Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

a roupa suja da vida

Enquanto tomava banho e repassava a difícil semana, as idas e vindas a médicos nos últimos dias, me ocorreu que a linguagem é inseparável do que sou (e não sou), e portanto dos problemas de saúde que tenha ou venha a ter. A linguagem ― a escrita ― é uma forma de expurgar males orgânicos, e então duas coisas aconteceram concomitantes: ao dirigir-me à máquina de lavar para deixar uma peça de roupa, insensivelmente caminhei para a lixeira da cozinha e abri-a, e só então me dei conta do que estava fazendo, e recordei no átimo uma fala antiga, escutada de uma professora versada em atos falhos: relatava que uma moça, ao falar sobre jogar as roupas no cesto de roupa, teria dito: vontade de jogar todas essas roupas no cesto de lixo. Os problemas, quantas vezes, quando não se consegue lavá-los como uma roupa suja, que tentação, que vontade desfazer-se deles pelo cesto de lixo. Pelo menos ao escrever, não importa se lixo, eu estou me limpando um pouco mais por dentro, complementando o banho. Talvez haja formas mais elaboradas de fazer isso, mas a sintaxe também oprime.

12 comentários:

Helena disse...

Como eu compreendo isso, Mariana!

Abraço mais colorido que este princípio de Setembro

Mariana disse...

Somos seres de linguagem, cara Helena, e por isso sabemos que ela nos é cara, assim como a vida, que vamos pontuando pela linguagem.

Obrigada. Abraço!

Luiz disse...

Sempre achei que jogar coisas fora é um gesto saudável, livrar-se de coisas, pensamentos, parece ser o fluxo da vida. Faz parte de um processo de fortalecimento e significa se fortalecer. Um dia nós mesmo vamos ser jogados fora, é bom não esquecer disso. Beijos!

Mariana disse...

Isso é Nietzsche, né, a força que vem da faculdade de esquecer, que se faz por meio de gestos concretos. Para o dia de ser jogado fora, bem, às vezes me pego jogando coisas fora porque não quero que elas sobrevivam a mim. Sempre imaginei para mim uma existência com poucos apetrechos.

Beijos!

Luiz disse...

Sim, você foi no centro da questão, a força plástica do esquecimento, sem ficarmos presos aos objetos ou sentimentos negativos.

Mariana disse...

Luiz, você sabe que sempre aprendo com você. Beijo.

Tinzia Menezes disse...

Belo texto. Eu nunca tinha parado para pensar no quanto a sintaxe limita o poder libertador da expressão, sempre pensei na sintaxe como uma partitura de música: é a cifra necessária aos que desejam dominar o instrumento da linguagem humana.

Você falou em problemas de saúde... fiquei preocupada agora. Não sei se minha amizade será bem-vinda, mas gostaria que vc me adicionasse ao skype: tinziamenezes.

Um grande abraço e melhoras.

Mariana disse...

Tinzia, isso eu peguei do Graciliano Ramos, ele tem um trecho famoso a esse respeito, em Memórias do cárcere, essa noção da sintaxe como limitação, mas outros falaram disso também, da luta com as palavras (o Drummond, por exemplo). Eu já senti, quando estou escrevendo, essa coisa coercitiva: poderia dizer mais, mas uma inibição qualquer tira a expressividade...

Mas essa sua imagem da sintaxe como partitura é muito bonita, é assim mesmo. A música cada um vai compondo como consegue.

Olha, a oferta de amizade é muito bem-vinda, eu apenas preciso reabilitar meu skype, instalá-lo novamente. A questão da saúde parece não ser nada sério (isso eu fiquei sabendo depois de uma exaustiva semana de maratona de médicos e exames), mas foi um troço que me deixou um tanto abalada, a ponto de eu mesmo pensar em deixar a blogosfera.

Obrigada, querida. Outro abraço.

Marcantonio disse...

Mas, sem a sintaxe o que sobra, senão um mutismo barulhento? A liberdade de grunhir, de gritar, de expressar sem pejo, sem regras, seria a pior forma de opressão, a de não obter compreensão ou obtê-la de forma difusa, o que aumentaria ainda mais a nossa sensação de achatamento. E se voltarmos lá ao Pessoa não vamos encontrar a inibição como uma das condições essenciais da expressão, como se fosse a superfície de atrito essencial para que o rolamento não tombe para fora da mesa?
Ah, mas a imagem do lavar a roupa me lembrou da tal criação de uma alma nova. O que não é possível. Mas há uma diferença entre jogar fora, descartar e de certo modo perder, e lavar, que é semelhante a recuperar. Lavar seria como obter uma segunda chance, reencontrar um momento primordial, uma forma que já estava lá; o que é mais concorde com o nosso ser social. Jogar fora exigiria uma autonomia solipsista,uma escolha precisa, uma confiança de que nesses extravios não iria algo fundamental, uma quinquilharia qualquer que teria uma função de que não suspeitávamos, uma tarefa que ignorávamos. Seria como ter que escolher quem deveria ser jogado ao mar para que a embarcação se estabilizasse, tendo certeza de que essa não seria uma escolha arbitrária.
Tenho a impressão de estar falando de mim mesmo, que elaborei uma lista do que deveria jogar fora... de mim. Depois pensei: como poderia supor essa lista, se quando a elaboro sou eu mesmo inteiro que a faço? Resolvi acreditar que a nossa vida mental tem lá seus mecanismos de defesa, ocorrem inflamações, algo é expurgado sem que coisa alguma precise ser lancetada, pelo menos não da forma radical que supomos... Divago.

Abraço.

Acredite se quiser, mas depois que escrevi este comentário, faltou luz sem que eu tivesse tido tempo de publica-lo. Incrível sensação de perda. Mas quando a energia voltou, o navegador propunha a recuperação das páginas. Pronto, estava lá o que aparentemente havia se perdido, ou tinha sido posto fora. Estranha semelhança entre o inconsciente e o Google Chrome...

Mariana disse...

Prezado Marco, teria que voltar a noções antigas, mal arrebanhadas no curso de Letras, de língua e linguagem, para dar conta dessa questão. Meu aprendizado da sintaxe vem, por paradoxo, de extremos: como leitora, vida afora, de redações mal escritas, que atordoam qualquer professor que queira ensinar e não sabe o caminho; e como leitora das obras do século XX que afrontaram a sintaxe, até o limite do ilegível, como você bem sabe. Então é como frequentar o ilegível em seus extremos: o estético e o péssimo. Aprendi muito com Alcir Pécora: antes de estudar a retórica do Pe. Antonio Vieira, ele penou em torno de redações, e publicou um livro básico, essencial, sobre a questão, "Problemas de redação", que passa longe das publicações de redação técnica dos jornais, por exemplo. E aprendi muito com o estilo de Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, que foi um sujeito que frequentou o Surrealismo, para depois negá-lo. Bem, esta é uma parte da história.

Então, de forma alguma trata-se de negar a sintaxe, mas de reconhecer seus limites, alguma coisa que intuo vez ou outra quando estou escrevendo, como se pudesse dizer mais ali e não fosse possível. A Clarice Lispector tem um trecho em que fala dessa relação entre forma e conteúdo, que o conteúdo não precede a forma, como convencionalmente se acreditava, mas "luta por se formar". Então é alguma coisa que precisa furar a barreira da linguagem. No outro extremo, um criador como Kafka enfatizou, no meu entender, as barras da prisão chamada linguagem. Para Kafka o mundo era de tal forma desencantado que aquela sua linguagem, misto de naturalismo e absurdo, soterra o leitor: em Kafka o grito foi de fato sufocado na prisão da linguagem. Mas ele tomou de caneta e papel e contou isso.

Então, por exemplo, o que quis dizer com minha frase final, fundindo os verbos fazer e dizer, é que este post foi o post possível, uma forma aceitável, inclusive para quem escreve. Um reconhecimento, antes de tudo, da minha limitação.

Porque se "alguma coisa acontece no meu coração quando...", alguma coisa também acontece quando certas palavras são pronunciadas, a linguagem funde-se demais às esquinas da vida.

No mais, estamos de acordo. Apenas acho a compreensão menos comum do que se supõe. Lembrando o filme "Asas do Desejo" e Espinoza, os encontros são poucos. Esta passagem do Pessoa que você cita me escapa por completo agora, talvez nunca a tenha lido.

(continua...)

Mariana disse...

Por incrível que pareça, eu acredito nessa possibilidade de uma alma nova. Talvez seja um traço da minha inquietude. Não sei se o Pessoa estava falando em altas transcendências, aliás era difícil saber o que ele falava, mas já li coisas de tal modo epifânicas que sai delas outra, não era mais a mesma. Por exemplo, o conto "O espelho", de Primeiras estórias: o que busca aquele homem incansavelmente naquele espelho, sob a expressão "vera forma"? Uma transformação se dá ali. Em muitos outros textos transformações acontecem, então acho que sempre busquei na literatura essa alma nova, porque este pastiche de alma com que o capitalismo insiste me impregnar me ofende demais.

Bem, tudo o que você diz sobre o lavar, em vez de simplesmente descartar, é deveras interessante: porque a operação por excelência do capitalismo é o simples e puro descarte (tenho: logo existo), enquanto a outra operação é mais complexa e delicada, dá mais trabalho. De fato.

Por isso a alma nova: olha, uma vez escrevi um post mais ou menos assim: "toda vez que vou escrever alma o teclado se confunde e sai lama." Só isso. Está perdido por aí, nessa infinidade de posts inúteis, tentativa de ir colocando para fora.

Quem bom que a tecnologia conspirou a favor e o comentário pode ser recuperado, afinal há uma elaboração preciosa nele, e de fato seria uma perda, para o lado de cá também. O acaso conspirando a favor das palavras, da linguagem, do que nela cabe dizer, da vida.


Abraço.

Mariana disse...

PS. Marco, a propósito dessa coisa do "livrar-se", postei ano passado um fragmento de um estudioso da obra do Sérgio Buarque na época em que me afligia com o doutorado, não sabendo se escolhia a tese ou a saúde. Trata-se de um comentário do Tiago Lima Nicodemo sobre um aforismo de Goethe:

http://thmari.blogspot.com/2010/09/escrever-historia-e-modo-de-livrar-se.html

A sugestão entre pescoço e linguagem é muito forte, e na época eu lutava muito com a linguagem, com a escrita...

Abraço.