Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de setembro de 2012

Caê Guimarães

QUARTO DE TORQUATO

Por vezes ando assustado, como os pombos.
Porque corro,
concordo com o boicote ao estado normal das coisas.
Tiro do meu afeto todos meus segredos
- quinhões de coragem e medo -
olho desatento para os lados,
e impaciente não me percebo em lugar nenhum.

Não acredito mais no amor de múmias.
Elas também fedem sob as gazes encardidas.

Múmias podem até ser divertidas.

Instantâneo: poesia e prosa. Vitória: Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, 2005, p.82.

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