Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 10 de março de 2015

um país horrível

Um país que xinga uma mulher do que a presidente Dilma foi xingada no domingo, e em pleno Dia Internacional da Mulher... esse país tem esperança?

9 comentários:

sonia disse...

Considero o que houve como um auto-xingamento, por ter votado na dilmanta 2 x

Jamil P. disse...

acho que chamá-la de imbecil, cretina, incompetente, mentirosa, safada e afins não tem problema; além disso, realmente já seria desrespeito e falta de educação

mas, de fato, este país não tem esperança alguma, se não recomeçar do zero

Mariana disse...

pois é: os xingamentos que vão além (como "vaca", "vagabunda", "puta") refletem uma postura misógina, de profundo desrespeito à figura da mulher; fosse um presidente no lugar, ficaríamos no "cretino", "hipócrita", "ladrão", "mentiroso" e afins.

isso mostra que se nossos representantes têm problemas, são corruptos e mesquinhos, quem os colocou lá não parece melhor, porque desconhece regrinhas e normas básicas da civilização; foi Fernando Pessoa quem disse que a demonstração máxima de ausência de civilização era a incapacidade de/para a ironia: o eleitor que xinga a presidente com tais adjetivos é mais estúpido que os políticos que ele pensa ter eleito com seu "honesto" voto.

e, sinceramente, acho que se alguém resolvesse baixar um AI qualquer e fechasse esse congresso, faria um bem enorme ao país.

Jamil P. disse...

subscrevo na íntegra; muito embora fechar o congresso acho que não seja a solução, na linha do que disse anteriormente: é preciso uma reforma radical da mente e do espírito da sociedade brasileira, algo que levaria muitas décadas, quiçá séculos; não sei, talvez um cataclismo ou qualquer outra grande tragédia que trouxesse muito sofrimento, que fosse capaz de unir as pessoas etc, talvez isso pudesse acelerar o processo civilizatório e a construção de valores importantes e perenes; tenho a impressão de que o povo está à espera de um líder que possa levar essa reforma adiante, até pela nosso passado monárquico ou ditatorial de depositar a fé num homem, um grande orador, carismático etc, uma espécie de messias, um salvador da pátria, etc, mais ou menos como aconteceu com o collor; só que esse ser messiânico não existe fora da mentalidade sentimental e romântica do povo... enfim

Mariana disse...

é uma possibilidade, estamos mesmo à deriva...

infelizmente, parece que a mídia mais penetrante está implantando chips de opinião na cabeça dos telespectadores, e forma-se então uma massa de inconformados e revoltados clamando por "Justiça" e pedindo a cabeça da presidente, um filme sem qualquer originalidade.

alguém já disse que há qualquer coisa no ar além dos aviões da panair: há muita coisa no ar, capitalizada pela mídia espertinha.

Mariana disse...

PS: mídia "penetrante" não foi um elogio.

Jamil P. disse...

sem dúvida, mas é difícil mensurar o papel da mídia em todo esse processo; claro que ela tem sua importância, ao informar o cidadão, disso e daquilo, nesse ou naquele sentido, etc; inclusive alguns veículos, da situação ou da oposição, claramente visam insuflar as massas etc; essa atuação da mídia, a que você chama atenção, com propriedade, vejo-a apenas como um dos fatores deflagadores dessa insatisfação de muitos, de manifestações etc; o fator principal, creio eu, é o proceder equivocado, para dizer o mínimo, do governo, do congresso e, por que não?, dos próprios eleitores, cada um com sua parcela de culpa

Mariana disse...

mas esse proceder equivocado não será extirpado com degolas; depende de um aprendizado coletivo, em que a nação parece estar ainda engatinhando.

Jamil P. disse...

sim, concordo, principalmente se com degola você se refere a impeachment; embora eu seja da opinião de que figuras como collor, lula e outros do mesmo naipe já deveriam ter sido banidos da política e da vida púbica há muito tempo