Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Armando Freitas Filho

MARÇO

O verão ainda atira
com todos os canhões:
chumbo, céu e chão
e as chuvas não quebram
o teto do ar livre
de um negro tão preto
que só pensando
num branco absoluto
para obtê-lo, sem nuvens
para registro nesta folha
enquanto um rio que não molha
mas agulha
passa e arrepia tudo
com suas águas que são pontas
― pregos ― por favor
não olhe o que só quer sofrer
a seco, sem lágrimas.

FREITAS FILHO, Armando. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.449-450.

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