Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

o sol


Há uma semana faz um sol imperioso aqui no Rio de Janeiro — absoluto, quente, sem nuvens para amenizar. O calor, sem exagero, está infernal, e as praias, lotadas. Em particular sinto-me refém, saindo de casa apenas para o necessário e optando por não duelar com o sol — o fim de tarde e a noite tornaram-se horários alternativos para sair, inclusive ir à praia e entrar no mar sem sentir que a pele está sendo devorada pelo sol. Acredito que muitos tenham o mesmo sentimento, e olham as praias lotadas com indiferença. O ar condicionado é indispensável para dormir. Mas, mas, mas... aqui não temos a pena de morte — pelo menos oficialmente. Parece hipócrita o que estou dizendo, e em muitos sentidos talvez o seja. Implica a visão a partir de um certo lugar social. Mas quando vejo comentários raivosos na internet desejando a implementação da pena capital no país, me espanto e me pergunto de onde vem tanto ódio.

6 comentários:

Jamil P. disse...

eu não consegui captar a relação entre a primeira parte, digamos, falando do calor, da praia e tal, e a segunda, sobre a pena de morte, a raiva, o ódio e sua origem; talvez seja o calor, que por aqui também está super intenso por estes dias, derretendo meu cérebro...

ps. o inhame está no ponto, ainda não o fiz pois tenho muita comida para consumir antes sob pena de estragar (até pelas eventuais quedas de energia devido aos temporais, com a geladeira desligada etc); preciso lhe agradecer a receita! :)

Mariana disse...

Não ficou claro mesmo... acho que a ideia seria mais ou menos esta: aqui é/está ruim, mas poderia ser pior. É um discurso meio Poliana. O sol parece que vai nos derreter a todos, mas ainda é melhor estar aqui do que numa nação que entende a pena de morte como solução para os crimes. É uma visão retrógrada, atrasada, calcada na interpretação mais crua da lei do talião. Escrevi isso inspirada pela história de um brasileiro que se encontra preso na Indonésia, na fila da morte, por tráfico de drogas.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1572623-indonesia-nega-pedido-de-clemencia-e-diz-que-vai-executar-brasileiro.shtml

Dá uma olhada nos comentários... É um ódio absurdo, um querer, a qualquer custo, a pura e simples eliminação do outro...

Há um articulista daquela famosa revista que trata "Direitos Humanos" como "Direitos dos Manos". E por aí vamos. A direita e o pensamento reacionário no Brasil assustam. Não conseguem, certamente, contemplar o pôr do sol.

Jamil P. disse...

agora entendi! :)

esses comentários não devem ser levados a sério; acho que são mais ou menos como o grito de uma torcida apaixonada, num disputado jogo de futebol...

eu não sei, a situação do brasil está muito ruim, em matéria de insegurança e impunidade; as pessoas já não podem mais sair de casa tranquilas sabendo se voltarão ou não, ir à praia com algum pertence mais valioso, etc, isso tudo que já estamos cansados de saber... na esfera do poder público, os fatos não são tão cruentos e chocantes, mas a gravidade dos crimes contra a vida é até maior; p.ex., recentemente o fantástico exibiu uma matéria sobre corrupção em que um entrevistado, indagado sobre a gravidade do que ele fazia (corromper para receber propina) e suas consequências, como falta de verba para hospitais e pessoas que iriam morrer por não ter tratamento médico adequado, ele disse, com a maior frieza e cinismo do mundo, que não se importava nenhum pouco, que o que ele queria era corromper, fraudar e lucrar com isso; em outras palavras, o cidadão que paga impostos etc está praticamente condenado à morte se depender da boa vontade dos governantes e da eficiência do sus caso precise de uma cirurgia ou tratamento que requer maior cuidado por envolver risco à sua vida e tal; e por aí vai; e ninguém paga por isso, no final das contas; é algo triste e revoltante; não tem cabimento uma presidente fazer uma cerimônia com toda pompa e circunstância, gastando rios de dinheiro etc enquanto pessoas morrem nos hospitais, ou melhor, na porta deles, por falta de atendimento médico etc;
bom, não entrarei no mérito dessa questão, senão ficaria aqui horas e horas escrevendo, e não tenho o direito de abusar da sua paciência e tempo :)

Mariana disse...

Você tem razão. Percebo que meu post foi ingênuo, reflete um senso comum que não se sustenta diante da mundialização que vivemos. Eu queria dizer alguma coisa mais imponderável, que não consegui...

Me lembrei de temas recentes do vestibular da fuvest, que discutem justamente a questão das fronteiras, explicitamente ou mediante neologismos como "descatracalização da vida" e "camarotização".

http://veredasdalingua.blogspot.com.br/2013/01/temas-de-redacao-da-fuvest-2009-2012.html

Sem contar a excelente instalação de Cildo Meireles em Inhotim:

http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/atraves/

Quer dizer: as fronteiras tornaram-se fluídas, e ao mesmo tempo foram extremadas. Reconhecem-se fronteiras geográficas, marcadas pela língua e por um certa identidade cultural (e fortes reivindicações e lutas sangrentas nesse sentido), mas ao mesmo tempo muitos fluxos parecem desconhecer fronteiras: o capital, a informação (não qualquer informação, claro), o ódio, o fundamentalismo... A lista é imensa.

O Brasil é uma criação do Romantismo, que vem subsistindo.

Jamil P. disse...

verdade, acho que há um certo idealismo romântico nisso também de o brasil ser esse, por assim dizer, eterno 'país em desenvolvimento' ou 'emergente'

Jamil P. disse...

preciso voltar ao inhotim, já quase não me lembro dessa e outras instalações...