Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ciclos


Oceano from daac.mx on Vimeo.

2010-2011

Foi me perguntando ontem, com alguma delicadeza, e por pessoa de minha estima, se eu já estava me desfazendo de 2010, quer dizer, se já tinha entrado no clima de renovação do ano novo. Se a letra não foi exatamente esta, o espírito, por alto, queria dizer algo como expurgar. Certamente, e não só na véspera, mas ao longo de todo o ano houve um exercício constante de deixar para trás o que era para ser deixado, e mesmo sutis esquecimentos, lapsos, atos falhos e objetos perdidos concorreram para isso. Não é possível se descolar (e deslocar) de certas experiências sem atravessar sua parte material e concreta. E se de algumas situações eu me coloquei na distância da ordem de anos-luz é porque essa era a distância de antes, simplesmente. Eu apenas não estava enxergando. Como continuarei não enxergando outras tantas coisas, até que a neblina, ou nebulosa, se desfaça, para se refazer em outra constelação. Então não há um ponto culminante, apesar do ritual de passagem. Há pequenas passagens, e alguns saltos de qualidade. Essas coisas não funcionam por graus, ou degraus de uma escadaria. Elas têm algo da confusão que encontramos nas criações de Escher, cuja mostra, finalmente, deixará o CCBB Brasília para vir para o Rio. Assim se espera.

Relativity, litografia, 1953
[imagem obtida no site oficial de Escher]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

I'm Not There: original soundtrack

Meu presente de Natal, que eu queria efetivamente ganhar, chegou pelo correio, o CD duplo I'm Not There, com as canções que integram a trilha sonora do filme homônimo. Quem enviou foi o Oliver Fabrício, da Finlândia, num envelope cheio de coisas a explorar. A maior pérola da coletânea, para os fãs, é a última canção do disco 2, justamente a canção título, no registro de Bob Dylan e The Band, de 1967, uma raridade encontrável, até onde apurei, somente neste CD, uma das canções mais bonitas de Bob Dylan. A versão do Sonic Youth é a segunda canção do disco 1 (aqui). Há uma bela interpretação de The Times They Are A Changin', por Mason Jennings, integrando a coletânea, entre outros momentos inspirados. Richard Gere atua como Dylan, a faceta mais fraca e comercial da empreitada de Todd Haynes, cujo ponto alto é Cate Blanchett, na foto da capa do CD.

It's All Over Now, Baby Blue (cover Bob Dylan)

Le Couperet (Costa-Gavras, 2005)


O Corte (segue um bom comentário aqui) constitui não só uma metáfora extrema do capitalismo (para sobreviver, eliminamos nossos concorrentes), como um forma de lidar com isso pela via do humor, já que não se escapa aos imperativos da sobrevivência. A questão em O Corte, mais que o desemprego, é a ameaça constante que paira sobre os indivíduos, empregados ou não. Levado a uma situação extrema, o protagonista recorre a métodos extremos, não sem passar por abalos psíquicos e emocionais. Remetendo a um serial killer cujos fins seriam nobres, o filme mantém um ritmo nervoso que é o próprio ritmo frio e alucinado com que o protagonista arquiteta e executa seu plano de recolocação no mercado de trabalho. Nesse sentido, o cotejo com o recente e em formato Oscar Up In The Air ― divulgado no Brasil como comédia romântica, já pelo título, numa estratégia tipicamente comercial (trailer aqui), com o belo e talentoso George Clooney no papel de protagonista que faz o trabalho sujo pelas empresas, com as mãos sempre limpas, de comunicar às pessoas a demissão delas  não deixa de provocar um travo de ironia, haja vista que neste caso a tentativa de humor restringe-se, no conjunto, ao drama pessoal do protagonista, herói às avessas de um mundo ingrato, triste e melancólico, e que fala de si próprio aludindo, na sua dificuldade de vínculos com o mundo, ao gnomo viajante do filme francês (uma das sequências mais curiosas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), mas na verdade seu reverso, pois não traz nenhuma boa-nova. Só mesmo no mundo fabuloso de Amélie Poulain gnomos viajam, fazendo acreditar que sonhos ainda são possíveis no pesadelo em que o capitalismo converteu a vida das pessoas, com poucas possibilidades de fuga ou evasão.

Emily Dickinson: Memória


Para limpar o Armário antigo ―
De “Memória” chamado ―
Toma da Escova reverente ―
E em silêncio o farás.

Esse labor trará surpresas ―
Também a Identidade
De outros Interlocutores
Probabilizará ―

Se apossa o Pó desse Domínio
Excelso ― a acumular-se ―
Ele não pode ser contido
Mas pode te calar ―


That sacred Closet when you sweep ―
Entitled “Memory” ―
Selected a reverential Broom ―
And do it silently.

‘Twill be a Labor de surprise ―
Besides Identity
Of other Interlocutors
A probability ―

August the Dust of that Domain ―
Unchallenged ― let it lie ―
You cannot supersede itself
But it can silence you ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.144-145.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

após o cinema: vista do mar

Como estava na orla de Botafogo, resolvi tomar o ônibus por lá mesmo, uma linha que faz um percurso interessante, porém mais longo, vindo pela orla. Então passou-se por Copacabana, o circo do réveillon sendo armado, praia lotada, aspecto de confusão e sensação de estar na parte do Rio de Janeiro com a qual a prefeitura efetivamente se ocupa: para inglês, francês, europeu, americano, argentino e a rede globo ver. Depois Ipanema, também bastante gente. Voltas e voltas, o Elevado do Joá, finalmente o ônibus sai na Barra, pegando a orla novamente. Aí sim: mar verde-azulado, ou azul-esverdeado, a perder de vista, lindo, aspecto um tanto selvagem, fim de tarde, pouca gente, e muito mar. O melhor mar do Rio de Janeiro não está no cartão postal. 

[imagem obtida aqui]

cinema

Ou eu fiquei chata e exigente demais ou me libertei de uma série de clichês. Vou na segunda hipótese, até porque me é mais simpática. Como estava a perambular pela zona sul e precisava de "distração", resolvi esticar até o Arteplex para conferir Tetro, o novo filme de Coppola, a que aludi em post anterior. Pois bem. Talvez até há um ano atrás, menos quem sabe, Tetro me deixaria comovida com a história tocante de um drama familiar que leva um de seus membros a uma espécie de semi-loucura. Pois o que consegui no máximo foi me entediar com a narrativa. Um dramalhão Hollywood demais, "poderoso chefão" repaginado, apenas que não se trata de máfia, mas de exibicionismo com toques de édipo e citações literárias. Um drama familiar italiano ambientado na Argentina e falado em inglês soa a pastiche. As atuações não convencem, embora a ideia em si seja interessante: a instituição família como um fermento perigoso para a loucura, que encontra uma saída na arte, na criação. Mas o que é feito dessa loucura o tempo todo senão um esforço de enquadramento, de adaptação? A criação não pode mesmo encontrar espaço aí, e teria razão o filho em seguir fugindo do "poderoso chefão". 


P.S. O custo da entrada de cinema, por si, obriga a uma seleção maior do que se vai assistir nas salas de exibição. Quase todo mundo que conheço faz download e assiste no computador. Ainda não atingi esse estágio, talvez porque faça já muitas coisas no computador e goste de assistir filmes num "enquadramento" adequado. Mas para filmes raros e fora de circulação não tem outro jeito.

Across The Universe - Craig Lyons (Beatles)

[também no openfilm, em excelente qualidade, e no vimeo]

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

o humor de Fernando Pessoa

“Se eu fosse mulher ― na mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques ou coisas parecidas ― cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem ― e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...”

Não pude deixar de me divertir com o trecho, a linha nítida e segura (herança oitocentista) traçada entre homens e mulheres... Parêntese: ocorre-me inclusive, agora que escrevo, uma cena do filme I’m Not There, em que Bob Dylan fala abertamente de uma suposta incapacidade das mulheres para a poesia, porque, num pressuposto até coerente, homens e mulheres experimentam dores diferentes (cito de memória). Penso também em Almodóvar e seu ótimo Mulheres à beira de um ataque de nervos. Parêntese fechado. O fato é que, lendo o trecho no ônibus, enquanto aguentava o tranco de mais um dia daqueles sem ter um ataque, me divertia com a ideia de poder tê-lo. Sou mulher, enfrento todos os problemas da vida prática que um homem costuma enfrentar (finalmente a igualdade entre os sexos foi alcançada) e não sou histérica, até onde eu sei, evidentemente. Serei homem então? Não, de forma alguma, minha persona é toda de mulher. Como se explica então que eu ainda não tenha alarmado a vizinhança? Para onde estão sendo canalizados meus ataques? Para os sonhos? Ou a escrita foi a forma que encontrei de não ter ataques ou coisas parecidas

O trecho pertence a uma carta em que Fernando Pessoa explica a Adolfo Casais Monteiro a gênese dos heterônimos. Um detalhe é a generosidade de Fernando Pessoa na interlocução, a extrema elegância, delicadeza e atenção com que ele responde as perguntas e ponderações a ele dirigidas por Casais Monteiro.

PESSOA, Fernando. O banqueiro anarquista e outras prosas. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2008, p.141-151. Uma observação: há problemas tipográficos nesta edição, que se diz “revista”, imperdoáveis. O crescimento vertiginoso do mercado editorial no Brasil segue na proporção inversa da qualidade e do cuidado nas publicações.

se um viajante numa noite de inverno...

Sete motivos para não ir ao cinema e um para arriscar:

“Jacques é dono de um bar em Nova Iorque que serve de lar para um grupo de alcoólatras profissionais. Ele está determinado a fazer do álcool e do cigarro a causa de sua morte quando conhece Lucas, um jovem que já desistiu da vida. Determinado a manter seu legado vivo, Jacques...”

“O professor universitário John Brennan (Russell Crowe) levava uma vida perfeita até sua esposa, Lara (Elizabeth Banks), ser presa acusada de um crime brutal, que ela alega não ter cometido. Após três anos de vários recursos negados pela justiça, John...”

“Sosa (Ricardo Darín) é um ‘urubu’, um advogado especializado em acidentes rodoviários. Todos os dias ele vai aos locais de acidente, aos setores de emergência dos hospitais e às delegacias procurando clientes. Seu trabalho é lidar com as testemunhas, policiais, juízes e companhias de seguro. Mas...”

“O filme conta a história de Scott Pilgrim (Cera), um jovem que conhece a mulher do seus sonhos (Winstead), mas que só poderá conquistar seu coração se lutar contra seus sete maléficos ex-namorados. Cada um deles...”

“Alice, 40 anos, é uma típica mulher dos tempos atuais. Casada, um filho pequeno, trabalha como assessora de uma grande empresa. Seu ritmo alucinante de trabalho rouba quase todo o seu tempo e praticamente toda a sua libido. O resultado não podia ser outro...”

“Jake Sullivan é dono de uma pousada na Califórnia. Ana trabalha em uma loja de departamentos no Brasil, namora um playboy praiano e perde seu pai, que a deixa de herança uma dívida de 500 mil reais. Desesperada...”

“Jack (George Clooney) é um assassino profissional com um histórico impecável, mas quando um trabalho na Suécia acaba mal, ele promete que sua próxima missão será a última. Então Jack...”

“O ingênuo Bennie (Alden Ehreinreich), de 17 anos, chega a Buenos Aires devido a um problema no navio onde trabalha. Ele aproveita o ocorrido para encontrar seu irmão mais velho, Angelo (Vincent Gallo), que resolveu tirar um ano sabático e nunca mais entrou em contato com a família. Bennie consegue encontrá-lo, mas...” 

city of angels: Red Hot Chili Peppers

música para quase tudo: música para ouvir (Arnaldo Antunes)

Jean-Pierre Dupuy: "A fabricação do homem e da natureza"

Creio que já falei dessa conferência em algum post, perdido num recanto qualquer. Ontem me lembrei dela novamente, de como, a partir de uma fala inicial sobre nanotecnologias, Jean-Pierre Dupuy termina por especular sobre o imponderável que assinala cada pessoa, recorrendo a um mito grego para chegar a uma fala interessantíssima sobre o amor. Não só as nanotecnologias, mas todos os processos de fabricação do homem (e da mulher), do botox ao photoshop. A conferência pode ser acessada aqui ou aqui

P.S. Não julgo possível estar imune a esses processos, no máximo se consegue algum distanciamento em relação a eles, em especial que isso tudo vem a par da leitura do fantástico texto O banqueiro anarquista e sua teoria das ficções sociais. Assunto para outro post.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sessão nostalgia: OASIS (abstraindo o Noel Gallagher)

[de volta à tese, com trilha sonora compatível]

blogosfera

Além de ter melhorado sensivelmente a qualidade deste espaço, o giro pela blogosfera levou-me a descobrir a excelência dos blogs de Portugal. Entre os que sigo, destaco, em ordem alfabética: a ilha do Zé; a namorada de wittgensteinantologia do esquecimento; DesertaçõesMy One Thousand Movies; Pessoa para todas as ocasiões;  profissão: leitor. Cada qual com estilo bem próprio, primam pela qualidade dos posts e da apresentação do espaço, bom gosto e um sentido apurado do estético. Seguir os links é uma ótima forma de conferir. 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Starry Night - Van Gogh (animação)

Forever Young (juntando Bob Dylan e criança novamente)

apurando a escuta: ouvindo Clarice Lispector e outras vozes

Uma das coisas mais desastradas que pode acontecer a alguém é entregar a escuta de sua voz a ouvidos pouco habilidosos. Mas é só assumindo algum tipo de risco que é possível ser ouvido, escolhendo igualmente silenciar. A elegância começa nas atitudes ― li faz muito tempo num texto versando sobre moda, provavelmente frase de algum estilista de renome ― talvez Yves Saint Laurent? E acaba nelas ― emendou recentemente um interlocutor atento e curioso. Mas só foi possível captar essa intuição da qualidade da escuta apurando, de alguma forma, a intuição. Quer dizer: apurando o ouvido. Por isso me ocorre esse trecho de Clarice Lispector, lido hoje, "Não entender" (A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.172):

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

O trecho me consola do tanto que estou me sentindo burrinha, com meu embaraço diante da vida, das coisas, das pessoas, das diferentes situações de que não é possível se furtar. Um pouco disso é o esforço da tese: gastei bastante da minha inteligência na escrita, e tenho que guardar mais estoque para o que vem agora, os ajustes finais, o sine qua non. De forma que esse trecho da Clarice Lispector deveras me acalma ― pelo menos me poupa o esforço inútil de entender o que fatalmente escapa. Mas o problema é que quero entender, e há meio mundo de coisas a descortinar. A meio caminho entre a luz e a escuridão, preferindo muitas vezes esta, fui escutando algumas falas, e duas delas, recentes, eu anotei (trata-se de pessoas da minha melhor estima):

Mariana,
Obrigada por este ano de aprendizado. Desejo a você enorme sucesso na defesa da tese e que o ano de 2011 seja mais rico e pleno de felicidade.
Luz, muita luz, por todos os seus caminhos.

*****************************

Por isso, digo que estou aqui, e, na medida do possível, sou seu ponto de interlocução. Dois faróis numa noite escura, você e eu.

*****************************

P.S. Nisso tudo faltou anotar uma coisa: fui passar o Natal no meu estado de origem, o Espírito Santo e, pelo menos na intenção, ir para lá guardou uma conotação particularmente interessante. Mas o momento é todo de escuta, não há dúvida.

minha sobrinha vem me visitar


Minha sobrinha de quase quatro anos vem me visitar. Do quarto, onde assistia o Discovery Kids, ela emerge dizendo: tia mariana, essa música é legal... Na sala, eu tinha colocado Bob Dylan para escutar, baixinho, enquanto trabalhava, e começava a tocar Jokerman, com o estranho poder que essa música tem de, como uma varinha de condão, magnetizar o ambiente, a bela melodia do rouxinol. Então ela quis se sentar na poltrona reclinável para escutar melhor, enquanto perguntava como era mesmo o nome do moço que estava cantando a música.

Modest Mouse: The Whale Song

Pelo engenho da concepção, o clipe foi considerado um curta cuja trilha sonora é a canção The Whale Song (aqui)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Rolling Stones e Bob Dylan: Like a Rolling Stone

Machado de Assis segundo Sérgio Buarque de Holanda

“Comparado ao de Pascal, o mundo de Machado de Assis é um mundo sem começo, sem Paraíso. De onde uma insensibilidade incurável a todas as explicações que baseiam no pecado e na queda a ordem em que foram postas as coisas no mundo. Seu amoralismo tem raízes nessa insensibilidade fundamental. A lei moral nasce de uma demagogia caprichosa e insípida, boa para confortar a vaidade humana. Nossos atos não têm um fim determinado e o espetáculo que oferece a agitação dos homens dá a mesma sensação que dão os discursos de um doido. De onde também esse fato que, para a interpretação da obra de Machado de Assis, tem suma importância: seu mundo não conhece a tragédia. Ou melhor, nele, o trágico dissolve-se no absurdo e o ridículo tem gosto amargo.” Mais adiante: “Na ideia de um mundo absurdo ― não trágico, mas absurdo ― somado a esse sentimento de penúria encoberto pela ironia, é que, segundo me parece, devem ser procuradas as origens do humour de Machado de Assis.”

HOLANDA, Sérgio Buarque de. A filosofia de Machado de Assis. ___. O espírito e a letra. Estudos de crítica literária I, 1920-1947. Org. Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.305-312. [Publicado originalmente em 1940, Diário de Notícias - RJ]

livros

Disse em post recente que não faço compras de Natal. Mas não se escapa de ter família, e mesmo quem não tem filhos costuma possuir um sucedâneo nos sobrinhos, tendo também irmãos. Fui então à Livriaria da Travessa comprar alguns livros que servirão como presentes, e que possivelmente serão lidos, quem sabe alcançando o que pretendiam ser, no meu gesto: um além da mercadoria. Sem muitas ilusões a esse respeito. Li Walter Benjamin. Mas a vida é estar aqui agora escrevendo esse post, mais uma das minhas declarações de amor aos livros ― e à escrita, da qual não consigo me furtar, sob pena de me faltar o próprio ar, não obstante a vida material estar relativamente encaminhada. Pode parecer grosseiro falar assim, mas o custo de tudo é elevado, e a fatura chega, sempre chega, de diferentes formas. 

Recebo de minha amiga Bia Petri como mensagem de Natal

Obrigada! Fotografia: Bia Petri.

sea pearl

[também no youtube e no vimeo]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Clarice Lispector: o cavalo-marinho entre a ilha e o mar


[...]
Falarei sobre uma coisa muito boa: sobre uma ilha.
Vocês gostariam de ter uma ilha só para cada um de vocês e para os seus amigos? Eu gostaria muito e não tenho.
Mas uma amiga minha comprou uma ilha só para ela e os amigos descansarem. Vocês sabem bem o que é uma ilha?
É um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.
Eu queria que vocês fossem fazer uma visita comigo à ilha de minha amiga. Vocês poderiam tomar banho de mar, caçar bichos, e de noite iam dormir numa rede. Vocês não iam ter medo porque eu ia dormir no mesmo quarto, protegendo cada menino e cada menina.
No mar dessa ilha tem de tudo: todas as espécies de peixes. Até cavalo-marinho tem. Ver um cavalo-marinho nadar é lindo: parece até com homens e mulheres dançando devagar.
Essa ilha é um pouco encantada.
Por quê? Pelo ar sempre novo, pelo capim chamado sapê que parece cantar ao vento, pela cidade das borboletas.
Minha amiga e um grupo de amigos dela estavam explorando a ilha, e no meio de um bambual encontraram a cidade das borboletas. Nessa clareira elas vivem, voam alto, voam baixo, voam ao redor de nós. Pequenas, grandes, azuis, amarelas e de todas as cores.
Parecia um bailado de borboletas naquele silêncio que só uma ilha tem.
O silêncio da ilha é um silêncio diferente: é atravessado pelos sons característicos dos habitantes animais e vegetais. Planta, se a gente pegar com jeito, as folhas delas parecem cantar. E falam com a gente. O quê? Depende de a gente estar triste ou alegre, com fome de beleza e de conversa.
Minha amiga comprou a ilha para lá morarem durante um tempo as crianças um pouco tristes que ainda não tinham conversado com plantas e animais. Um cavalo-marinho recebeu minha amiga no banho de mar.
No fundo do mar lá é azul e de todas as outras cores também por causa dos ouriços coloridos e das estrelas-do-mar e pelas algas que se movem dando esse colorido ondulante.
Vocês pensam que estou inventando?
Mas, se eu jurar por Deus que tudo o que contei neste livro é verdade, vocês acreditam? Pois juro por Deus que tudo o que contei é a pura verdade e aconteceu mesmo. Eu tenho respeito por meninos e meninas e por isso não engano nenhum deles.
Bem, obrigada por terem acreditado em mim. Não gosto de passar por mentirosa.
Além dos cardumes de peixes pequenos e grandes, no mar da ilha também tem cardumes de botos ou delfins: parecem com uma baleia pequena.
Os bichos da terra são pássaros de todas as cores e tamanhos. Também tem na ilha muita cobra e muito lagarto. A casa da ilha fica de portas e janelas fechadas contra mosquitos, lagartos e cobras. Tem também manadas de antas.
A ilha é tão grande que a dona dela ainda não conheceu tudo. E tem uma parte selvagem que nunca foi explorada.
A parte encantada são os brinquedos no mar de noite: desde a pesca com luz de lanterna até o mergulho todo iluminado pela fosforescência das plantas do mar. Peçam à gente grande para explicar o que é fosforescência.
As frutas são jaca, caju, cajá, graviola, bananas. E dos coqueiros altíssimos caem cocos à beça, até em cima da gente se não se toma cuidado. Tem também goiabas das brancas e vermelhas, e pitangas escarlates.
A água para beber foi canalizada com os bambus enormes da ilha.
É uma ilha tão encantada que eu teria medo de ficar sozinha de noite na minha rede. Nessa ilha tem todas as espécies de árvores, plantas, frutas e flores.
Morar numa ilha para sempre é triste porque a gente não quer se separar da família e dos amigos. Mas não precisamos morar lá. Basta passar sábado e domingo.
Bem, vamos deixar a ilha em paz, e voltar para os bichos. Eu tenho uma amiga que tem um cachorro que late tanto e tão alto que já me deu vontade de latir de volta.
[...]

LISPECTOR, Clarice. A mulher que matou os peixes [trecho].___. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.44-47. Imagem obtida aqui. Fonte original: Hubblesite.

Eu, etiqueta: Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Lluvia oblicua", Juan Soler

Fonte: LAS PIELES DEL POETA (http://solerjuan.blogspot.com/)

fernando pessoa e walter benjamin ao mar

["fernando pessoa as pessoas como as ilhas": uma busca que trouxe até este espaço]. Assisti na UFMG a uma conferência excelente, com estudioso cujo nome me escapa por completo, e que fez interessantes ilações (na falta de termo melhor) entre ensaios de Walter Benjamin e o texto "O banqueiro anarquista", de Fernando Pessoa. Enquanto o conferencista e vinha em sua brilhante exposição, eu ia imaginando (ou agora a minha memória assim o enxerga) Fernando Pessoa ao mar, tomando, eu, banqueiro anarquista por barqueiro anarquista, mas também podia ser Walter Benjamin no mar que ele não chegou a alcançar, em sua fuga tardia do nazismo. P.S. Acabo de me lembrar o nome do conferencista: Pablo Rocca. Retificação após o comentário do Luiz: trata-se de Julio Ramos (University of California/Berkeley), que no colóquio Passagens da modernidade (aqui) fez a conferência Las ficciones del sujeto moderno.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Os Mutantes - "The Garden of Notes"


Em algum site de cinema que sigo encontrei a alusão a esse curta, de produção americana, sobre Os Mutantes, banda de carreira meteórica cujo fim ainda hoje é uma história mal contada. O retorno recente, em nova composição (a namoradinha Rita Lee se esquivou), serviu para que as gerações mais novas tivessem uma pálida ideia do potencial da composição original. Arnaldo Batista e sua entrega ao sonho é a melhor justificativa desse retorno.

All Along the Watchtower - Bob Dylan


[vídeo obtido aqui]

“There must be some way out of here,” said the joker to the thief
“There’s too much confusion, I can’t get no relief
Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth
None of them along the line know what any of it is worth”

“No reason to get excited,” the thief, he kindly spoke
“There are many here among us who feel that life is but a joke
But you and I, we’ve been through that, and this is not our fate
So let us not talk falsely now, the hour is getting late”

All along the watchtower, princes kept the view
While all the women came and went, barefoot servants, too

Outside in the distance a wildcat did growl
Two riders were approaching, the wind began to howl

Copyright © 1968 by Dwarf Music. Fonte: site oficial de Bob Dylan.

Epílogo


Mariana:
Recebi sua tese. Começarei a ler hoje mesmo. Espero que até o final da semana já terei lido tudo. Te envio (espero) sexta ou sábado (quem sabe antes, se eu me entusiasmar...).
Abraço.
Não fique tão pessimista.
José Américo.

----- Original Message -----
From: Mariana
To: José Américo
Sent: Monday, December 20, 2010 7:15 AM
Subject: tese 

José Américo, aí vai sua encrenca de final de ano.

Ainda falta aquela papagaiada de dedicatória, agradecimento, resumo, resumo em inglês etc. Fora as miudezas de ABNT. 

Sem contar que eu não pretendo fazer subdivisão de capítulo, vai ficar assim mesmo, com cara de monstrengo. 

A conclusão ficou ruim, mas se me falta justo a visão de conjunto, como concluir bem? Aliás, conclusão no meu caso é sinônimo de ponto final. 

Sem contar que preciso ir à FCRB "fingir" que consultei lá a tal carta que cito aí.

Vou tentar descansar por esses dias do Natal, depois do dia 26 mexo nisso.

Será que esqueci alguma coisa?

Ah, sim, obrigada pela enorme paciência. Fique à vontade para fazer as alterações/sugestões que julgar mais cabíveis, quaisquer que sejam. Espero que goste dos textos que pus como epígrafe. Creio que dedicarei esse trabalho ao Bob Dylan.

Me dê um retorno, por gentileza, de que recebeu o arquivo.

Abraços, Mariana.

P.S.
Prezado José Américo: creio que a palavra "Epílogo" fica melhor que "Conclusão" para o fechamento da tese.

Só me ocorreu isso hoje, depois de vivenciar meu "epílogo": ficar até de madrugada "fechando" um texto que não poderia mais esperar para ser enviado. Prazos são prazos.

No mais, desejo que a leitura de alguma forma seja proveitosa.

No aguardo de um retorno.

Abraço, Mariana.

rescaldo de novembro

A Light cortou minha luz hoje à tarde, enquanto dormia um sono merecido, após enfim enviar a "versão final" da tese para meu orientador e ter ido à escola cumprir o último compromisso do ano. Ou seja, quando enfim, timidamente, a palavra "férias" pôde ser pronunciada, ainda que baixinho, no sono que me permiti. É que havia me esquecido de pagar a fatura de novembro, e na fatura de dezembro, em dia, havia mesmo um "aviso de corte", mas nas famosas letras miúdas. Saturada de letras, não dei por elas. A companhia aproveitou e cortou a energia do vizinho também, pra que perder viagem? Como no caso dele foi indevidamente, mais do que depressa a companhia veio, enquanto no intervalo eu descia para pagar a conta. No retorno do banco, com a fatura paga em mãos, o funcionário me disse que não poderia ligar a minha luz sem uma comprovação oficial, dentro dos trâmites da empresa... Mas... eu disse, pois ouvi seu não poderia (e disse isso a ele), e sei o que vem depois de tal enunciado. E tal se deu. Tanto que estou podendo escrever isso aqui. O curioso é que, enquanto dormia, já naquela fase do dorme-acorda, sonhava mais uma vez que estava postando algo, e que havia comentários e tal. É inevitável. Não é o texto do sonho, mas o texto da luz cortada durante o sueño.

domingo, 19 de dezembro de 2010

U2 - All Along The Watchtower (Bob Dylan / Jimmi Hendrix)



Na tarefa de concluir a versão da tese que seguirá para o orientador, escolhi como companhia e trilha sonora o U2, entre surpresas e coisas conhecidas. Escolha acertada, como esta interpretação para "All Along the Watchtower", que reúne muitas coisas de que gosto. Que música! "Outside in the cold distance / A wild cat did growl"

críticas

Um amigo adverte: dependendo da fonte de que procedem, as críticas são na verdade elogios. É bom acolhê-las, portanto, porque, como o negativo de uma fotografia, elas estão dizendo pelo avesso, dizendo o que não admitiriam dizer. Outra amiga diz: quem aponta o dedo para outrem traz três apontados para si. Crítica "construtiva" é eufemismo empobrecido empregado por quem leu mal a famosa passagem bíblica, da trave e do cisco no olho. Críticas são sempre críticas, cada um faz delas o que bem entender. Se a pessoa não se cuidar, o mundo passa sobre ela como um trator, e ainda diz que tentou ajudar.

interdisciplinaridade

No serviço, em meio ao bulício e à confusão geral das falas, vários professores sentados à mesa fazendo os ajustes finais, falas entrecortadas, atravessadas, abortadas, eis que, ao me descuidar numa anotação, falando com os meus botões (que aliás nem existiam, pois usava minha camiseta básica com que quase sempre vou trabalhar), chamei-me de anta. O colega ao lado, da química, escutou e logo tomou meu partido: que isso, professora, a senhora não é anta não. Imediatamente, querendo fazer algo mais com o precioso substantivo ali fazendo vez de adjetivo, e porque as coisas não fazem mesmo sentido, ele devolveu-lhe sua condição de substantivo, sapecando-lhe um adjetivo: a senhora é uma anta bonita. Confesso que não me desagradou ver a sintaxe e a semântica emendadas com engenho tão singular. 

as margens da alegria

É simples: novembro me foi tão, mas tão difícil, infernal mesmo (só quem já andou rondando o inferno sabe o alcance dessa palavra, inclusive pelo arbítrio do que vem sem ter sido provocado, pelo menos num grau consciente), que ontem, quando me peguei  alegre, diante da trilha sonora da minha adolescência (mas era outra coisa também), eu de súbito entendi: acabou. Obviamente que uma mudança se deu: ninguém volta o mesmo dessas incursões aos confins sabe-se lá de que. A alegria que senti era tão certa, tão minha, que só fui dar por ela quando algo inusitado aconteceu, mas que não deixava dúvida de que se tratava dela, da alegria. Então eu já sei: vai-se ao inferno, mas dele se retorna. Já voltei de outros. Vou guardar a senha para a próxima incursão. Como não lembrar do belíssimo final de "As margens da alegria", conto que abre as Primeiras estórias de Guimarães Rosa? 

Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim era lindo! ― tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.