Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

QUE AS COISAS...

Que as coisas em seu porte
são efêmeras,
nós sabemos.
Retêm os jardins apenas as fragrâncias
de curto voo.
À luz da lua
escrutam amantes
a luz que não se vê.

No alaúde do peito
tosse e amor se revezam.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.262. Amor tussisque non celantur: provérbio latino. 

2 comentários:

Luiz disse...

Que poema maravilhoso. Poucas vezes li algo tão perfeito. Quero ler mais essa autora. Abraço!

Mariana disse...

Oi, Luiz. Descobri-a na coletânea do Moriconi, depois li uma entrevista dela sobre a poesia de Rilke, e aí não teve jeito. Abraço.