Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 4 de setembro de 2010

Antonio Candido: Dialética da malandragem

Segue um trecho do conhecido ensaio de Antonio Candido, “Dialética da malandragem”, em que o autor dá formulação teórica, a partir da análise do romance Memórias de um sargento de milícias, ao modo seu tanto peculiar de organização da sociedade brasileira ― o trânsito entre a ordem e a desordem (embora Antonio Candido não explicite em absoluto onde vai buscar essas categorias). Esse trânsito, na análise que Sérgio Buarque de Holanda fez em Raízes do Brasil da constituição de um possível etos da sociedade brasileira, receberia o nome de cordialidade, com consequências de amplo alcance: a confusão entre o público e o privado; o avanço da esfera da família sobre o domínio público; o predomínio do elemento emocional (ou afetivo) sobre o racional nas relações públicas, profissionais; o paternalismo; a confusão entre afetividade e polidez etc. Certamente Antonio Candido não foi indiferente ao homem cordial quando deu formulação teórica ao que chamou de dialética da malandragem:

"Um dos maiores esforços das sociedades, através da sua organização e das ideologias que a justificam, é estabelecer a existência objetiva e o valor real de pares antitéticos, entre os quais é preciso escolher, e que significam lícito ou ilícito, verdadeiro ou falso, moral ou imoral, justo ou injusto, esquerda ou direita política e assim por diante. Quanto mais rígida a sociedade, mais definido cada termo e mais apertada a opção. Por isso mesmo desenvolvem-se paralelamente as acomodações de tipo casuístico, que fazem da hipocrisia um pilar da civilização. [...] Na formação histórica dos Estados Unidos houve desde cedo uma presença constritora da lei, religiosa e civil, que plasmou os grupos e os indivíduos, delimitando os comportamentos graças à força punitiva do castigo exterior e do sentimento interior de pecado. Daí uma sociedade moral, que encontra no romance expressões como A letra escarlate, de Nathanael Hawthorne, e dá lugar a dramas como o das feiticeiras de Salem. Esse endurecimento do grupo e do indivíduo confere a ambos grande força de identidade e resistência; mas desumaniza as relações com os outros, sobretudo os indivíduos de outros grupos, que não pertencem à mesma lei e, portanto, podem ser manipulados ao bel-prazer. A alienação torna-se ao mesmo tempo marca de reprovação e castigo do réprobo; o duro modelo bíblico do povo eleito, justificando a sua brutalidade com os não-eleitos, os outros, reaparece nessas comunidades de leitores quotidianos da Bíblia. Ordem e liberdade ― isto é, policiamentos internos e externos, direito de arbítrio e de ação violenta sobre o estranho ―, são formulações desse estado de coisas. No Brasil, nunca os grupos ou os indivíduos encontraram efetivamente tais formas; nunca tiveram a obsessão da ordem senão como princípio abstrato, nem da liberdade senão como capricho. As formas espontâneas da sociabilidade atuaram com maior desafogo e por isso abrandaram os choques entre a norma e a conduta, tornando menos dramáticos os conflitos de consciência. As duas situações diversas se ligam ao mecanismo das respectivas sociedades: uma que, sob alegação de enganadora fraternidade, visava a criar e manter um grupo idealmente monorracial e monorreligioso; outra que incorpora de fato o pluralismo racial e depois religioso à sua natureza mais íntima, a despeito de certas ficções ideológicas postularem inicialmente o contrário. Não querendo constituir um grupo homogêneo e, em consequência, não precisando defendê-lo asperamente, a sociedade brasileira se abriu com maior larguesa à penetraçao dos grupos dominados ou estranhos. E ganhou em flexibilidade o que perdeu em inteireza e coerência." 

CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: ___. O discurso e a cidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Duas Cidades; São Paulo: Ouro sobre Azul, 2004, p. 40-43.

tento falar do pai, acabo escorregando para o filho

Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não o fazer! 
Ler é maçada. 
Estudar é nada. 
O sol doira 
Sem literatura.
 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como tem tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quando há bruma, 
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 
Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

O mais do que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca... 

PESSOA, Fernando. Quando fui outro. (Org. Luiz Ruffato). Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p. 96-97.

"Todo dia é dia de viver" (muitas saudades de Minas e das pessoas bacanas que deixei por lá)

se eu seria personagem

Por caminhos bem curiosos, escolhi essas três palavrinhas — magra, alta, lida — para sumariamente me apresentar neste espaço, já que tenho tanta dificuldade de falar de mim, do que em mim se abriga. Há uma quebra de expectativa no paralelismo semântico, que os meus alunos traduzem mais ou menos assim: "professora, eu achei estranho, pensei que a senhora tivesse errado..." 

CITAÇÃO: “Note-se e medite-se. Para mim mesmo, sou anônimo; o mais fundo de meus pensamentos não entende minhas palavras: só sabemos de nós mesmos com muita confusão.” [ROSA, João Guimarães. "Se eu seria personagem." Tutaméia: terceiras estórias. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 199].

fé cega, faca amolada

[uma nota curiosa sobre a música: link aqui]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Emily Dickinson

Nem todo dia a ideia acha palavras
Uma só vez elas virão
Como esotéricas porções do vinho
Dado na comunhão
Que ao paladar tão natural parece
Tão ordinário é talvez
Que seu alto valor ninguém entende
Nem a sua escassez


Your thoughts don’t have words every day
They come a single time
Like signal esoteric sips
Of the communion Wine
Which while you taste so native seems
So easy so to be
You cannot comprehend its price
Nor its infrequency

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 256-257.

Emily Dickinson

Nenhuma vida é esférica
Salvo as pequenas ―
Essas ― se mostram de uma vez
E vão-se às pressas ―
As grandes ― crescem devagar
E caem aos poucos ―
Os verões das Hespérides
São longos.


Except the smaller size
No lives are round
These ― hurry to a sphere
And show and end ―
The larger ― slower grow
And later hang
The Summer of Hesperides
Are long.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 60-61.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

criaturas da noite

setembro

Fernando Pessoa (para o L A)

Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Org. Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.178.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

um poema de Walt Whitman

Cheio de vida, hoje, compacto, visível,
Eu, com quarenta anos de idade no ano oitenta e três
dos Estados,
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos,
A ti, que não nasceste, procuro.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto visível, quem intui os versos e me procura,
Pensando em como seria feliz se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza
de que não estou contigo.)

BORGES, Jorge Luis. “Nota sobre Walt Whitman”. Obras completas I [vários tradutores]. São Paulo: Globo, 1998, p. 271.

João Cabral de Melo Neto

A preguiça

Que relação o bicho preguiça
poderá ter com a metafísica?

No Recife, um doutor chamou-o
de psicopata catatônico,

o que fez de imediato a igreja
condenar o doutor (sua ovelha):

Deus não criaria um ser doente;
a doença é do pecadamente;

ela é do homem, que foi criado
para que existisse o pecado,

com seu horror e seu error,
como no diagnóstico do doutor.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 223.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cotidiano

Graciliano Ramos e os modernistas de 22


Trecho da entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:

NUNCA FUI MODERNISTA

― Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista.
― Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?
― E que impressão lhe ficou do Modernismo?
― Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.
― Não exclui ninguém dessa condenação?
― Já disse: “salvo raríssimas exceções”. Está visto que excluo Bandeira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sextilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do Modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?
Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue:
― Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E, querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira ― o que era um erro ― fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da coletânea a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albuquerque; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão idéia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque, se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.
― Quer dizer que não se considera modernista?
― Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 201-202.

Roda Viva (Chico Buarque de Holanda)

Emily Dickinson

O Silêncio amedronta.
Conforta-nos a Fala ―
Mas o Silêncio é Infinitude.
Silêncio não tem cara.


Silence is all we dread.
There’s Ransom in a Voice ―
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 148-149.

Luiz Ruffato

51. Política



não posso declinar o nome dele, entende?, ele é muito conhecido, vira e mexe tem retrato dele no jornal, a cara dele aparece na televisão, ele é do interior, montado no dinheiro, parece que tem negócio com café, ele manda eu pegar o carro na quinta-feira, o carro dele, o Pajero, não o oficial, da Assembléia, e eu vou numa casa da Moema, o endereço eu não dou, pode causar problema, mas é uma casa muito decente, não tem nem nome na fachada, quem passa por lá, do lado de fora, nem desconfia, aí eu ponho três mulheres pra dentro, das melhores, só universitária, eu sei porque eu é que pago, passo antes no banco, boto dinheiro vivo no bolso, o velho não é bobo, está com quase setenta, mas otário não é, uma vez levei até uma que era capa da revista Sexy, não sei se você conhece, o deputado olhou  e falou, essa menina freqüenta lá, vê se traz ela, eu levei, puta-que-pariu!, precisava ver que mulherão!, eu carrego elas prum hotel ali na Alameda Santos, o nome não digo, pode dar problema, o deputado é conhecido, deus me livre de rolo!, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e aí quem se fode é o bestão aqui, aí deixo elas no hotel, o gerente já sabe, suíte presidencial, e me mando pra Vila Madalena, tem uma bicha lá que agencia rapazes, sempre gente diferente, aí três caras entram no carro e levo eles pro hotel também, nisso estou ligando do celular pro disque-cocaína, um serviço que tem um motoboy que entrega o troço em mãos e discretamente, mas não é pro deputado não, que ele é contra as drogas, é mais caro, mas ele fala que dinheiro não é problema, e nessa altura já providenciei também o uísque dele, só coisa fina, escocês, porque o deputado fica puto com esse negócio de Jack Daniels, diz ele que isso é coisa de americano, e ele odeia os americanos, a cocaína é pras meninas e pros caras, mas o deputado não obriga ninguém não, cheira quem quer, o uísque eu compro de um chegado meu, que traz do Paraguai, sai bem mais em conta, só coisa de primeira, dezoito anos, rótulo azul, cheguei a arrumar maconha pra uma menina uma vez, no carro ela me pediu, falou que não cheirava nem gostava de beber, que preferia fumar maconha antes, pra dar coragem, porque não apreciava aqueles programas, fazia por necessidade, pra pagar a faculdade, bom, todas elas falam isso, quer dizer, todas não, tem algumas que gostam de sacanagem, eu conheci umas que é só olhar pra cara delas que a gente já percebe que o negócio delas é putaria, bom, aí eu deixo todo mundo lá na suíte presidencial, bem à vontade, verifico os cinzeiros, o deputado detesta cigarro, mas a maioria do povo hoje fuma, ele tolera, vejo se os copos estão limpos, as tolhas, o deputado não confia em ninguém, só em mim, aí ele chega, senta pelado numa poltrona, o copo de uísque na mão, aí eu saio, tranco a porta, e fico no hall do hotel conversando com o barman, que é meu amigo, e ele sempre especula que merda é aquela lá em cima e eu sempre digo que não sei e nem quero saber, porque não tenho nada com isso e a gente fica então conversando sobre política, que é um assunto que eu gosto e ele também.



RUFFATO, Luiz. eles eram muitos cavalos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 107-109.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

texto de Paulo Leminski acerca da adaptação de "Grande sertão: veredas" para a TV


A pois. E não foi, num vupt-vapt, que as altas histórias gerais da jagunçagem deram de ostentar suas prosápias e bizarrias no tal horário nobre da caixinha de surpresa, pro bem e pro mal, Rede Globo chamada?
Compadre mano velho, mire e veja as voltas que o mundo dá. Quem havera de dizer que toda essa aprazível gente cidadã ia botar gosto em saber das fabulanças daqueles tempos, quando o desmando e a contra-lei atropelavam os descampados do Urucuia, lá praquelas bandas brabas, onde tanto boi berra?
Só dizendo mesmo, a bem dizer, como proclamava meu compadre de Andrade, Oswald, dito e falado, lauto fazendeiro de S. Paulo: a massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico. A graça que ia nisso! Tinha muita graça meu compadre de Andrade. Mas o senhor, que é homem instruído, não faça pouco nem ponha reparo nas facécias do compadre Oswald. Era homem sabido de esperto, e quando parecia que estava mais se rindo, mais se estava falando sério. Tudo questão de tino, coisa que é que nem coragem, que tem, como tem gente que não vai ter nunca.
De modos que esse brazilzão todo, rol de gente de nunca acabar, está ficando sabendo, devagarinho, das andanças do jagunço Riobaldo Tatarana, ao lado de seu querido Reinaldo, vale dizer Diadorim. Só que tem um desconforme. A gente não sabia, de princípio, que Reinaldo era mulher, que nem a gente já fica sabendo nas televisivas fabulanças. E se bem me alembro, a memória tem dessas coisas, Reinaldo não era tão bonito como essa beleza de dona Bruna, Lombardi chamada, italiana tirana de tanta boniteza. Semelhava assim, no pisco do olho, uns jeitos de garoto nos seus quinze, dezessete anos, emborasmente mais judiado, que a jagunça vida nasceu pra dar formosura pra ninguém.
Nem ninguém jagunceia por picardia, jagunceia por precisão.
Tarcísio Meira? Meira, dos Meiras dos Buritis-Altos? Ah, não. A pois. Veja você, que é gente de prol e de escol, mire e veja. Não assemelha o Hermógenes. Não, Deus esteja. T’arrenego, e esconjuro! O cão com o cão, e a faca na mão! Aquilo não era criatura de Deus, quem viu, viu sabendo, e bem sabido. Era feio como a necessidade, ninguém nunca deitou os olhões num indivíduo mais puxado a sapo, que até cascavel, para quem gosta, até tem lá suas graças e desenhadas cores.
É, despotismo de calamidades! Teve o fim que mereceu, que o diabo escolhe quem quer, Deus só escolhe os seus.
Do Diabo? Diaa? Diadorim? Do diabo, não se fala. Que diabo hoje não faz favor na gente cidadã. Que diabo, que nada! o coisa-ruim, o que-nem-se-diga, o diantre, o dívida-externa, o Aids, o inflação, o Dielfim-Netto! Acreditar não digo que a gente acreditava. Difícil era achar quem duvidasse, o senhor releve a sutileza, que é cortesia de jagunço velho, mor de não estragar a pontaria.
Pontaria, pontaria mesmo, quem teve nem nunca deixou de ter, foi Riobaldo Tatarana Guimarães Rosa, esse o nome cabal e completo, homem de muitas letras, nenhum igual ninguém nunca nem viu. A pois, mano velho. Tino e siso era ali, jagunço de caudaloso cabedal, tiro certeiro no olho da onça jaguarete, pau e pau, pum e pum.
Quem dissera? Nem quem diria! Aquela parolagem toda, jaguncismo de lei, no tal nobre horário da Rede Globo chamada... Custoso é o mundo de entender, custosa a fala de Riobaldo Tatarana Guimarães Rosa. Aquilo é falar de cristão, cruz-credo, me persigno!? Nem nenhuma lei de sã gramática aquele jagunço reverenciava, e era tudo um redemunho de sustos, que gente como nós é minuciosa nas artes do sem-sobreaviso. Surpresa só. Vá que a gente cidadã nos seus nobres horários vá saber o que a gente só dizia no oco do toco, o senhor que é de lá me diga... e a caixa de surpresa, televisão chamada, não tem validade de força pra suflagrar no durante e no seguinte, os cafundós de filosofismo que Tatarana Guimarães Rosa enredava naqueles cipós lá dele... que esse Tatarana fosse o Homero desses brasis todos, Homero, o senhor sabe, o Adão dos cantadores...
Divago. Mas não disperso. Esse rural acabou. A pois. Mas que foi muita coragem desse tal sio Avancino, Avancini, o senhor me corrija e reja, de ponhar em vídeo e áudio tanto caudal primitivo, que isso foi, foi macheza, ninguém duvida, quem havera de? Eh, mão de obra!
Efetuar proezas é da vida, e o que for do homem, o bicho não come. Contar é que impecilha, a lembrança não pousa nunca no mesmo lugar, e o dito nunca fica como foi, nem o escrito, que só vem muito depois.
Consoantemente meu compadre falecido Tatarana, na glória esteja! Costumo e tenho bom uso de dizer, que com ele aprendi, “viver é muito perigoso”.
Vê lá se televisionar não hevera de ser!

Folha de S. Paulo, Ilustrada, 1º sem. 1996.

"It’s not dark yet, but it’s getting there" - Bob Dylan

Not Dark Yet, canção do CD Time Out Of Mind, é das coisas mais belas e tristes que o Bob Dylan já fez. Algo como um blues que se estivesse ouvindo ao fundo, ao longe. No vídeo, há uma deformação curiosa das imagens. Não escureceu ainda, mas está quase lá.

Shadows are falling and I’ve been here all day
It’s too hot to sleep, time is running away
Feel like my soul has turned into steel
I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
There’s not even room enough to be anywhere
It’s not dark yet, but it’s getting there

Well, my sense of humanity has gone down the drain
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain
She wrote me a letter and she wrote it so kind
She put down in writing what was in her mind
I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there

Well, I’ve been to London and I’ve been to gay Paree
I’ve followed the river and I got to the sea
I’ve been down on the bottom of a world full of lies
I ain’t looking for nothing in anyone’s eyes
Sometimes my burden seems more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there

I was born here and I’ll die here against my will
I know it looks like I’m moving, but I’m standing still
Every nerve in my body is so vacant and numb
I can’t even remember what it was I came here to get away from
Don’t even hear a murmur of a prayer
It’s not dark yet, but it’s getting there

Copyright © 1997 by Special Rider Music

domingo, 29 de agosto de 2010

Rubem Braga em homenagem a Sérgio Buarque de Holanda

O Dr. Progresso acendeu o cigarro na Lua

“Eu sou apenas o pai do Chico” ― dizia Sérgio Buarque de Holanda quando alguém pretendia entrevistá-lo. Modéstia do orador e ao mesmo tempo orgulho (justíssimo) do pai. Esse homem que morreu há dois anos ocupava um lugar todo especial em nossa cultura pela penetração e equilíbrio de seus ensaios de História e Psicologia Social. Mostrou-se grande logo em seu primeiro livro, Raízes do Brasil, tão famoso que faz esquecer os outros. Afonso Arinos protestava outro dia contra o relativo esquecimento em que caiu o livro Do Império à República; eu por mim tive um grande prazer há pouco tempo em ler Caminhos e fronteiras, que fui encontrar, com uma dedicatória carinhosa, mas todo fechado ainda, no caos da minha estante. Um livro de grande erudito, mas livro saboroso em que aprendemos muita coisa séria através de trivialidades antigas ― o monjolo, a rede, a tanajura, a canoa, o moquém, a cutia, o mel de pau...
Mas para nós, de Cachoeiro de Itapemirim, Sérgio Buarque de Holanda era também o Dr. Progresso.
Foi o caso que, em 1925, o jornalista e caricaturista Vieira da Cunha fundou em Cachoeiro um jornal diário chamado Progresso. Vejo, em uma publicação antiga, o clichê muito reduzido da primeira página do número 11, de 1º de março de 1925. Aí um correspondente do Rio manda opiniões de vários escritores sobre o jornal. São elogios de Graça Aranha, Prudente de Moraes Neto, Américo Facó, José Geraldo Vieira, Elói Pontes, Olegário Mariano e, entre outros, Sérgio Buarque de Holanda. Pouco depois, Vieira da Cunha convenceu Sérgio a ir para Cachoeiro dirigir o jornal. Ele partiu. Manuel Bandeira saudou essa “aventura” dizendo que ele era o Coronel Fawcet de Cachoeiro de Itapemirim, lembrando um explorador inglês que se perdeu na Amazônia...
Não sei quanto tempo Sérgio ficou lá em Cachoeiro. Lembro-me que logo pegou o apelido de Dr. Progresso, e que usava óculos. Pouco antes, segundo atestam Afonso Arinos e Manuel Bandeira, ele usava monóculo. Escreve Manuel Bandeira em uma crônica recolhida no livro Flauta de papel:
Nunca me esqueci de sua figura certo dia em pleno Largo da Carioca, com um livro debaixo do braço e no olho direito o monóculo que o obrigava a um ar de seriedade. Naquele tempo não fazia senão ler. Estava sempre com o nariz metido num livro ou numa revista – nos bondes, nos cafés, nas livrarias. Tanta eterna leitura me fazia recear que Sérgio soçobrasse num cerebralismo...
E mais adiante:
Lia todas as novidades da literatura francesa, inglesa, alemã, italiana, espanhola. Sérgio não soçobrou: curou-se do cerebralismo caindo na farra. Dispersou a biblioteca, como se já a trouxesse de cor (e trazia mesmo, que memória a dele!) e acabou emigrando para Cachoeiro de Itapemirim.
Escreve, a seguir, Bandeira, que quem poderia contar as andanças de Sérgio em Cachoeiro era... o Rubem Braga, que naquele tempo era ainda menino, e suspeito que fez parte das badernas que acompanhavam de assuada os passos mal seguros do Dr. Progresso.
Por um triz que Sérgio se perde, e foi quando pretendeu ser professor no ginásio de Vitória. O Estado do Espírito Santo até hoje não sabe a oportunidade que botou fora quando o seu governador de então voltou atrás do ato que nomeava professor de História Universal e História do Brasil o futuro autor de Raízes do Brasil. Benditos porres de Cachoeiro de Itapemirim! Eles nos valeram a devolução, em perfeito estado, de Sérgio, enfim descerebralizado, pronto para a aventura na Alemanha, de volta da qual já era a figura sem par a que me referi no começo dessas linhas. Sérgio já não lia mais nos cafés, desinteressara-se bastante da poesia e da ficção, apaixonara-se pelos estudos de História e Sociologia, escrevia Raízes do Brasil e Monções ― escreveu Bandeira.
Sim, eu me lembro do Dr. Progresso; seus porres afinal não eram tão grandes, e ele nunca ofendia ninguém. Costumava tomar umas e outras com o saudoso Cel. Ricardo Gonçalves e outros bons homens da terra, que formavam o Clube do Alcatrão, assim chamado porque um deles era o representante local do Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, que todos bebiam de brincadeira. Sérgio foi promotor adjunto. Logo que saiu de Cachoeiro ele embarcou para a Alemanha, de onde mandava artigos e reportagens para O Jornal. O pessoal de Cachoeiro via aquele nome no jornal: será o Dr. Progresso? Que o quê!, dizia alguém. Então o Chateaubriand ia mandar um bêbado daquele para a Europa? Mas o Motinha do nosso Correio do Sul dizia que sim; ficassem sabendo que Sérgio era um homem muito culto, muito preparado, tanto assim que trocava língua com os alemães da fábrica de cimento. “Vocês acham que ele não vale nada é porque ele não ia mostrar o que sabia, a verdade é esta, não tinha com quem conversar, nós aqui somos todos umas bestas!”, argumentava o bom Motinha.
Lembro-me sobretudo de uma noite de verão de lua cheia, na saída de um baile ― não em Cachoeiro, mas na Vila de Itapemirim. Ele dizia que ia acender o cigarro na Lua. E saiu, cambaleando entre as palmeiras. Vai ver que acendeu.

Janeiro, 1982.


Rubem Braga. Recado de primavera. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 154-157. Na realidade, o jornal que Sérgio Buarque dirigiu em Cachoeiro se intitulava O Progresso.

"Nenhum, Nenhuma" - Guimarães Rosa

“As nuvens são para não serem vistas. Mesmo um menino sabe, às vezes, desconfiar do estreito caminhozinho por onde a gente tem de ir ― beirando entre a paz e a angústia.” 

João Guimarães Rosa. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p.49.

escrita

Entre as substituições e mudanças inevitáveis que se fará ao longo da vida, é providencial trocar o teclado ― os dedos também viciam. Outra pedida é manter o “eu” ocupado, e de vez em quando sair com ele para passear. Com isso a casa dá uma arejada.

Emily Dickinson

Não nos atraem os Enigmas
Que pouco nos escondem ―
Nenhuma coisa está mais morta
Que a surpresa de Ontem ―


The Riddle we can guess
We speedily despise ―
Not anything is stale so long
As Yesterday’s surprise ―
                              
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 64-65.

um ano de blog!

Há exato um ano criei este espaço, sem saber de nada, exceto que era uma possibilidade. Hoje, quando o blog faz aniversário, gostaria de registrar que essa experiência me trouxe muita coisa bacana ― consciência da linguagem, pessoas... e com ambas um refinamento do olhar ― certamente proporcionado pela interlocução. Então, meu obrigada aos que têm paciência de ler as linhas que aqui posto, minhas ou emprestadas. Em outras palavras, de empréstimo ― na falta do açúcar, não do afeto ― numa tradução maravilhosa que o Caetano Veloso fez, creio eu, de certas referências literárias, como a Clarice e o Drummond, nesta canção que é das minhas preferidas ― meu coração vagabundo / quer guardar o mundo / em mim. Sempre quis. Mundo, mundo, vasto mundo.