Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

desejo

Ontem eu desejei respirar como fazia na juventude, ou num tempo ainda mais distante, motivada pela sensação de que, por um brevíssimo momento, eu tenha respirado como se tivesse 14, 15 anos... Tão rápida a sensação veio e se foi, quase imperceptível, que eu fiquei tentando reaver uma espécie de bem-aventurança perdida, como se a razão fosse o bastante para fazer o corpo experimentar essas sensações fugidias. Mas essa mínima incursão do passado no presente trouxe, além da nostalgia de um tempo em que o ritmo, o pulsar da vida era outro, aparentemente inexplicáveis, trouxe a esperança de que alguma coisa daquele ritmo possa uma hora, naturalmente, ressurgir no corpo de hoje.

4 comentários:

Luiz disse...

Você sempre consegue me surpreender. Um beijo!

Mariana disse...

Oi, Luiz, notei sua ausência, senti sua falta...

Por coincidência, recebi seu comentário enquanto me encontro no ES, contexto, pelo menos geográfico, desse texto. Observar o ritmo com que se respira e perceber que já foi diferente. Li "Água viva", um livro que tem muita respiração, digamos assim, que alarga a respiração. Agora estou lendo "Um sopro de vida", mas estou achando mais difícil.

Bj.

Luiz disse...

Oi, Mariana...dei uma sumida mesmo, mas de repente escapo e venho me perder no seu jardim botânico, assim como a Ana de Clarice. Dei um tempo em muitas coisas do mundo virtual porque estava difícil respirar. Enquanto não criamos a oportunidade de um encontro, vou me encontrando com você por aqui. Um abraço!

Mariana disse...

Luiz, entendo a sumida, especialmente em se tratando do mundo virtual. Sumir é uma forma de se reinventar.

Obrigada pelas palavras elogiosas. Já tive oportunidade de dizer, creio, que a geografia trouxe um contato novo com a escrita da Clarice (não sei se com a persona Clarice), um contato marcado pelo contíguo, às vezes incômodo, às vezes libertador. Por outro lado, é preciso a necessidade para que certas leituras possam acontecer.

Outro abraço!