Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Raimundo Correia

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Roteiro da poesia brasileira: Parnasianismo. São Paulo: Global, 2006, p.32-33.

6 comentários:

Jamil P. disse...

um dos meus sonetos favoritos, desde 1998

Mariana disse...

Por que 1998 (se eu não estiver sendo indiscreta)?

Jamil P. disse...

é que antes eu não o conhecia ainda, só por isso ;)

a propósito, nesse mesmo ano conheci o ivan junqueira, outro escritor de quem sou muito fã

Mariana disse...

O Ivan eu conheço mais como tradutor...

Jamil P. disse...

acho todo texto dele da mais alta qualidade; fico de certa forma surpreso em observar que ele é pouco conhecido e prestigiado pelo público em geral

aqui tem alguns textos http://www.jornaldepoesia.jor.br/ivan.html
seu discurso de posse na abl: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=656&sid=338

Mariana disse...

pois é, acho que a gente, em matéria de poesia e literatura de maneira geral, vai sempre estar em falta com alguém...