Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 19 de dezembro de 2010

as margens da alegria

É simples: novembro me foi tão, mas tão difícil, infernal mesmo (só quem já andou rondando o inferno sabe o alcance dessa palavra, inclusive pelo arbítrio do que vem sem ter sido provocado, pelo menos num grau consciente), que ontem, quando me peguei  alegre, diante da trilha sonora da minha adolescência (mas era outra coisa também), eu de súbito entendi: acabou. Obviamente que uma mudança se deu: ninguém volta o mesmo dessas incursões aos confins sabe-se lá de que. A alegria que senti era tão certa, tão minha, que só fui dar por ela quando algo inusitado aconteceu, mas que não deixava dúvida de que se tratava dela, da alegria. Então eu já sei: vai-se ao inferno, mas dele se retorna. Já voltei de outros. Vou guardar a senha para a próxima incursão. Como não lembrar do belíssimo final de "As margens da alegria", conto que abre as Primeiras estórias de Guimarães Rosa? 

Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim era lindo! ― tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria.

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