Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

trégua (ou recesso)

Esta é a melhor época do ano ― seu finzinho. Passou o frisson do Natal, aquela expectativa midiática toda em torno de uma ceia que poderia descambar em barracos natalinos. Sobreviveu-se aos próprios barracos, com um arranhão ou outro, que um bom vinho e o analista vão resolver. São cinco dias sagrados, entre 26 e 30 de dezembro, em que ainda se está em 2015 e ainda não é 2016. Uma adorável suspensão de (quase) tudo, que permite ao ser palmilhar a superfície das coisas, sem penetrá-las ou ser muito afetado por elas. Um mar caribenho em que não se vislumbra qualquer pontinha de iceberg desmancha-prazeres, porque o clima está ameno, agradável, está um clima metafórico. No dia 31 começará a contagem regressiva para o novo ano, o Ano Novo, e será dada a largada a uma nova maratona de sabe-se lá o que. Angústias, incertezas, previsões e notícias ruins, ataques, mortes violentas, a crise nossa de cada dia ― enfim, todo o rosário da desgraça humana a que Brás Cubas assistiu em seu célebre delírio. Mas, por enquanto, nesses breves cinco dias, vive-se o nirvana do tempo, um parêntese generoso nas (e das) solicitações, demandas e necessidades

Carlos Drummond de Andrade

POEMA DA NECESSIDADE

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 10 livros de poesia. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.47.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

João Cabral de Melo Neto

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.105.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

estatísticas

70% vê o governo Dilma como ruim ou péssimo. 80% dos brasileiros quer a queda de Eduardo Cunha. 99,9% da população está lotando shoppings e centros de consumo popular para as compras de Natal. De 75 a 80% das mulheres adotou o animal print como elemento do vestuário. 99% dos brasileiros está triste, chateado ou infeliz com o país, a falta de dinheiro, o desemprego, a inflação, os rumos da economia. 100% dos usuários de ônibus, trens e metrô no Rio de Janeiro mostram expressão taciturna. O ceticismo e a indiferença são generalizados. O calor, insuportável. 

aniversários

Aniversários costumam ser uma coisa aborrecida, pelo simples fato da obrigação que os acompanha. Passo o ano recebendo notificações, lembretes e convites de aniversários, do circulo familiar às amizades. “Liga pra fulana, é aniversário dela”. “Hoje é aniversário de sicrano”. “Parabéns, que Deus lhe dê alegrias e muitos anos de vida”. É isso ou condenar-se ao ostracismo social. Há, no entanto, outras maneiras de amar as pessoas e os amigos. Como disse um compositor, eu acho tudo isso um saco. Mas a cereja do bolo vem em dezembro, quando o aniversariante-mor mobiliza pessoas ao redor do mundo e de uma árvore, para celebrar... o que mesmo? Acho que ninguém mais sabe.

domingo, 29 de novembro de 2015

Manuel Bandeira

CANTIGA

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar. 

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.152.

sábado, 28 de novembro de 2015

luzes

Foram vários reajustes ― para cima ― no valor cobrado pela energia elétrica ao longo do ano, consumando ao todo uma incidência de 50% na tarifa, fora as bandeiras tarifárias. Ainda assim, começam a se acender as luzes de Natal nos lares, lojas, edifícios. As pessoas estão mesmo dispostas a pagar a conta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

para cada tecnocrata são precisos dez poetas

“Eu gostaria de poder dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fudidos antes mesmo da bomba explodir.”

Rubem Fonseca, Intestino grosso. ___. Feliz ano novo. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.173.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

triste, muito triste

A lama tóxica matou o rio Doce. Nem da metáfora precisamos aqui.

Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.84.

sábado, 7 de novembro de 2015

um pais sem alma

“Há sempre um copo de mar / para um homem navegar” ― disse o poeta. Por que nós, achados por outro navegantes, nos esquecemos tão depressa do mar? Estamos afundando na lama, mais real que nossas piores alucinações coletivas. Enquanto isso, o nobre deputado vai na televisão dizer que nada é o que parece ser. Meu Deus! Até quando suportaremos?

"theres too much confusion" (no país cujos fora-da-lei dão entrevistas-farsa para o principal canal de televisão)

infelizmente aqui a política parece inseparável da corrupção

terça-feira, 3 de novembro de 2015

o ciclo da natureza

Ontem foi dia dos mortos. Saí para a caminhada habitual, a recomendada pelos médicos, de fim de tarde. A chuva (também) habitual da data começou enfim a cair, no momento em que saía. Sendo pouca, prossegui. Mas logo engrossou, assumiu ares de chuva de finados. Não recuei. Ao contrário, deixei que a chuva me lavasse e quem sabe levasse um pouco da ansiedade, da respiração opressa. Já quando retornava, quase chegando em casa, me dei conta de que aquela mesma chuva estará um dia encharcando o chão onde estarei enterrada. E senti um enorme sufoco, uma falta de ar, e desejei viver, continuar vivendo, simplesmente, por muito tempo, enquanto a mim isso for concedido. 

Ah!

Procurei uma palavra sob que me proteger. Pensei na palavra paz. Mas logo percebi o engodo. A palavra paz não protege, não guarda ninguém. Ela é pequena demais para isso, escudo impróprio, e tem no centro um enorme a, vogal aberta, vazada, que a tudo dá passagem.

domingo, 11 de outubro de 2015

"a madame gasta muito": as espúrias relações entre Eduardo Cunha e PC Farias (ou ainda: o submundo dos políticos brasileiros)

VOZES DA MORALIDADE
Jânio de Freitas, Folha, 11/10/2015

A situação pessoal embaraçosa, com o presumido risco de perder milhões de dólares resguardados no exterior para não os perder, deve ter mexido com a frieza de Eduardo Cunha. Mas Eduardo Cunha exagera, supondo-se "execrado". Muito ao contrário. Eduardo Cunha não está sozinho, não foi abandonado por causa de acusações. E tanto conta com fraternidades espontâneas, como dispõe de armas para produzir interessados em não o incomodar. Ou só fazê-lo em último desespero de causa.
A verdadeira atitude do PSDB, até ontem (10), de benevolência quando as provas contra Eduardo Cunha já levam a pedidos de sua cassação, provém de duas vertentes. Os taradinhos do impeachment preservam o presidente da Câmara porque esperam dele que instale a ação para a derrubada de Dilma e não têm pudor de dizê-lo. Aécio Neves não foi sugerir a Eduardo Cunha que se licenciasse coisa nenhuma, se nem disfarçou o desejo de que seja poupado para encaminhar o processo. O "aquilo" em que esses taradinhos só pensam não é aquilo, é o impeachment.
A outra vertente de proteção peessedebista a Eduardo Cunha veio dos mais velhos que ainda influem no partido. São remanescentes do governo Fernando Henrique. Ou seja, do escândalo das privatizações causado por grampos telefônicos que levaram à saída forçada de ministros e de outros do governo, comprometidos com fraudulências surpreendidas pelas gravações.
Confrontado de repente com uma pergunta sobre a origem das fitas, o general Alberto Cardoso, da Casa Militar, disse que foram encontradas sob um viaduto em Brasília. A verdade era outra. A maior parte dos procedimentos para as privatizações transcorreu no Rio, sede das empresas e do BNDES, além das extensões de ministérios também envolvidos, como Indústria e Fazenda. Tudo se passava, portanto, nos domínios territoriais e operacionais de Eduardo Cunha, presidente da Telerj, a telefônica estatal do Rio, no governo Collor e até a posse de Itamar Franco.
Logo, nada de extraordinário que, pelas investigações ou por dedução, o circuito fechado do governo Fernando Henrique desse as gravações como obra de Eduardo Cunha, que em anos recentes já fora dado como responsável por grampos em série. No seu "diário" de presidente, Fernando Henrique refere-se a Eduardo Cunha deste modo, transcrito da revista "Piauí" pela Folha: "O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo do Itamar porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor". Esse "nós" é invenção da vaidade. Fernando Henrique estava indo para Relações Exteriores e nada teve com a exoneração rápida de Eduardo Cunha, decidida e feita por Itamar. Sem sequer considerar trapalhadas, mas, como muitas outras demissões, por ser ligado a PC Farias.
Gravações clandestinas não começam no exato momento comprometedor da conversa. Quem as instalou pode fazer coleções de conversas, personagens e assuntos. E quem sabe que gravações podem trazer-lhe complicações, diretas ou indiretas, não ousa contra o possível colecionador. A não ser quando o veja batido, esvaído, inerte. Como muitos têm esperado ver Eduardo Cunha, para lembrar-se de que são grandes defensores da moralidade. Privada e pública.
Mas não só de grampeamentos se fazem coleções biográficas. Como ex-presidente da Telerj, Eduardo Cunha sabe – e ninguém duvide de que também comprove – que a estatal dava dinheiro a políticos. Quantias fixas. Mês a mês. Por nada.
E Eduardo Cunha não só investigou. Também pagou. Se vai cobrar, ainda não se sabe. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

maravilhosa canção

José Paulo Paes

canção de exílio facilitada

lá?
ah!

sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!

PAES, José Paulo. Meia palavra [1973]. ___. Poesia completa: São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.194. 

sábado, 26 de setembro de 2015

lou reed - legendary hearts

Paulo Henriques Britto

SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Paulo Henriques Britto. Trovar claro. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.81.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

metro quadrado

Há um lugar marcado para o fim.
Dor, sofrimento
solidão, angústia
beleza — efêmera.
Tudo tem seu termo na terra.
Mas a dor continua nos que sobrevivem.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orides Fontela

PORTA

O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Por quem rosna o Brasil - Eliane Brum

“Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.

sábado, 22 de agosto de 2015

Cecília Meireles: "De que alma é que vai ser feita / essa humanidade nova?"

Ambição gera injustiça.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.

E, à sombra de exemplos graves,
nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonho, esforço,
mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?

Que tempos medonhos chegam,
depois de tão dura prova?
Quem vai saber, no futuro
o que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 9.ed. São Paulo: Global, 2012, p.164. Trecho do “Romance LIX ou Da reflexão dos justos”.

"A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido." (Sérgio Buarque de Holanda, 1936)

“Mas no caso de um eventual impeachment, também haverá quem vai prestar mais atenção ao fato de que, dos quatro presidentes que o Brasil teve após a retomada da democracia, dois não terminaram seus mandatos.” 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Orides Fontela

ADVENTO

Deste templo múltiplo
o que nascerá?

Da onda
rítmica
amplitude
da intensidade
amorfa
ritmicamente esfacelada

do múltiplo que um
mais que tempo virá
e que luz haverá além
do tempo?

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.66.

renato russo não morreu

quem o colocou lá?

De mais de um interlocutor, ouvi que Cunha é um mal necessário. Ai de nós, a precisarmos de males dessa envergadura.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

antes tarde

A queda de Cunha era questão de tempo. Figuras como ele são eficientes para agir nas sombras, não na linha de frente. Ainda mais com a megalomania que sempre o acompanhou, acima de qualquer limite de prudência. Em ambiente democrático, não há espaço para os superpoderosos. Tanto assim, que um dos truques históricos da mídia, quando quer marcar um inimigo, é superestimar seus poderes. O sujeito entra na marca de tiro, torna-se alvo não só de jornais como de outros poderes.”

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

esquecimento (paulo leminski)

um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
será quase a felicidade

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.292.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

narrativa da crise

Os principais veículos de comunicação do país parecem de acordo no objetivo de criar um clima de incerteza, alarmismo e pânico. Nunca eu entendi tanto como agora os meandros (sujos) do poder no Brasil. E esse entendimento faz mal, atordoa, entristece, deprime. Mais grave que os políticos e seus interesses sórdidos é o modo como os caciques e os blocos partidários estão disputando entre si o poder de deter e conduzir a narrativa da crise, espetacularizando a própria atuação. Estão atirando no pé — da democracia. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

...que seria do amarelo?

Sou essencialmente melancólica — a vida me parece quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado escrevendo isso, pilheriando com o leitor.

quarta à noite

Na quarta, bar ótimo, cerveja boa e amigos dando show de interpretação de “Heart of Gold”. Nem tudo é notícia ruim — e o bar fica perto de casa. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

oitavo andar

Moro no oitavo andar, como diz a música. Na verdade, contando o play e os dois pisos de garagem, moro no 11º. Trata-se de imóvel alugado, cujo contrato, recentemente renovado, encerra-se em 2017. Como o condomínio do prédio deixa muito a desejar, impõe-se, quando o contrato encerrar, procurar outro imóvel, maior de preferência. Também alugado. E de novo em andar alto. A maré econômica não está dando trégua, e torna-se remota a hipótese de financiar um imóvel — as condições (entrada e juros) pegaram o elevador da crise, resposta para quase tudo que está ruim no país. Aos bancos e aos graúdos que estão no comando da economia do país não interessa que o brasileiro comum tenha condições facilitadas, humanas, de adquirir um imóvel. Então se aluga um. De mais a mais, a que (ou a quem) ainda serve o sonho da casa própria? Que mito se esconde aí? Talvez o de poder bater um prego na parede sem ter que explicá-lo (depois). Ao diabo todos os proprietários de imóvel, que impõem, mediante o disfarce da lei, condições azedas a quem simplesmente quer morar em paz, pagando em dia por isso. Ao diabo. 

domingo, 12 de julho de 2015

fármacos

Uns tomam remédio para pressão, outros para depressão. Felizmente ainda não preciso tomar os dois. Mas essa noite, quanto sonho ruim! 

terça-feira, 7 de julho de 2015

sábado, 16 de maio de 2015

Cecília Meireles

CANÇÃO DE ALTA NOITE

Alta noite, lua quieta,
muros finos, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não precisa de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.

MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. São Paulo: Global, 2013, p.42.

terça-feira, 5 de maio de 2015

sexta-feira, 1 de maio de 2015

vinho

A vida tem qualquer coisa de cansaço, repetição, monotonia. O jeito é beber vinho, não muito vulgar.

insignificância

"Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita...e completamente inútil, as crianças rindo...sem saber por quê, não é lindo? Respire, D'ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor..." (Kundera in A festa da insignificância)

terça-feira, 14 de abril de 2015

DECADÊNCIA

EU
     LADEIRA
                   ABAIXO
                               DO MUNDO
                                                 ATÉ FICAR
                                                                  MUDO.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Julio Cortázar

DISCURSO DO URSO

Eu sou o urso dos canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos tubos de água quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de apartamento em apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho que gostam de mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro incessantemente pelos tubos e do que eu mais gosto é passar de andar em andar escorregando pelos canos. Às vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro andar berra que se queimou, ou grunho na altura do forro do segundo andar e a cozinheira Guillermina se queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e é quando ando mais depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua está dançando lá em cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras do porão. E no verão nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o rosto primeiro com uma mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma alegria muito grande.
Então escorrego por todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam em seus leitos e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem a luz e escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o porteiro. Eu procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto o nariz e espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem andar pelos canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de escutar como roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o rosto de manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora, vagamente convencido de ter feito um bem.

CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 81-82.

monotonia

O principal canal de notícias do país interrompe a programação para, mais uma vez, transmitir ao vivo mais um depoimento de mais uma CPI. Somos todos convertidos em policiais, investigadores, nessa operação. Me recuso a ficar assistindo a essa teatralização da moralidade vigente. Pontos na audiência, adeptos na plateia. A televisão coloca o telespectador diretamente no ambiente de um tribunal. Todos atiram suas farpas e xingamentos contra o réu da vez. E assim, como disse um cantor, nos tornamos brasileiros. 

sábado, 4 de abril de 2015

O abandono

Há coisas fáceis de abandonar: um blog, uma conta em rede social, uma roupa usada, um livro, até mesmo uma profissão. Uma pessoa pode abandonar também suas convicções, quando estas se mostram inúteis ou perdem a relevância. É possível abandonar pessoas — vale dizer, afetos — em relações de diferentes matizes, quando essas pessoas ou relações já não nos dizem nada, ou fazem mal. Mas será possível abandonar um ódio profundo, mortal? A fé em um deus pode ser abandonada sem consequências? Dito de outra forma: o ódio, a fé podem ser mais fortes que o desejo de abandoná-los? Se sim, na verdade são eles que não nos abandonam. 

domingo, 29 de março de 2015

Herberto Helder

A poesia também pode ser isso:
a dor com que não durmo lavrado completamente
íngremes laborações dos aerólitos — e então um pingo de ouro nos
                                                                                recessos
do cérebro. Que fosse a aparição contínua. Pode ser o inventário do
                                                                               sono pode
no casulo desdobrado quando a seda.
(...)
Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A Girafa, 2006, p.457.

domingo, 22 de março de 2015

sem álibi

Pratiquei umas três boas ações ontem, duas delas inadvertidamente (na falta de termo melhor). O mesmo deve valer para o mal que pratico.

quinta-feira, 19 de março de 2015

terça-feira, 10 de março de 2015

um país horrível

Um país que xinga uma mulher do que a presidente Dilma foi xingada no domingo, e em pleno Dia Internacional da Mulher... esse país tem esperança?

golpe em curso

Existe um costume no Brasil de chamar de opinião pública o que é opinião publicada." (colhido em algum canto da internet)

quarta-feira, 4 de março de 2015

que país é esse...

Só por força de expressão e hábito nossos representantes em Brasília podem ser chamados de “nossos”. Abertamente e sem qualquer rebuço ou constrangimento, legislam em causa própria, brigam feito galos em rinha o tempo todo pelo poder, que se torna o condutor único de sua ação, uma causa em si. Os presidentes da Câmara e do Senado representam “apenas” (mas isso diz tudo) o que essas duas casas se tornaram — de forma alguma os eleitores, a nação, aqueles que lá os colocaram para... Para que mesmo?

terça-feira, 3 de março de 2015

a curva de cada dia

Em momentos de maior aflição, procuro Deus. Por atavismo, começo a rezar o pai-nosso: “Pai nosso que estais no céu...” Mas dura bem pouco minha intenção. Não consigo dizer “seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu.” Se eu quisesse me demitir de minha vontade, de meus desejos, seria outra minha vida, não estaria aflita pelo que me aflige. Provavelmente eu seria outra, em perfeita comunhão com Deus. O que é Deus? Quem é Ele? Isso a que chamam destino certamente se impõe, está se desenhando em mim, vai além da morte. Por enquanto, tenho a ilusão de que participo de sua caligrafia, pelo menos. E não quero chamar Deus de Destino. 

domingo, 1 de março de 2015

Orides Fontela

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa
da procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

margem de
erro: margem
de liberdade

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.202.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Orides Fontela

NARCISO (JOGOS)

Tudo
acontece no
espelho.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.333.

Tudo?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

sentimentos ínfimos (ou o desejo de silêncio)

Alhear-me, esquecer, não sentir (tanto) as pressões incessantes do mundo, contas (de variada natureza), cartas que chegam por todos os meios. O que simplesmente acontece. Fatos (abre aspas):

...fatos
são pedras duras.

Não há como fugir.

Fatos são palavras
ditas pelo mundo.


Alhear-me, e experimentar o supremo prazer de poder ficar quieta. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

linda essa canção

a morte (sentimentos confusos)

A morte desafia as definições bem assentadas de dicionário. Ela é um incômodo, um desconforto, um espinho fisgando a carne e afetando a alma. Uma dor, sobretudo, um fantasma rondando a lembrar que o fim de todos é debaixo da terra, roídos por vermes e sem agasalho ou proteção em noites de chuva. Alguma coisa da vida ou da consciência sobrevive à morte física, orgânica, à morte do corpo? Se sim, haverá horror maior que morrer? Claro que há: o catálogo de horrores desse mundo aquém-túmulo parece infindável e inesgotável, mesmo porque a imaginação humana não cansa de buscar excitação em fantasias macabras e aterrorizantes. Mas a morte não pertence ao domínio das monstruosidades fabricadas pelo homem, que não obstante estão intrinsecamente ligadas a ela. A morte, primariamente, pertence ao domínio da natureza. Não pode ser evitada. E dói, como se fizesse parte da vida. 

eddie vedder - society

Traveling Wilburys - Handle With Care

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Orides Fontela: "excessiva vivência"

FALA

Tudo

será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.31.

vitória suspeita

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

a obra de arte no corredor

Minha resistência a exposições, em especial as de grande apelo, como esta, é que elas são tratadas como arte, causam filas e frisson, mas na verdade funcionam como cultura. O que há contra a cultura? Nada — desde que não assuma o disfarce de arte.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

letargia

Minha miopia tem me feito enxergar tudo meio lento — os Correios, o retorno das ligações dadas, a internet, as operações básicas da vida. A paciência precisa ser de Jó, mas a ansiedade é moderna, contemporânea, não é fenômeno que se possa aferir com parâmetros bíblicos. Leio sobre meditação e técnicas de respiração, mas é preciso pagar para se iniciar nesses saberes milenares — quem sabe os mesmos que permitiram a Jó esperar tanto —, além de sair de casa, fazer contatos, mandar e-mails, dar telefonemas, encontrar espaço na agenda, coisas que via de regra mais chateiam que acalmam. Tento imaginar o mundo em que essas técnicas de desacelaração foram criadas, forjadas, elaboradas. Não consigo. Enquanto isso o país parece estar caminhando para um nó, cujo desfecho vai ser certamente desagradável.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A VERDADE DA REPRESSÃO - ANTONIO CANDIDO

Balzac, que percebeu tanta coisa, percebeu também qual era o papel que a
polícia estava começando a desempenhar no mundo contemporâneo. Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão. Mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas elemento determinado.
O romancista tinha mais ou menos dezesseis anos quando Napoleão caiu, e
assim pôde ver como a polícia organizada por Fouché adquirira por acréscimo (numa espécie de desenvolvimento natural das funções) o seu grande papel no mundo burguês e constitucional que então se abria: disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade.
A polícia de um soberano absoluto é ostensiva e brutal, porque o soberano
absoluto não se preocupa em justificar demais os seus atos. Mas a de um Estado
constitucional tem de ser mais hermética e requintada. Por isso, vai-se misturando
organicamente com o resto da sociedade, pondo em prática um modelo que se poderia chamar de “veneziano” ― ou seja, o que estabelece uma rede sutil de espionagem e de delação irresponsável (cobertas pelo anonimato) como alicerce do Estado.
Para este fim, criam-se por toda a parte vínculos íntimos e profundos. A polícia se disfarça e assume uma organização dupla, bifurcando-se numa parte visível (com os seus distintivos e as suas siglas) e numa parte secreta, com o seu exército impressentido de espiões e alcagüetes, que em geral aparecem como exercendo ostensivamente outra atividade. Este funcionamento duplo permite satisfazer também a um requisito intransigente da burguesia, dominante desde os tempos de Balzac e dispensado só nos casos de salvação da classe: a tarefa policial deve ser executada implacavelmente, mas sem ferir demais a sensibilidade dos bem-postos na vida. Para isso, é preciso esconder tanto quanto possível os aspectos mais desagradáveis da investigação e da repressão.
Para obter esse resultado, a sociedade suscita milhares de indivíduos de alma
convenientemente deformada. Assim como os “comprachicos” d’O homem que ri, de Victor Hugo, estropiavam fisicamente as crianças a fim de obterem aleijões para divertimento dos outros, a sociedade puxa para fora daqueles indivíduos a brutalidade, a privação, a frustração, a torpeza, a tara ― e os remete à função repressora.
Daí o interesse da literatura pela polícia, desde que Balzac viu a solidariedade
orgânica entre ela e a sociedade, o poder dos seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal, do degenerado, para o fortalecimento da ordem. Nos seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor, mesmo porque este pode ter sido antes um transgressor, como é o caso de Vautrin, ao mesmo o seu maior criminoso e o seu maior policial.
Dostoievski percebeu uma coisa mais sutil: a função simbólica do policial como sucedâneo possível da consciência ― a sociedade entrando na de cada um através da pressão ou do desvendamento que ele efetua. Em Crime e Castigo, o juiz de instrução Porfírio Porfíriovitch vai-se tornando para Raskolnikof uma espécie de desdobramento dele mesmo.
Mas foi Kafka, n’O Processo, quem viu o aspecto por assim dizer essencial e ao mesmo tempo profundamente social. Viu a polícia como algo inseparável da justiça, e esta assumindo cada vez mais um aspecto da polícia. Viu de que maneira a função de reprimir (mostrada por Balzac como função normal da sociedade) adquire um sentido transcendente, ao ponto de acabar se tornando sua própria finalidade. Quando isso ocorre, ela desvenda aspectos básicos do homem, repressor e reprimido.
Para entrar em funcionamento, a polícia-justiça de Kafka não tem necessidade de motivos, mas apenas de estímulos. E uma vez em funcionamento não pode mais parar, por que a sua finalidade é ela própria. Para isso, não hesita  em tirar qualquer homem do seu trilho até liquidá-lo de todo, física ou moralmente. Não hesita em pô-lo (seja por que meio for) à margem da ação, ou da suspeita de ação, ou da vaga possibilidade de ação que o Estado quer reprimir, sem se importar se o indivíduo visado está envolvido nela. Em face da importância ganha pelo processo punitivo (que acaba tendo o alvo espúrio de funcionar, pura e simplesmente, mesmo sem motivo), a materialidade da culpa perde sentido.
A polícia aparece então como um agente que viola a personalidade, roubando ao homem os precários recursos de equilíbrio de que usualmente dispõe: pudor, controle emocional, lealdade, discrição ― dissolvidos com perícia ou brutalidade profissionais. Operando como poderosa força redutora, ela traz à superfície tudo o que tínhamos conseguido reprimir, e transforma o pudor em impudor, o controle em desmando, a lealdade em delação, a discrição em bisbilhotice trágica.
Daí uma espécie de monstruosa verdade suscitada pela polícia. Verdade oculta de um ser que ia penosamente se apresentando como outro, que de fato era outro, na medida em que não era obrigado a recair nas suas profundidades abissais. Aliás, seria mais correto dizer que o outro é o suscitado pela polícia. O outro, com a sua verdade imposta ou desentranhada pelo processo repressor, extraída, contra a vontade, dos porões onde tinha sido mais ou menos trancada.
De fato, a polícia tem necessidade de construir a verdade do outro para poder
manipular o eu do seu paciente. A sua força consiste em opor o outro ao eu, até que este seja absorvido por aquele e, deste modo, esteja pronto para o que se espera dele: colaboração, submissão, omissão, silêncio. A polícia esculpe o outro por meio do interrogatório, o vasculhamento do passado, a exposição da fraqueza, a violência física e moral. No fim, se for preciso, poderá inclusive empregar a seu serviço este outro, que é um novo eu, manipulado pela dosagem de um ingrediente da mais alta eficácia: o medo ― em todos os seus graus e modalidades.

***

Um exemplo dessa redução degradante é o comportamento do delegado com o encanador, no filme Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri.
O delegado, que é também o criminoso, resolve brincar com o destino e como
que provar o mecanismo autodeterminante da polícia, a sua finalidade em si mesma. Para isso, dirige-se a um transeunte qualquer, escolhido ao acaso, e confessa que é o matador procurado, dando como prova a gravata azul celeste que usa e fora vista nele.  Convence então o pobre transeunte a ir à polícia e relatar o fato, dando-lhe para levar como indício (e evidentemente como baralhamento do indício) diversas gravatas iguais, que mostrariam como era a do assassino.
Chegando à polícia, o transeunte, que é encanador, dá de cara com o assassino que se confessara na rua, e que ia delatar; mas que agora está no seu papel de delegado. Este o interroga com brutalidade e o pressiona física e moralmente para dizer quem era o assassino que se desvendara a ele na rua. Mas o pobre diabo, completamente desorganizado pela contradição inexplicável, não tem coragem para tanto. Com isso, vai ficando suspeito, vai-se caracterizando legalmente como possível criminoso, até desaparecer dos nossos olhos, trôpego, arrasado, por uns corredores sujos que levam aonde bem suspeitamos.
A força que o paralisa, e que nos paralisaria eventualmente, vem de uma
ambigüidade, misteriosa na aparência, mas eficaz, cuja natureza foi sugerida acima: o repressor e o transgressor são o mesmo, não apenas fisicamente e do ponto de vista dos papéis sociais, mas ontologicamente (o outro é o eu).
Tudo nesse episódio é modelar: a gratuidade com que se escolhe o culpado; a
imposição de um comportamento não intencional (ir à polícia com as gravatas azuis no braço, delatar um criminoso sem nome, que não interessa); o baralhamento da verdade, quando ele constata que o homem que se denunciara como assassino é também o delegado; a transformação do inocente em suspeito e do suspeito em delinqüente, aceita pelo próprio inocente, do fundo da sua desorganização mental, forjada pela inquirição.
O fulcro desse processo talvez seja aquele momento do interrogatório em que o delegado pergunta ao pobre diabo, já zonzo, qual é a sua profissão.
“― Sou hidráulico”, responde ele.
O delegado esbraveja:
“― Qual hidráulico qual nada! Agora toda a gente quer ser alguma coisa bonita! O que você é é encanador, não é? En-ca-na-dor! Por que hi-dráu-li-co?!”
E o desgraçado, já sem fôlego nem prumo:
“― Sim, sou encanador.”
(Cito de memória porque não tenho o roteiro.)
Vê-se que o pobre homem, a exemplo de toda a sua categoria profissional, tinha adotado uma designação de cunho técnico (idraulico, em italiano), que o afasta da velha designação artesanal encanador (stagnaro, em italiano), e assim lhe dá a ilusão de um nível aparentemente mais elevado, ou pelo menos mais científico e atualizado. Mas o policial o reduz ao nível anterior, desmascara a sua autopromoção, tira para fora a sua verdade indesejada. E no fim, é como se ele dissesse:
Sim, confesso, não sou um técnico de nome sonoro, que evoca inocentemente alguma coisa de engenharia; sou mesmo um pobre diabo, um encanador. Estou reduzido ao meu verdadeiro eu, libertado do outro”.
Mas na verdade, foi a polícia que lhe impôs o outro como eu. A polícia efetuou
um desmantelamento da personalidade, arduamente construída, e trouxe de volta o que o homem tinha superado. Sinistra mentalidade redutora, que nos obriga a ser, ou voltar a ser, o que não queremos ser; e que mostra como Alfred de Vigny tinha razão, quando anotou no seu diário:
“Não tenho medo da pobreza, nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenho medo do medo”.

(Publicado em Opinião, nº 11, 15-22 de janeiro de 1972.)
Revista Discurso, São Paulo, nº 10, 1979, p.1-5.