Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

cinzas

Hoje, no calendário cristão, é dia de cinzas, quarta-feira de cinzas. Da infância remota, a lembrança do ritual de colocar um pequeno sinal de cinzas na testa, retiradas diretamente do fogão a lenha. E ao me recordar disso simbolicamente o ritual se repete ― basta conhecer uma história para obter seu efeito, disse Walter Benjamin. O que tenho aqui comigo não se confunde com as cinzas da infância, ou do tempo ― tenho a chama viva que me dá as cinzas de que preciso hoje.

PS. Em seu estudo sobre Walter Benjamin, Susana Lages transcreve a seguinte história, narrada por Gershom Scholem, como ele a teria ouvido de um outro escritor:

“Quando o Baal Schem tinha uma tarefa difícil à sua frente, ia a um certo lugar no bosque, fazia um fogo e meditava uma prece ― e o que decidia realizar era feito. Quando, uma geração depois, o Maguid de Mesritsch se deparava com a mesma tarefa, ia ao mesmo lugar no bosque e dizia: ‘Não sabemos mais acender o fogo, mas sabemos ainda proferir as preces’ ― e aquilo tudo se tornava realidade. Passada mais uma geração, o Rabi Moshé Leid de Sassov precisou executar a tarefa. Também foi ao bosque e disse: ‘Não sabemos mais acender o fogo, nem sabemos mais as meditações secretas pertencentes à prece, mas conhecemos o local no bosque a que tudo isso diz respeito – e deve ser suficiente’; e era suficiente. Mas passada outra geração, quando Rabi Israel de Rijin foi chamada a executar a tarefa, sentou-se em sua poltrona dourada, no palácio, e disse: ‘Não sabemos acender o fogo, não sabemos dizer as preces, não conhecemos o local, mas podemos contar a estória de como isto foi feito’. E o narrador acrescenta: ‘A estória que ele contou teve o mesmo efeito das ações dos outros três’. [LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin: tradução e melancolia. São Paulo: Edusp, 2002, p. 129]

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