Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 25 de agosto de 2012

KHODA: simplesmente genial

Khoda from Reza Dolatabadi on Vimeo.
What if you watch a film and whenever you pause it, you face a painting? This idea inspired Reza Dolatabadi to make Khoda. Over 6000 paintings were painstakingly produced during two years to create a five minutes film that would meet high personal standards. Khoda is a psychological thriller; a student project which was seen as a ‘mission impossible’ by many people but eventually proved possible...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

a bicycle trip (acerca da descoberta do lsd)

a uma equidistância imaginária

Murilo Mendes

VIGÍLIA

Ninguém moverá para mim
A máquina do sonho e da noite.
Eu a moverei.

Tantos corpos já rodaram...
A caligrafia das constelações é claríssima.
Tantos amores dissonantes
Se alimentaram de mim.

Fui construído a golpes de angústia:
E já vejo se erguer no horizonte
O futuro momento de cinza
Guardado pelos deuses-estandartes.

Até quando, Ente oblíquo,
Abusarás de minha sede?

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.345.

corpo

“Como ter a força de estar à altura da própria fraqueza*, ao invés [em vez] de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força?” Peter Pál Pelbart (aqui).
* fraqueza ou fragilidade?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

pensar contra si

"Somos adestrados durante um tempo excessivamente longo na estupidez, e no fim ela se transforma numa segunda natureza... A primeira coisa que pensamos está sempre errada... é um reflexo condicionado. É preciso pensar contra si mesmo e viver na terceira pessoa." (Respiração artificial, Ricardo Piglia)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

respirando profundamente na linguagem

A palavra que vence e atravessa a resistência da linguagem ― é o que hoje me ocorreu, por analogia ao esforço que fazia dentro da água. Incomparável o bem-estar de uma aula de natação... Ainda assim, imperando o corpo e o esforço físico, eu divagava sobre a resistência que a linguagem oferece a quem quiser dela mais que a superfície movente do pensamento. 

Fernando Pessoa

Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!

Fernando Pessoa. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.358.

domingo, 19 de agosto de 2012

a beleza também é difícil de nomear

«Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão»

Este post deu-me, por pura necessidade de começar de algum lugar,  o ensejo de perfilar palavras que me inquietam há cerca de dois dias. Trata-se de uma intuição em aparência simples: é sexta-feira e estou voltando, já no final do dia, para casa, vindo do dentista. Estou descendo a Grajaú-Jacarepaguá. O motorista é rápido. É quando percebo que o horário e o contexto receitariam o percurso inverso, já que estou dando as costas aos inúmeros e cheios de apelo signos culturais da cidade, anunciados com bastante eloquência na primeira edição do telejornal, para tão somente vir (ou voltar) para casa, à qual finalmente, e convicta, chego, o que não implica qualquer conclusão. 

lobos

Ontem dormi durante o dia, o que é garantia de insônia à noite. À noite, o sono teimava em não vir, enquanto eu ia lendo trechos avulsos de Deleuze, até não poder mais. A dada altura, comecei a ouvir uma espécie de grito intermitente, desconfortável. Havia acabado de ler um trecho sobre o homem que sonha com lobos, em “Cinco proposições sobre a psicanálise”: “(...) quando o Homem dos lobos sonha com seis ou sete lobos, o que é por definição uma matilha, a saber, um certo tipo de grupo, Freud só pensa em reduzir esta multiplicidade, em reconduzir tudo a um só lobo, que será forçosamente o pai.” Qualquer que seja a riqueza sugestiva do trecho e suas implicações interpretativas, o fato é que a própria contiguidade de tudo deu-me os lobos: os gritos intermitentes que ia ouvindo, no limite do estridente, vinham da rua: tratava-se de um grupo que voltava, vindo muito lentamente e em passos errantes, e um deles gritava a intervalos curtos. Por que o fazia? A quem queriam atingir, aqueles gritos? Ou não queriam nada, apenas eco do insuportável silêncio da madrugada vazia? Nunca poderei saber. Insone ou não, a madrugada é um campo em que lobos correm uivando violentamente. Voltando a dormir, sonhei com outra espécie de lobos, mais familiares e perigosos. 

pausa para respirar

O cotidiano é o lugar por excelência da vida. Certa recorrência, as tarefas rotineiras e a ausência de brilho são traços do viver miúdo. Um outro traço seria a aleatoriedade da ação, no sentido de que não há urgência, pressa ou mesmo uma ordenação hierárquica que obrigue as coisas a serem dessa e não daquela maneira. E é nessas brechas, na disponibilidade para o imprevisto, que o cotidiano pode surpreender ou ser surpreendido no sentido de que o próprio imprevisto pode irromper. Dá-se a coincidência de uma pausa com uma música, por exemplo, ou uma música que leva a uma pausa, e alguma coisa começa a acontecer: está-se respirando, respirando, respirando... E no movimento da respiração percebe-se, finalmente, o cansaço, cansaço do contínuo sem pausas para respirar.

sobre as ilhas desertas (deleuze)

“A ideia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha deserta, sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma para aprofundá-lo e recuá-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou desse mais profundo.”

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros textos. Org. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminaras, 2006, p.22.