Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

mutação cultural

Postei em uma rede social: O brasileiro sofreu uma mutação cultural com a eleição de JB, tornando-a possível. Ele se tornou outra coisa, quer nos atos monstruosos quer nas relações cotidianas. Acabou "Central do Brasil" e "Homenagem ao Malandro". Acho que nem Foucault dá conta do que está acontecendo.

dias de nada

sábado, 26 de outubro de 2019

wild wild life

Precisei trocar o número do telefone celular, tamanho o assédio de empresas de variada natureza. Essa noite sonhei que uma prima muito querida recebia ligações de meu ex-número, em outro DDD, e que na verdade era alguém de um presídio ligando, uma situação potencialmente perigosa. Fiquei perturbada, constrangida, não sabia o que dizer ou fazer. Mas privacidade é algo que não temos mais. Mesmo trocando de número, um “número desconhecido” acaba de me ligar, agora, sábado, 23h, em um momento wild wild life. Nunca atendo a essas ligações, em que aparece “número desconhecido” no visor, jamais, nem, via de regra, ligações de números não registrados. Coloquei meu celular no silencioso, estado do qual ele só sai para a função despertador ou em situações muito particulares. Segundo relatos próximos, já estamos n’O Conto de Aia. Ainda não assisti à série, nem me animei a ler o livro. Estou me refazendo de Joker, com a certeza de quem ri por último ri melhor.

bike 1943

Venho fazendo há um tempinho pesquisas no Google sobre LSD, inclusive comprar online ― nunca escondi meu interesse em experimentar. Os correios abriram uma de minhas últimas entregas, um pacote de cuecas para meu marido. Vamos bem, obrigado. E não adianta, se não for a bike, não me interessa.

domingo, 13 de outubro de 2019

Poema da Inútil Busca - João Carlos Teixeira Gomes

Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?

Porque tenho que esconder-me
pondo nos cantos da boca
um tal sorriso que, ao ver-me,
deplore essa glória oca?

Eu, que me chamo João,
aonde irei, se não fui chamado,
perdendo os passos no chão
sem que chegue a qualquer lado?

Que mulher de porte egrégio
há-de servir-me de porto
jungida ao meu sortilégio
com um olho aceso e outro morto?

Onde estará meu destino
de rei sem manto ou coroa
rendido ao seu desatino
de pedir à dor que não doa?

E o cão que outrora tive
de magoado focinho
acaso é morto ou ainda vive
perdido do meu carinho?

Onde os amigos fiéis
que morreram, de tão poucos?
Ao meu olhar de revés
onde vê-los, sãos ou loucos?

Onde estou, que já me esqueço,
mais evadido que achado,
por sob a máscara de gesso
com que oculto o meu fado?


BRAGA, Rubem. A poesia é necessária. Org. André Seffrin. São Paulo: Global, 2015, p.146-147.

Breaking Bad - “El Camino”

Ontem assisti “El Camino”, filme sobre a trajetória de Jesse Pinkman após escapar milagrosamente do inferno em que a parceria com Mr. White o lançou. O filme é apenas mediano, mas imperdível para os saudosos da série. Jesse está quase irreconhecível, e isso o ajuda em sua fuga desesperada. Mas o que me comoveu mesmo foi o final. Também eu queria poder ter a chance de começar do zero, em algum lugar remoto, de preferência longe da civilização. Nada mais irônico que um Alaska para quem se desgraçou junto a um ser chamado “Mr. White”. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

não adianta

Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou, conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade, não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se, sem dúvida, de um projeto de destruição.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

lido por aí

"O Brasil nunca foi um país sério, mas não precisava ter virado um país triste."

domingo, 8 de setembro de 2019

o que fazer?

As pessoas perguntam, se perguntam, o que fazer diante do bolsonarismo. Chamar de fascismo não adianta. Diante de suas demonstrações mais recentes, como esta, tem-se noção do grotesco a que chegamos. Mas a pergunta continua, incômoda. O que fazer? Interlocutores próximos e lúcidos dizem que ainda vai piorar muito antes de melhorar. Não adianta se descabelar diante das falas criminosas do ser que ocupa atualmente a presidência da república. O brasileiro no fundo é assim: não tolera mulheres feias, gosta de posturas autoritárias, odeia com todas as suas forças o PT, é racista, deseja o extermínio dos indígenas, não suporta o beijo gay, bateu panelas para Dilma e agora bate palmas para o capitão. Então, de novo a pergunta: o que fazer? À sombra do bolsonarismo explodem os microfascismos. O bolsonarismo é o precedente de que muitos precisavam para cometer seus pequenos ou grandes crimes, abusos de poder e de autoridade. Está posto e legitimado por uma sociedade cujas instituições se encontram em frangalhos. Esse o objetivo, acabar com todas as possibilidades da via republicana. O que fazer? Não ser cúmplice já é alguma coisa. No mais, jamais perdoarei os que apoiaram o impeachment de Dilma Roussef. Foi lá que tudo começou.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

distopia

A cara traz no nome uma metáfora (messias) e uma metonímia (bolso). Geral foi de metáfora. Sinto uma espécie de horror cotidiano, cujo sintoma mais imediato é o álcool e a depressão. O Brasil acabou. Depois dessa distopia virá outra e outra e outra...

quarta-feira, 24 de julho de 2019

hacker?


O Brasil entrou de vez no circuito mundial da realidade paralela. Com o Supremo, com tudo. Terra arrasada é o que viramos. O nível de ficção é tal que faz do jornalismo brasileiro hegemônico uma espécie de bolha. Zero credibilidade. Impossível qualquer prognóstico, a não ser a continuação da histeria coletiva, que nos levará só Deus sabe onde.

domingo, 7 de julho de 2019

Drummond: "A grande dor das cousas que passaram" - Farewell


Herberto Helder: a paixão grega

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega

Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, Lisboa: 2008. (daqui)

sábado, 6 de julho de 2019

de vez

Professor de português
perde a cabeça de vez.
Nada há a fazer
a não ser um poema
sobre frutos ainda
de vez.

Ana Cristina César: "Psicografia"

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

CÉSAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.193.

sábado, 15 de junho de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil


"Como pesquisa o estudante sem bolsa? Como ensina o professor sem condições de trabalho? Como se mantém a universidade sem recursos?" (Eliane Brum, aqui).

domingo, 21 de abril de 2019

exílio às avessas


Já faz um tempo que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado. Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições para tal, fiquem mandando selfies de sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não ser continuar.