Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
sábado, 8 de agosto de 2015
política e corrupção (existe diferença entre as duas no Brasil?)
“Quando
temos um câncer na presidência da Câmara, que não tem nenhuma responsabilidade
com o orçamento e a recuperação do país, nós temos o fim da política.” José Arthur Gianotti (aqui)
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
narrativa da crise
Os principais veículos de comunicação do país parecem
de acordo no objetivo de criar um clima de incerteza, alarmismo e pânico. Nunca
eu entendi tanto como agora os meandros (sujos) do poder no Brasil. E esse
entendimento faz mal, atordoa, entristece, deprime. Mais grave que os políticos e seus interesses
sórdidos é o modo como os caciques e os blocos partidários estão disputando
entre si o poder de deter e conduzir a narrativa da crise, espetacularizando a
própria atuação. Estão atirando no pé — da democracia.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
...que seria do amarelo?
Sou essencialmente melancólica — a vida me parece
quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso
de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem
graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O
alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do
amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma
comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da
ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve
ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado
escrevendo isso, pilheriando com o leitor.
quarta à noite
Na quarta, bar ótimo, cerveja boa e amigos dando show
de interpretação de “Heart of Gold”. Nem tudo é notícia ruim — e o bar fica
perto de casa.
terça-feira, 28 de julho de 2015
oitavo andar
Moro no oitavo andar, como diz a música. Na verdade,
contando o play e os dois pisos de garagem, moro no 11º. Trata-se de imóvel
alugado, cujo contrato, recentemente renovado, encerra-se em 2017. Como o condomínio
do prédio deixa muito a desejar, impõe-se, quando o contrato encerrar, procurar
outro imóvel, maior de preferência. Também alugado. E de novo em andar alto. A maré econômica não está dando trégua, e torna-se remota a hipótese de financiar
um imóvel — as condições (entrada e juros) pegaram o elevador da crise, resposta para quase tudo que está
ruim no país. Aos bancos e aos graúdos que estão no comando da economia do país não
interessa que o brasileiro comum tenha condições facilitadas, humanas, de adquirir
um imóvel. Então se aluga um. De mais a mais, a que (ou a quem) ainda serve o
sonho da casa própria? Que mito se esconde aí? Talvez o de poder bater um prego
na parede sem ter que explicá-lo (depois). Ao diabo todos os proprietários de
imóvel, que impõem, mediante o disfarce da lei, condições azedas a quem
simplesmente quer morar em paz, pagando em dia por isso. Ao diabo.
sábado, 25 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
fármacos
Uns tomam remédio para pressão, outros para depressão.
Felizmente ainda não preciso tomar os dois. Mas essa noite, quanto sonho ruim!
sábado, 11 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
terça-feira, 7 de julho de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
sábado, 16 de maio de 2015
Cecília Meireles
CANÇÃO DE ALTA NOITE
Alta noite, lua quieta,
muros finos, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não precisa de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
não necessita de sono.
Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.
MEIRELES, Cecília. Antologia
Poética. São Paulo: Global, 2013, p.42.
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