Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 1 de agosto de 2010

bovarismo

"Emma Bovary c'est moi". Esse dito célebre de Flaubert foi repetido à exaustão. A personagem de Emma Bovary foi tão bem pensada que deu origem a um substantivo, "bovarismo", assim definido pelo dicionário: "s.m. (1923) 1 tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem 1.1 p.ext. faculdade que tem o ser humano de se conceber diferente do que é. ETIM fr. bovarysme, orig. grafado bovarrisme (1865), de Madame Bovary, personagem de G. Flaubert (escritor francês, 1821-1880)." Bovarismo é o equivalente romântico de "quixotesco" (o que não tem nada a ver com a classificação de Madame Bovary como obra realista; em seu fundamento, o texto é romântico). Mas a conversa aqui é outra: numa roda recente, alguém saiu com uma pergunta assaz curiosa: "Você preferia ter sua vida contada por José de Alencar ou Machado de Assis?". Machado de Assis, evidente. Outras duplas equivalentes foram propostas, não me lembro mais quais, mas certamente, se me fosse concedido o luxo de escolher um romancista para contar minha vida, esse romancista seria Gustave Flaubert. Poucas obras me deram mais prazer que Madame Bovary. Fiquei com a impressão de que estava diante de uma dicção literária que beirava a perfeição. Tenho inclusive medo de reler e não confirmar essa impressão. E aqui retomo o dito que abre esse texto: "Emma Bovary c'est moi". Todos trazem, em algum momento da vida, uma Emma Bovary dentro de si, no sentido do inevitável conflito entre as leituras românticas, que impelem para a fantasia, e a realidade, que chama para o chão (na falta de termo melhor). Madame Bovary é uma obra no limiar entre o romantismo e o realismo, ela problematizou ambos. Infelizmente, não me sinto capaz de aprofundar essa discussão, mas isso pouco importa. O que quero frisar é o alcance da obra em termos da encenação de conflitos que transcendem o século XIX: a fantasia das leituras leva para um lado; o mundo, que precisa ser fantasiado, leva para outro. Nesse terreno resvaloso nos movemos. Nem é preciso lembrar o conto Fita Verde no cabelo, de Guimarães Rosa, que tem como subtítulo (nova velha estória), postado neste blog. E que agosto seja bem-vindo.

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