POLICIAL
Culpados
ou
cúmplices
nunca temos
álibi:
por força, estamos
aqui.
FONTELA, Orides. Poesia completa. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015, p.329.
(de um poema de Mário Faustino)
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
POLICIAL
Culpados
ou
cúmplices
nunca temos
álibi:
por força, estamos
aqui.
FONTELA, Orides. Poesia completa. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015, p.329.
Nem saudade nem pressa: paciência.
Aprender essa arte,
conjugá-la com a sorte.
Nem mesmo a sede inextinguível
de inventar necessidades
para satisfazer-se à larga.
Somente a paciência dos anjos
que entoam cantos em louvor.
Somente a paciência dos doidos.
FRÓES, Leonardo. Trilha. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015, p.126.
mesa
Depois de quase duas semanas, a morte de Lô Borges consegue encontrar um lugar de apaziguamento em mim. Lô Borges e Milton Nascimento criaram, junto a uma trupe de compositores e letristas talentosíssimos, o movimento musical que entrou para a história da MPB como Clube da Esquina, história muito bem contada no livro "Os sonhos não envelhecem". Dentre as muitas canções de Lô Borges, "Trem de Doido" ocupa um lugar especial, por fazer parte do movimento antimanicomial no Brasil. Mas são tantas outras canções que aprecio ouvir que se trata de uma escolha quase arbitrária. Eu não sabia que gostava tanto de você, Lô. Para sempre vou te amar.
Não te enganes: viajar é aborrecido.
Num ponto, ao menos, todos os lugares
se parecem: neles já se passou
algo terrível.
As viagens cansam
e são tristes.
Viajando apenas constatamos
a repetição tediosa do que existe.
Pois para onde quer que compremos passagem
levamos a nós mesmos na bagagem.
Viajar é conduzir o corpo
— esse comboio imundo —
a um estéril atrito com o mundo
e depois passar o dia inteiro
usando a língua como quem usa dinheiro.
Nem a página em branco dos desertos
nem as savanas e sua promessa de aventura
substituem uma hora de leitura.
Mesmo as longas praias e as montanhas
mesmo os sítios inflacionados de história
mesmo as pirâmides os oráculos a arte
e o lugar preciso para se ver
do melhor ângulo
o sol se pôr como se põe em toda parte
serão depois riscados da memória.
Mais vale afinal ficar em casa
se é que se tem uma
e enviar-te este postal
de parte alguma.
MARQUES, Ana Martins. Risque esta palavra: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p.56-57.