Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

destino

Uma fantasia qualquer me faz imaginar que um dia farei uma viagem à Grécia, e passarei por aquelas simpáticas costas com casas brancas, que devem ofuscar a vista pelo tanto de luz que refletem. É um destino turístico que promete qualquer coisa como paz, descanso e tranquilidade — sem adjetivos gregos. Naturalmente, há bovarismo neste post, assim como em planos de viagem.

10 comentários:

Jamil P. disse...

por que lhe parece tão distante uma tal viagem?

Mariana disse...

boa pergunta; certamente preciso vencer meu medo de avião...

Jamil P. disse...

hum, talvez andar de ônibus no rio seja mais perigoso...

Mariana disse...

pois é, concordo, mas o medo tem qualquer coisa de irracional que perturba; sei que isso poderá soar clichê, o que não impede, em absoluto, de projetar essa e outras viagens no horizonte das possibilidades.

Jamil P. disse...

e tem mais: você pode não subir no avião de medo, ok, mas ele também pode cair na sua cabeça (deus me livre guarde, só estou exemplificando, hehe), o que, no final das contas, dá na mesma, percebe? mais ou menos como naquele filmeco... como se chama mesmo? premonição? acho que é isso. enfim, quando tem que acontecer...

Mariana disse...

não assisti "Premonição" ou outros afins, justamente porque também tenho medo; no fundo, esse sentimento, onde quer que apareça no meu caso, parece ter o seguinte mecanismo: roteiros que transformam o mundo objetivo em situações imprevisíveis. então trata-se de uma dificuldade de lidar com o que "sai do roteiro", ou com o fato de que não dá para prever o roteiro, então se fica tentando apreender suas leis ou regras, por mais subjacentes e implícitas que sejam. tudo isso pode parecer uma especulação nonsense, e de fato é a primeira vez que estou "teorizando" sobre meus medos; desde menina tive certos medos, e altura era um deles (o outro eram as baratas). minha mãe explica da seguinte forma: sou a filha mais velha, e quando estava grávida de mim, tudo era muito novo para ela (a casa, o lugar meio afastado na roça onde morávamos, a distância dos vizinhos, os próprios vizinhos), de forma que ela tomava muitos sustos; de alguma forma isso me afetou, porque tenho facilidade de me assustar (e verdadeiro pavor de baratas); há mecanismos psicológicos que remontam ao período de gestação, à época da gravidez. sei que isso pode ser tratado em análise, mas esta também tem seu tempo próprio, e outras questões acabam surgindo. em adição, sempre me percebi uma criatura crédula, sugestionável, e isso representa um predomínio do irracional sobre o racional (a capacidade de criticar, duvidar), embora eu seja, talvez como uma compensação, bastante reticente... e, como vou dizer?, arisca.

essa expressão que você usa, "quando tem que acontecer", lança questões intrigantes sobre o tempo e nossa capacidade de mudar o rumo das coisas, um pouco como aquela coisa do "efeito borboleta". isso acontece, no nível material estamos o tempo todo agindo (e sendo agidos) sobre o movimento do mundo, o que remete ao filme que você me indicou...

Jamil P. disse...

verdade, mariana, bem observada essa relação entre o curta que sugeri e a questão do script da vida, suas contingências etc;
você de um lado é parecidíssima então com a minha gata hannah, que se assusta por qualquer coisa, tadinha; acho que tem um pouco a ver também com a infância dela, pois quando a resgatei das ruas ela devia ter somente umas três ou 4 semanas de vida e estava completamente abandonada, faminta, cheia de pulgas/vermes, lutando pela sobrevivência diante de tantas ameaças urbanas; mas por outro lado ela adora baratas, lagartixas e outros bichinhos, ao contrário de você; é o instinto animal dela de caçadora :)

Mariana disse...

:)

sou obrigada a concordar com o paralelo entre mim e a hannah: agora há pouco, subindo no elevador, este simplesmente parou entre um andar e outro, e abriu a porta para a parede. soltei um grito, pois parecia mesmo uma daquelas cenas de filme de terror. depois desci na portaria e registrei a pane no livro de ocorrências.

Jamil P. disse...

ufa, ainda bem que tudo acabou bem, aguenta coração!

fiquei imaginando sua expressão assim (ou quase isso, houvesse uma barata na parede...)
http://www.imdb.com/media/rm3584208896/tt0054215?ref_=ttmd_md_pv

Mariana disse...

:)