Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 26 de novembro de 2011

gato por lebre

Tornei-me o gato da lebre que me prometi. Gosto de escrever, preciso, e quando tiver aprendido já não terá mais importância a diferença entre gato e lebre. 

7 comentários:

Helena disse...

Excelente! Gosto de frases concisas e prenhes de significado e você consegue-o com facilidade.

O meu livro já chegou. Muito obrigada! Vou lê-lo neste fim de semana.
Também já tenho o seu aqui em casa. Vou colocá-lo no correio na próxima segunda feira.

Um enorme e carinhoso abraço, Mariana.

Mariana disse...

Helena, que bom que chegou! Espero que aprecie a poesia do Alexei. Boa leitura!

Obrigada pelo comentário, a escrita para mim é uma forma de felicidade. O tempo torna artigo obrigatório lidar com o gato que toda lebre traz em si. A propósito, a nossa Clarice Lispector escreveu uma crônica lapidar sobre o tema:

COMER GATO POR LEBRE

― Você já comeu gato por lebre? perguntaram-me devido a meu ar um pouco distraído
Respondi:
― Como gato por lebre a toda hora. Por tolice, por distração, por ignorância. E até às vezes por delicadeza: me oferecem gato e agradeço a falsa lebre, e quando a lebre mia, finjo que não ouvi. Porque sei que a mentira foi para me agradar. Mas não perdoo muito quando o motivo é de má-fé.
Mas a variedade do assunto está já exigindo uma enciclopédia. Por exemplo, quando o gato se imagina lebre. Já que se trata de gato profundamente insatisfeito com sua condição, então lido com a lebre dele: é direito do gato querer ser lebre.
E há casos em que o gato até quer ser gato mesmo, mas lebresse oblige, o que cansa muito.
Há também os que não querem admitir que gostam mesmo é de gato, obrigando-nos a achar que é lebre, e aceitamos só para poder comer em paz com tempos e costumes.
Num tratado sobre o assunto, um professor de melancolia diria que já serviu de lebre a muito gato ordinário. Um professor de irritação diria uma coisa que não se publica.
Tenho mesmo vergonha é quando não aceito lebre pensando que era gato. (Há um provérbio que diz: é melhor ser enganado por um amigo do que desconfiar dele.) É o preço da desconfiança.
Mas na verdade, quando aceito gato por lebre, o problema verdadeiro é de quem me ofereceu, pois meu erro foi apenas o de ser crédula.
Estou gostando de escrever isso. É que várias lebres andaram miando pelos telhados, e tive agora a oportunidade de miar de volta. Gato também é hidrófobo.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.534-435.

Mariana disse...

Ah, sim, Helena, ia me esquecendo: um abraço carinhoso para você também :)

Cristiano Marcell disse...

A escrita nos faz de gato e sapato!

Muita paz!!!

Mariana disse...

Quem não precisa dela?

Estou falando da paz, mas pode ser a escrita também.

Obrigada.

antonio cabrita disse...

bom dia mariana
pois entao o alexei (suponho que o bueno) tem livro novo? como se chama?
a mariana continua a parecer-me a centopeia que estaca cheia de d'uvidas quando lhe perguntam que pata mexe primeiro. não hesite, escreva, a chuva e os leitores agradecem-lhe. beijinho, António cabrita

Mariana disse...

oi, Antonio, muito obrigada pela gentileza do comentário: vou anotar :)

sobre o Alexei, respondi lá no seu blog.

outro beijinho.