Não adianta, a cada palavra proferida pelo atual
mandatário da presidência da república, ou por alguém de seu entorno, não
adianta dizer: “é um absurdo”. Isso é calculado, a dose diária de choque, para
escandalizar, provocar reações de indignação, em última instância paralisar qualquer
reação. Por exemplo, o projeto de lei de um deputado estadual do Rio de Janeiro
para submeter os professores da rede pública estadual a exames toxicológicos a
cada três meses. Não adianta bradar nas redes sociais: “Que absurdo!”, ou,
conforme o grau de aberração, “Que horror!”. O horror marcha a toda a velocidade,
não foi detido quando ainda era possível fazê-lo. Está sendo naturalizado. Dois
conhecidos se encontraram no supermercado hoje de manhã e em pouco tempo
falavam com propriedade sobre a Amazônia. Me afastei para não ouvir a conversa, que era de embrulhar o estômago. Olho para as pessoas no entorno e enxergo os eleitores da
azêmola, muitos. A zona oeste praticamente o elegeu, assim como elegeu o
governador miliciano assassino e o prefeito pastor impostor. O difícil de ser
cidadão hoje no Brasil é que uma parte do país se tornou simplesmente
intragável. Muito mais difícil ainda é ser considerado inimigo por essa parte
intragável. Nós professores estamos sendo vistos e tratados como tal. Trata-se,
sem dúvida, de um projeto de destruição.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.