Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 22 de março de 2014

mar – gens

Cuspi na zona de espraiamento — aquela parte mágica da praia em que se caminha molhando a pequenos intervalos os pés —, e fiquei esperando a onda que viria integrar aquela parte desprezível de mim ao suco salgado do mar.

4 comentários:

Jamil P. disse...

por que parte desprezível??

Mariana disse...

Veja bem: o verbo prezar tem, entre suas acepções, "querer para si; desejar, almejar"; a saliva que eu não engoli, eu não quis para mim; logo, eu a desprezei. Seguindo essa lógica, ela foi desprezada, adquirindo portanto um aspecto de coisa desprezível, que é, também, o mesmo que desprezável, "que se pode desprezar; passível de ser desprezado". Eu gosto de pensar na polissemia das palavras, porque tendemos a encarcerá-las em certas conotações, positivas ou negativas. Toda vez que eu cuspo, eu desprezei uma parte de mim, sem que isso signifique necessariamente que essa parte é algo vil,abjeto, vergonhoso.

Jamil P. disse...

hummm... tá certo; tinha pensado em algo relacionando saliva, sal, sabor, sabedoria, etc, mas, diante do que você disse, prefiro desprezar meu comentário... ;)

Mariana disse...

Você pensou bem, não precisa des-prezá-lo :) Inclusive porque essas relações foram acionadas pelo sal/sabor do mar.

Mas é que mirei as margens, inclusive das palavras.