Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 16 de setembro de 2012

rituais

Minha polidez foi esculpida sobre material resistente. Daí, amiúde, a sensação de que ela é frágil e precisa de atenção constante. Não que eu seja artificialmente educada. A educação é sempre um artifício, uma batalha que se trava contra o corpo e a natureza. É que não domino todos os traquejos das pessoas ditas civilizadas e, ao primeiro vinho, a franqueza inadvertidamente, sem querer, por vezes transborda. A vida é feita de rituais, e a civilização é apenas um deles. Ou terá sido construída sobre o recalque de outros rituais, a ponto de ter-se a impressão de vivermos uma vida desritualizada?

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