Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 27 de outubro de 2018

a candidatura que sequestrou o debate político

O momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável, uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos, muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca imaginei viver isso.