Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

dois meninos - Clarice Lispector

― Mas agora vamos brincar de outra coisa. Quero saber se o senhor é inteligente. Este quadro é concreto ou abstrato?
― Abstrato.
― Pois o senhor é burro. É concreto: fui eu que pintei, e pintei nele meus sentimentos e meus sentimentos são concretos.
― É, mas você não é todo concreto.
― Sou sim!
― Não é! Você não é todo concreto porque seu medo não é concreto. Você não é completamente concreto, só um pouco.
― Eu sou um gênio e acho que tudo é concreto.
― Ah, eu não sabia que o senhor é um pintor famoso.
― Sou. Meu nome é Bergman. Maurício Bergman, sou sueco e sou um gênio. Nota-se pela minha fisionomia, olhe: eu sofro! Agora quero saber se o senhor entende de pintura. Aquele quadro é concreto?
― É, porque se vê logo que é um mapa, pelas linhas.
― Ah, ééé? e aquele?
― Abstrato.
― Errado! Então aquele também tinha que ser concreto porque também tem linhas.
― Vou explicar ao senhor o que é concreto, é...
― ... está errado.
― Por quê?
― Por que eu não entendo. Quando eu não entendo, é porque você está errado. E agora quero saber: isto é compreto?
― O senhor quer dizer concreto.
― Não, é compreto mesmo. É porque sou um gênio e todo gênio tem que pelo menos inventar uma coisa. Eu inventei a palavra compreto. Música é compreta?
― Acho que é, porque a gente ouve, sente pelos ouvidos.
― Ah, mas o senhor não pode desenhar!
― O senhor acha que o teto é concreto?
― É.
― Mas se eu virasse essa parede e botasse ela na posição do teto, ela ia ficar uma parede-teto, e essa parede-teto ia ser concreta?
― Acho que talvez. Fantasma é concreto?
― Qual? O de lençóis?
― Não, o que existe.
― Bem... Bem, seria supostamente concreto.
― Mas é concreto ou abstrato?
― Concreto, é claro, que burrice.
No quarto ao lado a mãe parou de coser, ficou com as mãos imóveis no colo, inclinando um coração que este batia todo concreto.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.432-433.

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