Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 8 de junho de 2013

a semana de um intolerante

7 comentários:

sonia disse...

se a semana tivesse oito dias haveria um cartaz: "incendiar dentistas".

Mariana disse...

O que estive pensando é que parece estar acontecendo uma onda de sadismo alimentada pela própria mídia: o primeiro caso chocou extremamente; o segundo já parece cair na banalidade da violência habitual. Houve um terceiro caso esta noite.

Tem um livro que uma hora dessas gostaria de ler, A banalidade do mal, da Hannah Arendt.

sonia disse...

Reparei que há uma atração por copiar estilos, até no crime. Precisa-se estar na "moda" mesmo na perversidade. É o fim do mundo, até criminoso prefere um caminho já percorrido por outros...

O livro da Hannah Arendt deve ser bom, o tema é para quem conhece bem a alma humana.

Beijos, saudades,
Sônia

sonia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana disse...

Isso vale também para a onda de estupros, por exemplo. É como seu um desse a "ideia" e então outros, vendo a punição, resolvessem desafiar a lei e mostrar que o crime é mais forte, mais potente.

Um código perverso, à revelia das tentativas de estabelecer uma vida social minimamente aceitável. Mas quem está tentando estabelecê-la? As autoridades, no fundo, são cúmplices de alguma forma do que está acontecendo, porque o crime e a contravenção parecem querer desafiá-las o tempo todo, como se estivéssemos vivendo uma guerra invisível pelo poder.

Se o Estado, com todos os recursos que possui, não consegue vencer essa guerra e proteger a sociedade, é porque de alguma forma ele faz está fazendo parte do crime, da contravenção, inclusive lucrando.

Então é bem mais perverso que nossas piores fantasias acerca do que está realmente se passando em nosso país. Eu tento não ser muito pessimista, mas acho que tem qualquer coisa de apocalipse no ar, acontecendo.

Saudades também.

Abraços.

sonia disse...

ao acaso navegava na net e achei esse texto que mando a vc

Os piores crimes são cometidos por funcionários diligentes que não fazem mais nada que cumprir ordens de forma acéfala. Vale para a guerra como para a austeridade
Numa das mais célebres experiências de sempre da psicologia social, pensada pelo psicólogo Stanley Milgram, tentou-se analisar os mecanismos da autoridade e entender as razões que levaram tanta gente a obedecer a ordens que provocaram o massacre de milhões de pessoas durante o nazismo.


A chamada experiência de Milgram começou em Julho de 1961, três meses depois de começar o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. O dispositivo era simples: uma universidade angaria voluntários para um suposto estudo sobre o papel dos castigos na aprendizagem. Na sala está um cientista, um suposto voluntário a responder a perguntas, e a pessoa que realmente se sujeita à experiência tem como missão carregar num botão. Os dois primeiros são intervenientes combinados. Quando o “aluno” da cadeira falha uma resposta, o voluntário e sujeito da experiência recebe instruções para carregar num botão que provocaria um choque eléctrico. Os choques são supostamente crescentes com cada nova resposta errada, até níveis que, a serem verdade, poriam em perigo de vida o aluno. Este berra e finge desmaiar. Perante as dúvidas da pessoa que pressiona o botão, o alegado cientista, vestido com uma impecável bata branca, diz de uma forma fria: “A experiência deve continuar.” Perante o cenário, em que por causa de um estudo académico uma pessoa estaria a ser electrocutada até à morte, a maioria continua a executar as ordens do cientista de uma forma quase automática. São muito poucos aqueles que se insurgem e se recusam a provocar os choques eléctricos.


Ontem tive o privilégio de ver o filme sobre Hannah Arendt e o caso Eichmann. Para escândalo de muitos, a filósofa judia chega à conclusão que Eichmann era um homem normal. E que não existe um mal radical, ligado a uma anormalidade maléfica e tenebrosa; o mal é sempre excessivo, mas o dos nazis, como o responsável pelo programa de transporte dos judeus para os campos de concentração, é um mal feito por um funcionário burocrático mesquinho e cumpridor de ordens. Segundo Arendt, a Eichmann “nunca ocorreu fazer o mal como princípio, como a Ricardo III. Tirando o seu interesse extraordinário pela sua carreira, não tinha nenhum móbil, e o carreirismo não é um crime. Não teria certamente assassinado o seu superior para lhe ficar com o lugar. Simplesmente nunca lhe passaram pela cabeça as consequências daquilo que fez...” O mal feito era um mal banal, cumprido por funcionários diligentes em horário de expediente. As reacções ao texto de Hannah Arendt foram violentas porque as suas conclusões são muito mais assustadoras: o mal não é feito por seres diabólicos de excepção, é executado por pessoas comuns que no fim do dia vão cuidar dos filhos.


Para Hannah Arendt o mal não era radical, era excessivo. Ao qual tinha de se opor um bem radical para o conseguir travar. Uma desobediência que pudesse romper a textura do respeitinho e dos pequenos poderes. E isso vale para os dias de hoje. Quando aqueles que nas suas folhinhas de Excel calculam os cortes sem ver que ceifam vidas, é preciso que alguém lhes desobedeça. Eles dizem para seu sossego que não fazem mais que cumprir ordens de alguém, seja a troika seja um grande outro qualquer. Mas aquilo que fazem é espalhar um mal embebido na normalidade de quem cumpre ordens burocráticas, como se fosse uma praga de cogumelos, como exemplificava Arendt. É preciso opor-lhes o pensamento. E isso custa mais que obedecer. Mas só isso faz a diferença.

Editor-executivo
Escreve à terça-feira


Mariana disse...

Oi, Sônia, não pude lar o texto ainda, por falta de tempo, mas de qualquer forma obrigada.

Se bem que a própria semana se encarregou de ser o comentário disso tudo: bastaria trocar o título do cartum por "uma semana de intolerância". Desde que me entendo por adulta, politicamente falando, num vi esse país tão perdido.

Abraço.