Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

letargia

Minha miopia tem me feito enxergar tudo meio lento — os Correios, o retorno das ligações dadas, a internet, as operações básicas da vida. A paciência precisa ser de Jó, mas a ansiedade é moderna, contemporânea, não é fenômeno que se possa aferir com parâmetros bíblicos. Leio sobre meditação e técnicas de respiração, mas é preciso pagar para se iniciar nesses saberes milenares — quem sabe os mesmos que permitiram a Jó esperar tanto —, além de sair de casa, fazer contatos, mandar e-mails, dar telefonemas, encontrar espaço na agenda, coisas que via de regra mais chateiam que acalmam. Tento imaginar o mundo em que essas técnicas de desacelaração foram criadas, forjadas, elaboradas. Não consigo. Enquanto isso o país parece estar caminhando para um nó, cujo desfecho vai ser certamente desagradável.

2 comentários:

Jamil P. disse...

talvez não seja (só) sua miopia, os correios andam meio lentos mesmo, ultimamente...

os acontecimentos do cotidiano perdem um pouco sua importância, relativamente falando, quando inseridos num contexto maior, o de toda a nossa vida e o que fez ela caminhar nesse ou naquele caminho, ou seja, as grandes escolhas, decisões etc; creio que confrontar esses dois aspectos relacionados ao que é passageiro e ao que permanece possa ajudar nessa coisa desaceleração de ritmo, tão saudável para nosso corpo e mente, parece-me; sei lá :)

Mariana disse...

concordo, e por isso a sensação de miopia, de não conseguir me distanciar para dar aos acontecimentos não a proporção que eles têm (porque tudo é relativo), mas uma proporção, ou perspectiva, que os torne moscas perto de águias, conforme o provérbio latino.

:)