Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

trecho de conversa: acaso, encontros, luminosidade

A semana na casa nova me trouxe sensações antigas, boas, adormecidas. Mas elas são confusas, não cabem numa narração mais ou menos ordenada. É como se antigos elos estivessem sendo reatadas, uma espécie de bem-estar que ficou um tempo suspenso. Traduziria isso como uma reconciliação com o acaso ["São encontros. Encontramos uma pessoa, uma coisa, uma luminosidade... que nos abre novas perspectivas (pode acontecer um mau encontro e as perspectivas se fecharem). Viu como a ética do Spinoza não tem nada de intelectual? Trata-se de uma vida..."]. Pelas mãos do acaso. Não me detive em duas aulas de hoje falando de Édipo à toa. Sei que esse mito intrigante desafia convenções, e não me canso de pensar no componente de responsabilidade que temos sobre nosso destino, definido ironicamente por Machado de Assis como "grande produrador dos negócios humanos". As mãos do acaso trouxeram-me a sensação de vida renovada. Gostaria que continuassem generosas, ou que eu fosse capaz de ver mais longe ["...mal ou bem, temos que habitar este mundo. Como? Creio que é preciso estabelecer intercessões: amigos, escrita, leitura, contatos os mais diversos com a arte..."]. Ver mais longe, sem chegar a me cegar.

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