Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

miniconto erótico

Chapeuzinho-vermelho não sonhava encontrar o lobo mau. Desejava o caçador.

7 comentários:

Jamil P. disse...

está mais para micro, não?

inspirou-se na versão adulta para o cinema? (red riding hood, 2011)

Mariana disse...

sim, micro; nem vi essa versão, aliás acho que nenhuma no cinema; seria a projeção sobre um lobo monstruoso e imaginário de fantasias sexuais da menina com os homens: o lobo seria o desdobramento do caçador, que aparece apenas como protetor.

Jamil P. disse...

entendi, eu acho; também não assisti; ah, seria então uma espécie de versão psicanalítico-maniqueísta, ou nada a ver? (ou, cuidado para não cair da cadeira caso esteja sentada, 'nada haver', como lemos hoje com frequência...)

Mariana disse...

não necessariamente maniqueísta, pois ela não tem saída: o contexto a empurra em direção ao lobo/caçador, numa atmosfera bastante sufocante da mulher; o problema é demonizar o lobo, porque ele, nessa elucubração "psi", torna-se inseparável do caçador, que é quem a menina almeja e vê como companhia masculina quando crescer.

Jamil P. disse...

nos mitos gregos ou nos contos de cavalaria, a consumação desse desejo de união seria impossível, a partir de uma concepção gnóstica do universo (condenação do matrimônio, pela perpetuação da matéria, etc); achei que isso também aconteceria no seu conto, daí mencionei o maniqueísmo, pois entendi que o lobo seria uma alegoria de um lado essencialmente negativo da natureza humana; mas acho que não entendi direito, ao não considerar essa questão sócio-cultural, se assim posso dizer, da atmosfera sufocante da mulher, o que não ficou evidente para mim num primeiro momento; enfim; mas eu gostei, viu? :)

Mariana disse...

obrigada pelas considerações instigantes e reveladoras :)

Jamil P. disse...

imagina :)
seu microconto rendeu um macrocomentário; boas inspirações e que venham outros ;)