Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 3 de janeiro de 2015

final de tarde (ou seria crepúsculo?)

4 comentários:

Jamil P. disse...

acho crepúsculo mais poético... :)

Mariana disse...

Crepúsculo é uma palavra fechada, ao contrário de praia e mar, e da amplidão que descortinam... Com a palavra crepúsculo, parece que estou projetando nessa combinação tão peculiar de mar (praia e água) e céu (ar) um poema de Raimundo Correia, ou similar, enquanto o que vejo e sinto é outra coisa...

Anoitecer
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se além da serranja
Os vértices de chamas aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mudo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua.

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula.... Anoitece.

Jamil P. disse...

que lindo! gosto da expressão 'tons suaves de melancolia' e daquilo que ela evoca...
sou grande fã dele, sabe? desde a primeira vez que li 'mal secreto', há alguns séculos... :)

bom, já eu vejo e sinto que 'mariana' igualmente descortina uma imensa amplidão... ;)

Mariana disse...

mar e ana ;)