Manuel. Alguns poemas traduzidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.36.

***
― Certo. Trata-se aqui, sobretudo, daquele aprofundamento provocado por toda obra de arte no ser que a considera, que a revive. A poesia trágica, sobretudo, mas também qualquer outra forma de poesia absoluta ― e, quanto mais intenso o poema, mais forte será, neste sentido, seu impacto sobre o ser que o recebe ― provocam na alma sobre que agem uma espécie de catarse, uma purgação, uma purificação. Aquele que verdadeiramente vive um poema, imediatamente, por mais que disso não se dê conta, muda de vida.
― Como quem vê o “torso arcaico de Apolo”?
― Precisamente: “Du must dein Leben aendern”, diz toda aquela obra-prima a quem, contemplando-a, por ela e nela morre e ressuscita. Toda grande poesia [...] relembra ao homem sua grandeza, seu alto destino. Recorda, igualmente, a quem vive, a seriedade, a importância da vida.”


FAUSTINO, Mário. Para que poesia? __. Poesia-experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976, p.29-30.

domingo, 2 de outubro de 2011

Bertold Brecht

À POSTERIDADE

I
Não há dúvida que vivo numa idade escura!
Uma palavra sem malícia é um absurdo. Uma fronte suave
Revela um coração duro. Aquele que está rindo
Ainda não escutou
As terríveis notícias.

Ah, que tempo é este
Em que falar de árvores é quase um crime
Por ser de certo modo silenciar sobre injustiças!
E aquele que tranquilamente atravessa a rua
Não está fora do alcance de seus amigos
Em perigo?

É verdade: ganho minha vida
Mas, palavra de honra, é só por acidente.
Nada que eu faço me dá direito a meu pão.
Por acaso fui poupado: se minha sorte me abandona
Estou perdido.

Há quem me diga: come e bebe. Dá-te por satisfeito
Mas como é que posso comer e beber
Se meu pão foi arrebatado aos famintos
E meu copo d'água pertence aos sedentos?
E mesmo assim como e bebo.

Gostaria de ser sábio.
Os livros antigos nos informam o que é sabedoria:
Evita os embates do mundo, vive tua curta vida
Sem temer ninguém
Sem recorrer à violência
Pagando o mal com o bem ―
Não a satisfação do desejo mas o alheamento
Passa por sabedoria.
Eu não posso fazer nada disso:
Não há dúvida que vivo numa idade escura!

II
Cheguei às cidades num tempo de desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens num tempo de levante
E com eles revoltei-me.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

Comi meu pão entre massacres.
A sombra do assassínio pairou sobre meu sono
E nas vezes que amei, amei com indiferença.
Considerei minha natureza com impaciência.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

No meu tempo as ruas conduziam à fama gulosa
O que eu dizia me atraiçoava ao carrasco.
Pouca coisa podia fazer. Porém sem mim
Os dominantes ter-se-iam sentido mais seguros.
Pelo menos era essa a minha esperança.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

Pequena era a força dos homens. O objetivo
Ficava muito longe.
Fácil de ver, embora para mim
Quase inatingível.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

III
Vós que emergireis deste dilúvio
Em que nos afundamos
Pensai ― 
Quando falardes em nossas fraquezas ― 
Também na idade escura
Que lhes deu origem.
Pois assim passamos, mudando de país como de sapatos
Na luta de classes, desesperando
Quando só havia injustiça e nenhuma resistência.

Pois sabíamos até bem demais
O próprio ódio da imundície
Faz a fronte ficar severa.
A própria raiva contra a injustiça
Faz a voz ficar áspera. Ai de nós, nós que 
Queríamos lançar as bases da bondade
Não pudemos nós mesmos ser bondosos

Mas vós, quando afinal acontecer
Que o homem possa ajudar seu próximo
Não nos julgueis
Com muita severidade...

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.304-309.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mário Faustino

LEGENDA

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia ―

E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.

FAUSTNO, Mário. Poesia completa e traduzida. Ed. Max Limonad, 1985, p.149-150.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mário Faustino


POEMAS DO ANJO

I
Em rosa pura e lírio
o anjo está presente
quisera em rosa pura
ou lírio transformar-me

Por mais que sempre o cante
o anjo não me atende
ouve talvez porém
a voz do anjo é silêncio

Por que sempre buscá-lo
se o anjo tocado
perde as asas e chora?

O anjo não tem sombra
o anjo nunca é visto
apenas pressentido.

II
Suave rumor de passos em viagem
Vens como o vento acalentando as folhas
Adormecendo a rosa à tua passagem

Donde esta paz o sono o sonho a sombra?
Apenas leves dedos sobre os olhos
Somente a mão do anjo sobre o ombro.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.212.

sábado, 16 de julho de 2011

Mário Faustino

CARPE DIEM

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar ― tão nobre.
Já nele a luz da lua ― a morte ― mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p.195.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

James Laughlin

NO COMPARISON

A parrot
A talking parrot
a parrot in a cage
“pretty Polly”.

A poet
no fooling a poet
a poet in the USA
“Hyla Shakespeare”.


SEM QUERER COMPARAR

Um papagaio
um papagaio falante
um papagaio numa gaiola
“Rosa formosa”.

Um poeta
falando sério um poeta
um poeta nos EE.UU.
“Que-que-há Shakespeare”.

FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p. 280-281. James Laughlin: The Poetry Foundation