Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

respirando através da escrita

Vem-me, amiúde, um estalo acerca da necessidade de uma faxina no blog, coisas que precisam ser eventualmente apagadas, ou então encontrar endereço novo. Cedo ou tarde essa mexida vai acontecer, porque se eu continuo a escrever para um grande nada, mesmo isso passou por certa metamorfose. Uma metamorfose profundamente libertadora.

2 comentários:

Helena disse...

Acho que quem precisa de escrever, numa larga maioria das vezes o faz para um grande nada.
Ou mais bem dito:
- só para si mesmo, talvez quando já for outro, num qualquer futuro que nos espere.

Eu acho que escrevo para mim e, quando volto atrás no blog (nada de apagar coisas!) me espanto algumas vezes com o que escrevi, outras me emocionam.
E assim leio o meu percurso.

Beijo.
Clarice tornou-se-me uma companhia constante. Só minha, que ainda não consegui partilhá-la com ninguém.
Um imenso obrigada!

Mariana disse...

Oi, Helena, fico felicíssima em saber que a Clarice encontrou em você uma amiga. Assim como escrever, às vezes lemos para nós mesmos, e no caso da Clarice é mesmo uma experiência difícil de ser partilhada.

Um dia eu e uma grande amiga conversamos sobre o conto "Amor", e pudemos perceber o que é sentir uma narrativa como esta por dentro, como cada uma sentiu a personagem e sua insólita experiência. Eu, que me mudei há relativamente pouco tempo para o Rio, confesso que fiquei surpresa ao experimentar o Jardim Botânico, depois de ter lido um conto como "Amor" e perceber de que lugar se tratava. Foi uma experiência impregnada de Clarice Lispector, não poderia ter sido diferente. E digo isso sem qualquer afetação ou presunção, porque a densidade dos textos dela é forte.

Voltando à escrita: também sinto isso, esse escrever para mim, uma necessidade que se confunde com um grande nada, que parece estar nos ouvindo. Algumas coisas que escrevi eu não gosto de reler, talvez porque intua, através delas, o quanto mudei nos últimos tempos. Muito obrigada pela sua escuta, é uma alegria saber que esses instantâneos da vida podem ser partilhados.

Beijo carinhoso.