Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 14 de setembro de 2013

o que detesto quando digo “eu detesto a Rita Lee”

Naturalmente o que a Rita Lee representa (para mim): uma musiquinha fácil, de supermercado, grudenta; a postura pseudorrebelde; a voz chata dela; o adocicado viscoso de letra e melodia; a autocomplacência burguesa de um gosto musical duvidoso; os sorrisos de comercial de margarina... É preciso, acima de tudo, poder detestar, ter o direito de detestar — algo, alguém, alguma coisa —, porque não há como ficar indiferente às coisas detestáveis.

6 comentários:

Jamil P. disse...

nossa, quanto ódio nesse coração! hahaha
mas eu a entendo, embora não concorde 100%, pois tem uns 'cantores' por aí que chegam a me dar gastrite e dor de cabeça só de ouvir.

Mariana disse...

E olha que destilei pouco... ha-ha!

Não dá né? Juntou tudo e sobrou pra ela, meu modo indireto de falar mal de um tal de Rock in Rio. Brabeza.

Luiz disse...

Mariana, apesar de eu gostar de uma música da Rita, adorei sua reflexão. Nunca tinha pensado nesse retrato da cantora, mas achei tão bem realizado. Mas nietzschiana impossível! Golpes a martelo. =D

Mariana disse...

Oi, Luiz, foi um momento de ira, em que fiquei atravessada de escutar uma música dela, trilha sonora fácil de supermercado. Lembrei daquela crônica da Clarice, "Dies Irae":

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo."

De tanto aceitar o fácil, chega uma hora que não mais se consegue percebê-lo. Não amanheci com cólera, ou amanheci sem sabê-lo, porque bastou ouvir aquela música no supermercado para uma sensação desagradável tomar conta, talvez porque a anterior já tivesse me incomodado um pouco. Então veio o verbo que a situação pedia: detestar. Olha isso que a Clarice diz: estar vivo com charlatanismo... Ela também, nesta crônica, usa golpes de martelo contra o fácil viscoso em que se pode transformar a existência.

Obrigada!

sonia disse...

A Rita Lee descobriu a fórmula de ganhar dinheiro com o gosto medíocre da maioria das pessoas.Detesto pelo mesmo motivo o Roberto Carlos e suas musiquinhas medíocres para corações melosos e pouco exigentes.

Mariana disse...

São todos de uma época de contestação, em que a música brasileira se descobriu como protesto, o que a censura soube muito bem esvaziar, deixando o caminho livre para esse gosto mediano. Hoje é esse gosto que constitui a própria censura. Trata-se de uma música de e para tocar na rádio, feita de encomenda, e isso barra as possibilidades de sair do plano do entretenimento.

Nós somos bons nisso, em produzir mediania. Também exportamos jogadores de futebol e soja. Essa semana vi uma coisa que me assustou: no último ranking das 100 melhores universidades do mundo não há universidades brasileiras.

http://exame.abril.com.br/carreira/guia-de-faculdades/noticias/as-100-melhores-universidades-do-mundo-em-2013