Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

por enquanto é tempo de morangos

"Vou-me embora, pensou: a estrada é longa.
Tocou então o próprio corpo. Uma glória interior, foi assim que batizou solene, infinitamente delicado, quando ela brotou. Arpejo, foi o que lhe ocorreu, ridículo complacente, cor-nu-có-pia soletrou, quero um instante assim barroco, desejou. Mas vestido de amarelo como estava, visto de costas contra o céu, supondo uma câmara cinematográfica colocada aqui na porta desta sala o enquadrasse agora pareceria quase bizantino, ouro sobre azul, magreza mística, que tinha sua cultura, sua leitura.

ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. ___. Morangos mofados. 9.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.152.

2 comentários:

Jamil P. disse...

Na falta de morangos silvestres, servem morangos mofados, né?

;*

Mariana disse...

Jamil, este conto do Caio é das coisas mais difíceis e intensas que ele escreveu, começando por uma epígrafe de Strawberry Fields Forever, num profundo desejo de renovação em que o corpo possa prescindir de aditivos e se suster, e nem sei mais o quê, que a intensidade dessas coisas é difícil de exprimir.

É uma profunda afirmação da vida, ele no final consegue encontrar os "frescos morangos vermelhos vivos", enfim, o cogumelo que há muito ele procurava, e que não está mais no passado (Alice é uma das personagens do texto, e o narrador faz alusão a um cogumelo destrutivo, a bomba atômica). Um sim profundamente afirmativo. Ao final da leitura, sente-se que o ficcionista escreveu uma história de transformação íntima como a dizer, é possível.

Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone

http://www.youtube.com/watch?v=HTXyoPVOUso

Bem, eu li Alice recentemente, li outras coisas, então talvez seja o caso de comprar esse filme do Bergman. Abraço.