Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

fotografia antiga

Como, em tão curto espaço de tempo, alguém pode se sentir tão diferente? Ninguém nasce só uma vez ― nem mesmo a morte detém a unicidade, pois é um completo mistério. Mas é como se ao longo da vida ― e deve-se sublinhar esta palavra, vida ― fosse ocorrendo uma espécie de negociação entre vida e morte: a cada etapa de renovação (renascimento) que uma pessoa experimenta, alguma coisa nela morreu. E por isso, às vezes, a vaga sensação de estranhamento, diante, por exemplo, da imagem que o espelho oferece, ou de uma fotografia que de repente parece antiga.

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