Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 24 de novembro de 2013

"O homem atropela o que é mais frágil que ele"

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.”

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453-454.

5 comentários:

sonia disse...

Se não me engano coloquei esse texto em meu blog há algum tempo, por gostar demais. Ela é o máximo. A única pessoa com a qual eu faria uma terapia.

Mariana disse...

Sônia, imagino que uma sessão de terapia com a Maria Rita Kehl seja caríssima, psicologicamente eu não suportaria pagar tanto por uma escuta...

sonia disse...

Nem me arriscaria a perguntar o preço. Só se ela garantisse que apenas uma sessão bastaria, o que é praticamente impossível, mas com uma amiga minha aconteceu isso em relação a um terapeuta que a atendeu. Numa só sessão caiu a ficha e ela saiu leve livre e solta da sala. Infelizmente essa amiga morreu cedo, com 31 anos, de câncer.

sonia disse...

Estou tentando fazer um comentário aqui mas sem sucesso. Vou desistir. Só falta agora dar certo com esse comentário sem conteúdo.. :)

Mariana disse...

Sônia, ia acrescentar que financeiramente também não suportaria. Em geral eles não cobram a primeira sessão, da entrevista. Mas quanto maior a fama, maior o valor.

Acho que essa questão da delicadeza é muito importante, principalmente considerando o país em que vivemos.

A escuta psicanalítica é uma saída. A outra é a arte.