Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

não adianta

Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou, conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade, não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se, sem dúvida, de um projeto de destruição.