Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

longe da inocência

Com as palavras, todo o cuidado é pouco ― com as pessoas também. Atentando-se ao primeiro, o segundo estará assegurado? Ou o segundo afeta a performance do primeiro? Se não há lisura na linguagem, por que ela, ao ser empregada pelas pessoas, estaria imune a suspeitas?

4 comentários:

Jamil P. disse...

Nem sempre. O Eco diz, p.ex., que é comum termos em mente escrever uma coisa, colocarmos no papel outra, que, por sua vez, será entendida com um terceiro significado pelo leitor.
Agora mesmo pode estar acontecendo isso.
Mas eu ainda tenho fé na linguagem humana e na comunicação.

Mariana disse...

Acho então que estamos dizendo a mesma coisa. Me recordo por alto de um texto lido recentemente, sobre o caráter metafórico da linguagem (deste livro, na verdade uma compilação de artigos, "Metáforas do cotidiano", http://www.estantevirtual.com.br/barracadoslivros/Organizadora-Vera-Lucia-Menezes-de-Oliveira-Paiva-Metaforas-do-Cotidiano-66133699), em que se dizia algo sobre a incomunicabilidade profunda do que cada um pensa, sente, vive, é...

Tenho comigo que cada um é o modo com que se relaciona com a linguagem: não apenas o que diz, mas principalmente o modo, o contexto em que diz. Por isso a psicanálise continua tão importante na vida das pessoas. Como naquele conto-ensaio da Clarice, "Menino a bico de pena", acerca (mas cada um interpretará de um modo) da entrada no simbólico:

"Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos?" (Felicidade clandestina, 1998, p.136)

Mas: "O próprio menino ajudará na sua domesticação: ele é esforçado e coopera."

Por falar em cooperação, eu gostaria de agradecer, Jamil, a sua interlocução. Este espaço é das coisas mais importantes para mim, e por isso titubeio quando ao destino dele.

Eu também tenho fé na linguagem humana, mas sou mais reticente quando ao que efetivamente cada um consegue comunicar de si, afinal...

Jamil P. disse...

me permite dois 'por falar'?

por falar em metáfora, seu comentário - aliás, agradeço a indicação do livro, fiquei interessado - você me fez lembrar de um ótimo livro que comecei a ler depois, mas tive que interromper e depois não retomei: 'a metáfora em fernando pessoa' de maria da glória padrão;

por falar em clarice, outro dia estava na livraria cultura e vi um livro que, provavelmente você conhece e tem - aliás, pensei em você enquanto o folheava - mas, se não, acho que deveria pensar em adquiri-lo, pois me parece uma obra referencial para os leitores/entusiastas/estudiosos dela: 'figuras da escrita - clarice lispector' de carlos mendes de sousa;

bom, era só isso;
também agradeço a interlocução,
ou 'entre loucos somos' (<- não sei por que inventei isso agora, mas gostei)
;*

Mariana disse...

Vou pular toda a parte intelectual (aliás, obrigada pela lembrança em pleno templo da Cultura) para ficar com o inusitado, criativo e sagaz 'entre loucos somos'. Um ótimo trocadilho que poderia sintetizar o post e comentários.

Também gostei!

:)