Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
sábado, 16 de maio de 2015
Cecília Meireles
CANÇÃO DE ALTA NOITE
Alta noite, lua quieta,
muros finos, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não precisa de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
não necessita de sono.
Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.
MEIRELES, Cecília. Antologia
Poética. São Paulo: Global, 2013, p.42.
terça-feira, 5 de maio de 2015
sexta-feira, 1 de maio de 2015
vinho
A vida tem qualquer coisa de cansaço, repetição,
monotonia. O jeito é beber vinho, não muito vulgar.
insignificância
"Agora,
a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de
então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é
a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está
presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas,
nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em
condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de
reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la.
Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda
a evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza.
Como você mesmo disse: a animação perfeita...e completamente inútil, as
crianças rindo...sem saber por quê, não é lindo? Respire, D'ardelo, meu amigo,
respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a
chave do bom humor..." (Kundera in A festa da insignificância)
quarta-feira, 22 de abril de 2015
domingo, 19 de abril de 2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Julio Cortázar
DISCURSO DO URSO
Eu sou o urso dos
canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos tubos de água
quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de apartamento em
apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho que gostam de
mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro incessantemente pelos tubos
e do que eu mais gosto é passar de andar em andar escorregando pelos canos. Às
vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro andar berra que se queimou,
ou grunho na altura do forro do segundo andar e a cozinheira Guillermina se
queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e é quando ando mais
depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua está dançando lá em
cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras do porão. E no verão
nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o rosto primeiro com uma
mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma alegria muito grande.
Então escorrego por
todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam em seus leitos
e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem a luz e
escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o porteiro. Eu
procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto o nariz e
espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem andar pelos
canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de escutar como
roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o rosto de
manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora, vagamente
convencido de ter feito um bem.
CORTÁZAR,
Julio. Histórias de cronópios e de famas.
Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,
p. 81-82.
monotonia
O principal canal de notícias do país interrompe a
programação para, mais uma vez, transmitir ao vivo mais um depoimento de mais
uma CPI. Somos todos convertidos em policiais, investigadores, nessa operação.
Me recuso a ficar assistindo a essa teatralização da moralidade vigente. Pontos na audiência, adeptos na plateia.
A televisão coloca o telespectador diretamente no ambiente de um tribunal.
Todos atiram suas farpas e xingamentos contra o réu da vez. E assim, como disse
um cantor, nos tornamos brasileiros.
sábado, 4 de abril de 2015
O abandono
Há coisas fáceis de abandonar: um blog, uma conta em
rede social, uma roupa usada, um livro, até mesmo uma profissão. Uma pessoa
pode abandonar também suas convicções, quando estas se mostram inúteis ou
perdem a relevância. É possível abandonar pessoas — vale dizer, afetos — em
relações de diferentes matizes, quando essas pessoas ou relações já não nos
dizem nada, ou fazem mal. Mas será possível abandonar um ódio profundo, mortal?
A fé em um deus pode ser abandonada sem consequências? Dito de outra forma: o
ódio, a fé podem ser mais fortes que o desejo de abandoná-los? Se sim, na
verdade são eles que não nos abandonam.
domingo, 29 de março de 2015
Herberto Helder
A poesia
também pode ser isso:
a dor com
que não durmo lavrado completamente
íngremes
laborações dos aerólitos — e então um pingo de ouro nos
recessos
do cérebro. Que
fosse a aparição contínua. Pode ser o inventário do
sono pode
no casulo
desdobrado quando a seda.
(...)
Herberto Helder. Ou o poema contínuo. São Paulo: A
Girafa, 2006, p.457.
domingo, 22 de março de 2015
sem álibi
Pratiquei
umas três boas ações ontem, duas delas inadvertidamente (na falta de termo melhor). O mesmo
deve valer para o mal que pratico.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Benfica
Com frequência as entregas dos Correios têm atrasado. Elas chegam
à Unidade Operacional de Benfica e lá ficam.
terça-feira, 10 de março de 2015
um país horrível
Um país que xinga uma mulher do que a presidente
Dilma foi xingada no domingo, e em pleno Dia Internacional da Mulher... esse
país tem esperança?
golpe em curso
“Existe um costume no Brasil de chamar de opinião pública o que é opinião publicada." (colhido em algum canto da internet)
domingo, 8 de março de 2015
sábado, 7 de março de 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
que país é esse...
Só por força de expressão e hábito nossos
representantes em Brasília podem ser chamados de “nossos”. Abertamente e sem
qualquer rebuço ou constrangimento, legislam em causa própria, brigam feito
galos em rinha o tempo todo pelo poder, que se torna o condutor único de sua
ação, uma causa em si. Os presidentes da Câmara e do Senado representam “apenas”
(mas isso diz tudo) o que essas duas casas se tornaram — de forma alguma os
eleitores, a nação, aqueles que lá os colocaram para... Para que mesmo?
Assinar:
Postagens (Atom)